
La Red de Liturgia es una iniciativa latinoamericana que nace en 1991 de la mano del pastor brasileño Ernesto Barros Cardoso, como una manera de crear lazos firmes entre las personas que deseaban compartir sus experiencias en este terreno de la vida eclesial.
Proclamar Libertacao
ATOS 2.42-47
1 PEDRO 2.19-25JOÃO 10.1-10
Uwe Wegner1 Introdução
O texto de João 10.1s. trabalha em sua parte figurativa (v. 1-6) com um imaginário pastoril de campo e lavoura. Há um “aprisco” (curral, redil), cuidado por um “porteiro” (v. 3) e destinado ao abrigo (noturno) de (várias) ovelhas, ao qual se tem acesso normal por uma “porta” (portão), ou acesso ilegal “por outras partes”. Quem entra pelo acesso normal, pela porta, é o “verdadeiro”
pastor de ovelhas, a quem elas seguem e conhecem. Os que “sobem” (v. 1) por outros lugares para entrar no redil são considerados ladrões e salteadores (v. 1, 8) ou “estranhos” (v. 5). Essa “história” é considerada paroimia, que no grego pode adquirir significados como “parábola”, “provérbio”, “dito ou conto enigmático”, “figura de linguagem” etc. Em nosso texto, ela é considerada um “conto enigmático”, pois os fariseus (cf. v. 6 com 9.40s.) não “compreendiam o seu sentido”.Nos v. 7-10, temos uma “aplicação” desse conto enigmático. Nessa parte, Jesus identifica-se com a porta que dá acesso para fora, a pastagens, alimento e vida, mas também para dentro, garantindo vida e segurança no interior do curral (“entrará e sairá e achará pastagem”: v. 9). Na verdade, Jesus como “porta” não representa nem mais nem menos do que o próprio
acesso à salvação (v. 9: “Se alguém entrar por mim será salvo”). O papel dos “ladrões, estranhos e assaltantes” – os que vieram antes dele – foi exatamente o contrário, a saber, de destruição e morte (v. 10).O texto de Atos 2.42-47 mostra-se como exemplo de uma comunidade que vive da vida em abundância que Jesus oferece: há comunhão material e espiritual, as necessidades das pessoas são supridas pela comunidade. O texto de 1 Pedro 2.19-25 mostra uma faceta do discipulado dos cristãos: para ser discípulo de Cristo, é preciso renegar a violência e a vingança; é preciso negar-se a si mesmo e tomar a própria cruz – o pastor conduz as
ovelhas pelos caminhos que ele mesmo percorreu.2 Exegese
A figura que Jesus usa para caracterizar seu ministério – as ovelhas no curral e seu seguimento ao pastor conhecido – destaca dois aspectos. O primeiro é de antagonismo. No curral, onde se encontram entre diferentes ovelhas aquelas pertencentes ao verdadeiro “pastor”, há também guias pastores inautênticos, cuja intenção é levar as ovelhas à ruína, à morte. O “curral”, portanto, não é um espaço neutro. As ovelhas são aliciadas também por gente que lhes causa prejuízo e sofrimento. É preciso, pois, conhecer as diferentes “vozes” e não seguir pastores cuja voz soe estranha.O segundo momento ressalta a união entre o pastor e as ovelhas. O pastor conhece-as nominalmente e as guia para fora. Elas, por sua vez, identificam sua voz e seguem-no confiantes. Essa figura está permeada pelo imaginário amplamente explorado no Antigo Testamento. Os dois textos mais evocados na exegese são o Salmo 23 e Ezequiel 34. Em Ezequiel 34.3s., a palavra de Deus mostra-nos como se comportam “ladrões e salteadores”: apascentam a si mesmos, mas não as ovelhas. Não fortalecem a fraca, não curam as doentes, não ligam para as quebradas, não procuram as desgarradas e não buscam as perdidas. Além
disso, dominam sobre elas com rigor e dureza (v. 3-4).Na aplicação da figura para a realidade (v. 7-10), a exegese tem encontrado algumas dificuldades:
1 – A primeira delas: a quem Jesus poderia estar se referindo com as palavras “ladrões e assaltantes”. A todos os que vieram antes de mim e a cujo chamado as ovelhas não deram ouvidos (v. 8, 10)? Como desde o Antigo Testamento a figura do “pastor” é metáfora para os governantes políticoreligiosos de Israel (Ez 34.2-5, 23s.), geralmente se afirma que “ladrões e assaltantes” poderiam ser todos os líderes que, antes de Jesus, governaram
mais para si do que propriamente para o atendimento dos interesses e necesidades do povo da aliança, incluídos aí os diversos pretendentes messiânicos e libertários, que, antes da atuação pública de Jesus, notabilizaram-se como protagonistas de seguidas revoltas contra herodianos e romanos. Contudo, não é preciso pensar unicamente em lideranças “nacionais”. Ora, também
“escribas e fariseus” eram considerados “mestres e guias” em Israel, pelo que Jesus lhes dirige severas críticas, como em Mateus 23.4 ou 23.24. Jesus também poderia estar se referindo a tais “menores” pastores, tanto que no capítulo 9 é justamente contra eles a polêmica (cf. também 9.40s. com 10.6).2 – A segunda dificuldade refere-se à identificação de Jesus com a “porta” (v. 7 e 9), quando em verdade 10.1-5 sugeriria antes uma identificação direta com o verdadeiro “pastor”. Os v. 7-10 também não contrapõem a porta que representa Jesus a uma outra porta que representaria os ladrões e salteadores. Parece quase que em Jesus as imagens do bom pastor se alternam
e fundem com a da porta exclusiva. No texto, elas são praticamente intercambiáveis. Pois, como “a porta” Jesus não deixa de ser o verdadeiro pastor, exatamente como tal representa o verdadeiro acesso à vida e à salvação.Jesus pode ter extraído também a metáfora da porta de antecedentes no Antigo Testamento. A pesquisa costuma apontar para o v. 20 do Salmo 118 (117): “Esta é a porta para o Senhor [...] Somente os justos podem entrar por ela [...]” e para outros textos gnósticos, como por exemplo: “Nada encontrei fechado para mim,/ Pois tornei-me a porta para tudo” ou “Tira-nos das garras das trevas,/Abre-nos a porta/ Para chegarmos a Ti”.
Importante é perceber que, comparando-se com “a porta” que leva para a salvação, Jesus atribui a si competências de representar um canal privilegiado de acesso tanto entre as pessoas e Deus como entre as ovelhas e suas pastagens (v. 9), ou seja, entre os fiéis e o que lhes convém para uma vida abundante.
3 Meditação
O que o conto de Jesus acentua em relação a sua pessoa é que:a – Ele é aquele que – ao contrário de “ladrões e assaltantes” – conduz as ovelhas para onde há alimento e, portanto, promove a vida. Outros pastores “apascentam a si próprios”. Eles arrebatam ovelhas da maneira que lhes favoreça e lhes proporcione abundância. Como eles procuram sempre mais
servir-se do que servir, seu pastoreio é avesso às dificuldades e cruzes. E tem uma marca inconfundível: nunca é totalmente transparente. Quem não pode entrar pelas portas dos currais é porque necessita esconder propósitos, camuflar intenções.
b – Nessa qualidade de dar acesso e passagem para o sustento e a vida abundantes (v. 10), Jesus é de importância singular e inigualável (não há outras “portas” mencionadas no conto). Jesus entende-se como a porta! Há, é claro, outros acessos e outras “portas” possíveis, por cujos umbrais passam as pessoas no intuito de encontrar sustento e vida em abundância – dezenas ou centenas de receituários de felicidade são oferecidos diariamente pelos meios
de comunicação e pelas mais diferentes igrejas –, mas elas não têm a mesma solidez e durabilidade, ou quando têm durabilidade, não vêm acompanhadas dos mesmos valores da retidão, solidariedade e justiça. Em outras palavras: a passagem, o acesso que Jesus representa para a felicidade é uma porta “estreita” (Mt 7.13/Lc 13.24), é caminho nem sempre fácil e rápido. Aos que se encontravam ansiosos pelo que haveriam de vestir, beber ou comer Jesus asegura a fartura, mas com a condição de “buscar em primeiro lugar o seu reino e
a sua justiça” (Mt 6.25-34); e as multidões famintas, “que eram como ovelhas que não têm pastor”, ele saciou abundantemente, mas ensinando-lhes a partir e repartir primeiramente o pão que haviam recebido (Mc 6.30-44).c – Quando Jesus se transforma em pastor ou porta de acesso à salvação na vida de alguém, ele o faz de forma pessoal e íntima: ele conhece os que o seguem pelo nome; os que o seguem e conhecem pela voz. Outros pastores também arrebanham ovelhas e seguidores. Mas a relação nesses casos é mais anônima e massificada, e as vozes de tais pastores soam diferentes demais para poder ser o eco da voz inconfundível de um e mesmo Senhor.
4 Imagens para a prédica
As imagens mais marcantes sobre Deus como o “bom pastor” encontram-se no Antigo Testamento, mormente nos textos de Isaías 40.10s.
Ezequiel 34 e Salmo 23.1-3. No Novo Testamento temos, além do texto de João 10.1s., ainda a parábola da ovelha perdida, em Lucas 15.3-7, como expressão para a figura do bom pastor.
Na prédica, se quisermos explorar esse imaginário, é preciso lembrar que não podemos mais pressupor que currais, cercados e a figura de pastores cuidadores de ovelhas sejam conhecidos por todos – a maioria das pessoas hoje não está mais familiarizada com a vida do campo e dos currais. Por isso as figuras do pastor e das ovelhas podem necessitar de breves esclarecimentos.Um outro imaginário que pode ser explorado é a figura da “porta”. Jesus como a “porta” que nos dá acesso à vida e à salvação pode ser assimilado pelo emprego de expressões semelhantes. Também em nossa vida comum existem pessoas com funções de porta: elas nos “abrem” oportunidades, nos “conduzem” a pessoas-chave que nos podem ajudar, intermedeiam empregos ou entrevistas com pessoas decisivas para conseguirmos colocação profissional
etc.“Ladrões e salteadores”, para camuflar suas más intenções, costumavam entrar sorrateiramente nos currais – pulavam em partes que não podiam ser visualizadas a partir da porta de entrada. Esse imaginário pode encontrar fácil eco atualmente, pois também ladrões e assaltantes de hoje procuram sempre se esconder ou assumir ares de pessoas normais para que a entrada nos imóveis e nas casas não seja percebida e comunicada à polícia. Os modernos “ladrões e assaltantes” aparecem não raro vestidos de policiais ou de roupa bem arrumada. Essa é a maneira moderna de entrar pelos lados ou de pular os muros para não ser percebido na porta de entrada.
5 Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados:
Amado Deus. Confessamos-te hoje que damos pouco ouvido à tua voz de pastor, que procura conduzir-nos por bons caminhos. Preferimos caminos fáceis, largos, sem dificuldades e sacrifícios, e imaginamos encontrar neles a nossa felicidade. Muitas vezes, são eles que nos levam à desgraça, à desunião, aos vícios e à perdição. Perdoa-nos. Não nos abandones quando nos afastamos da verdade, nem nos desprezes quando praticamos a injustiça.
Mas nos busca e nos converte.Palavras de absolvição:
Jesus diz: Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas.Oração de coleta:
Bondoso Deus. Orienta-nos com tua Palavra e Espírito neste dia. Assim como um pastor conhece suas ovelhas e as chama pelo nome, lembra-te também sempre do nome de cada um e cada uma de nós, para que nos possamos sentir amparados e protegidos por tua mão.Oração final: (Além das costumeiras intercessões)
Senhor, há muitas vozes que nos chamam e buscam cativar-nos com receitas de felicidade. Dá-nos sabedoria para identificar a tua voz, o teu chamado e as tuas propostas para o mundo de hoje.Há também falsos messias e pastores que sabem iludir, enganar e explorar as pessoas com promessas vãs, que não são cumpridas. Dá-nos sabedoria para identificar quem quer o nosso bem e quem só quer o seu próprio bem; quem quer ser pastor que cuida de nós e quem quer ser “ladrão e assaltante”, que nos abandona quando já conseguiu tirar vantagem de nós.
Bibliografia
KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes, 2001.
BLANK, J. O evangelho segundo João. 1ª Parte B. Petrópolis: Vozes, 1991.