JOÃO 11.1-3,17-27
Júlio Cézar Adam
EZEQUIEL 37.1-14
ROMANOS 8.6-11
1 Introdução
Devo dizer que, à primeira vista, fi quei um pouco confuso com a delimitação do texto bíblico. É o texto da ressurreição de Lázaro, mas, então, por que se deixa fora justamente a parte que relata a ressurreição de Lázaro (v. 38-44)? Somente depois de refl etir cuidadosamente sobre o texto e do trabalho exegético é que fui me dando conta de que se trata, sim, da ressurreição de Lázaro – esse é o pano de fundo –, mas o tema central dessa perícope é a fé naquele que é a ressurreição e a vida, Jesus Cristo. Nessa perícope, essa fé tem como protagonista Marta, irmã de Maria e de Lázaro. Não só a ressurreição de Lázaro quer ser contada, mas a ressurreição que se dá a partir da ressurreição. A ressurreição que toma conta da vida das pessoas nesta vida.
Os textos que acompanham o evangelho, segundo o Lecionário Comum Revisado, vão por esse caminho. O texto do Antigo Testamento, Ezequiel 37.1-14, conta sobre o vale dos ossos secos. O Espírito de Deus faz voltar à vida os ossos secos, as pessoas secas de esperança e vida por causa do exílio. O texto da epístola é de Romanos 8.6-11, que nos leva a refl etir sobre os efeitos do viver sob a infl uência do Espírito de Deus. Se Cristo vive em vocês, então, embora o corpo de vocês vá morrer por causa do pecado, o Espírito de Deus é vida para vocês porque vocês foram aceitos por Deus, diz Paulo no v. 10.A mensagem que quer ser proclamada, portanto, neste 5º Domingo na Quaresma, dois domingos antes do Domingo da Páscoa, é a ressurreição. Não só como evento, mas a ressurreição como marca e pilar da fé cristã, a ressurreição como tecido da fé do cristão.
2 Exegese
O Evangelho de João é um dos últimos livros do Novo Testamento. Provavelmente tenha sido escrito na cidade de Éfeso, através de muitas mãos da comunidade do Discípulo Amado. Por isso acabou sendo atribuído a João. O evangelho demorou cerca de 60 anos para tornar-se um texto. Antes de ser escrito, foi vivido e tecido em meio a difi culdades e confl itos. Em torno do ano 100, recebeu a redação defi nitiva. A comunidade de João é composta por diferentes grupos: judeus convertidos, samaritanos, pagãos, bem como gregos. Grandes confl itos são enfrentados
pela comunidade: confl ito com o mundo e a humanidade, como sistema social injusto; com a fé e a tradição judaica, aqueles que tentam apagar a luz (cf. 1.5); com os seguidores de João Batista, por isso o esforço de dizer que João Batista não era a luz, mas testemunha da luz (cf. 1.6-8), dentre outros conflitos. Todo o evangelho pode ser dividido em duas grandes partes. A primeira
parte seria a parte dos sinais, e a segunda parte o grande sinal, a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Segundo Bortolini, podemos organizar o livro da seguinte forma:
Prólogo (1.1-18)
1ª Parte: O livro dos sinais (1.19-12.50)
(Primeira semana – 1.19-11.57)
1º Dia (1.19-28)
2º Dia (1.29-34)
3º Dia (1.35-42)
4º e 5º Dias (1.43-51)
6º Dia (2.1-11.1ss) Início dos sinais da vida
1º Sinal (2.1-12): O casamento de Caná
2º Sinal (4.46-54): A cura do fi lho do funcionário real
3º Sinal (5.1-9): A cura do paralítico
4º Sinal (6.1-15): A partilha dos pães
5º Sinal (6.16-21): Jesus caminha sobre as águas
6º Sinal (9.1-41): A cura do cego de nascença
7º Sinal (11.1-44): A cura de Lázaro.
(Segunda semana – 12.1-19.42)
2ª Parte: O grande sinal (13.1-20-29)
Lava-pés (13.1-30)
Discurso de despedida (13.31-17.26)
Paixão, morte e ressurreição de Jesus (18.1-20.29)
Epílogo (20.30-31)
Apêndice (21.1-23 – O dia que não termina)
Segundo epílogo (21.24-25)
Nossa perícope, 11.1-3,17-27, encontra-se, portanto, dentro da primeira parte do livro, sendo um recorte do último sinal, antes do grande e decisivo sinal, vivenciado por Jesus Cristo. O sétimo sinal, a ressurreição de Lázaro, vence uma barreira que parecia insuperável: a morte. Jesus já tinha mostrado muito: curas, milagres, outros sinais, mas esse é o maior de todos: a ressurreição do amigo morto a quatro dias. A ressurreição de Lázaro não é uma metáfora. Entendo-a como um acontecimento real, mesmo que traga consigo elementos simbólicos para a interpretação. Confi rma o que o prólogo afi rma: Na Palavra estava a vida, e a vida era a luz das pessoas (1.4). O sinal está ligado com o capítulo 10, pois Lázaro é a ovelha que escuta a voz do pastor e volta à vida. O sétimo sinal pode ser assim estruturado:
I. Fugindo de Jerusalém, Jesus retira-se para o outro lado do rio Jordão (10.40- 42)
II. Volta à Judeia. Lázaro morre antes de Jesus chegar (11.1-16)
III. Jesus encontra-se com Marta na entrada de Betânia (11.17-27)
IV. Jesus fala com Maria e segue-a para visitar o túmulo (11.28-37)
V. A ressurreição de Lázaro (11.38-44)
VI. Complô contra Jesus (11.45-53) e retirada para o deserto (11.54)
Nosso texto, portanto, é um recorte. Toma alguns versículos da parte II, que serve para localizar o ouvinte no acontecimento, e da parte III, que é o encontro de Jesus com Marta no velório de Lázaro. Aqui está o ponto central para a pregação: o encontro de Jesus com Marta. Poderíamos dizer que todo o sétimo sinal tem como tema central a fé de Marta e Maria. A ressurreição de Lázaro é o sinal, o pano de fundo. A fé das duas irmãs é o kérigma desse texto (11.1-44). Numa dimensão mais ampla, o que está em jogo é a fé em Jesus a partir dos sinais, a incredulidade e a rejeição mortal por parte das autoridades judaicas, que culminará nos eventos do grande sinal, a cruz. Numa dimensão menor, está a fé das irmãs de Lázaro, que envolve a fé da comunidade em torno de Jesus. Nossa perícope, especifi camente, trata da profi ssão de fé de Marta.
O 7º sinal do evangelho tem grande impacto tanto para Marta e Maria como para a comunidade de Betânia, os discípulos, os adversários de Jesus Cristo e, sem dúvida, o próprio Lázaro. Não é algo comum. A reanimação da fi lha de Jairo (Mc 5.21-43 e par) ou do fi lho da viúva de Naim (Lc 7.11-17) é pouca coisa em comparação com a ressurreição de alguém que já está em estado de decomposição. Na tradição judaica, até o 3º dia após a morte, ainda havia esperança de que a pessoa pudesse voltar à vida. O 4º dia representa o fi m da esperança. Existe uma preocupação na redação em situar o ouvinte quanto aos personagens.Fala-se de Marta e Maria como pessoas conhecidas. Se há uma relação com a história narrada em Lucas (Lc 10.38-41), não é possível averiguar. Maria é apresentada como a que ungiu os pés de Jesus com óleo e secou seus pés com os cabelos (Jo 12.1-8). Lázaro era alguém que Jesus amava (v. 3,5). Não se sabe exatamente por que Jesus não vai logo curar Lázaro após receber o aviso de que ele estava doente (v. 3,6). Talvez Jesus achasse que ele não iria morrer ou deixa que ele morra para revelar a glória de Deus (v. 4,15), ou porque Jesus temesse voltar para perto de Jerusalém e ser morto (v. 8). Na minha compreensão, a morte de Lázaro e sua ressurreição servem como base para a refl exão e edifi cação da fé em torno da ressurreição, preparando, assim, a comunidade para a grande ressurreição, a do próprio Jesus.
Há sim uma clara intenção de relacionar o último sinal com o grande sinal que o procede. A ressurreição de Lázaro prefi gura de certa forma a morte e a ressurreição do próprio Cristo. A proximidade de Betânia com Jerusalém (apenas 3 km) sinaliza uma proximidade não só geográfi ca, mas também em relação aos eventos que estão se aproximando. Dois domingos apenas faltam para que tudo aconteça.
Finalmente, Jesus vai a Betânia. Maria, diferente do relato de Lucas, é aqui mais distante de Jesus. Marta, ao contrário, vai ao encontro de Jesus. Aqui é Marta quem busca algo em Jesus. A fé de Marta é de confi ança em meio à dor. Sabe que, se Jesus estivesse lá, seu irmão não teria morrido. Mesmo estando morto, ela confi a que Deus atenderá o que Jesus pedir. Não espera uma ressurreição. Como judia, ela acredita na ressurreição no último dia. Jesus anuncia a ela a novidade: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim nunca morrerá”. Jesus pergunta: “Você acredita nisso?”. E então temos a confi ssão de Marta: “Sim, Senhor! Eu creio que o Senhor é o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (v. 25-27). Marta crê sem ver.3 Meditação
Desenvolvo esta parte em forma de teses inter-relacionadas. A prédica poderia seguir uma dessas teses.a) O texto apresenta o cerne da fé cristã: a ressurreição anunciada por Jesus Cristo e a fé nesse anúncio. Temos hoje uma infl ação de fé. Fala-se de um renascimento da espiritualidade, da religiosidade, da piedade etc. Se essa fé é fé cristã, ou seja, fé a partir da e para dentro da ressurreição, tenho lá as minhas dúvidas. Acho que as pessoas, também os membros ativos de nossas comunidades, não têm clareza da base da fé enraizada na ressurreição. Outras interpretações, compreensões, fi losofi as interpõem-se e se sobrepõem à grandeza e exclusividade da
ressurreição. Faz parte da cultura brasileira um sincretismo nato. No que se refere ao pós-morte, existe muita especulação. Infelizmente, muitos se encantam com as especulações e não vão além disso. A igreja, por outro lado, me parece vaga na catequização para uma fé solidamente baseada na ressurreição. Como preparação para a Páscoa, parece-me extremamente apropriado trabalhar o tema como preparação para receber e viver a Páscoa da ressurreição.b) A ressurreição como base da fé é por demais abstrata para os tempos que vivemos. A própria fé é algo por demais invisível e precisa cada vez mais de sinais. Na sociedade do espetáculo, das imagens, do concreto, a promessa da ressurreição não impacta nem alimenta a fé. Teria que ser demonstrada e, mesmo assim, teria que ser averiguada, para ver se não seria um truque de imagem. A confi ssão de Marta, a partir da promessa de seu mestre e amigo, é uma fé em extinção. “Sim, Senhor! Eu creio que o Senhor é o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”, diz ela. Essa fé confi ante, segura, entregue é o que mais carecemos e ao mesmo tempo o que mais precisamos. Marta crê, porque Jesus fala. Ela é outra pessoa depois de ouvir a promessa de Jesus. Quaresma é tempo de deixar-se refazer na fé e na confi ança, como forma de se preparar para a Páscoa. Sem Quaresma, a Páscoa corre o risco de passar sem que a gente passe por ela e ela por nós. A ressurreição fi ca, então, relegada apenas à tradição. Se a Páscoa nãotiver a ver com a fé, com confi ança na promessa da ressurreição, não é Páscoa, não morremos nem renascemos com Cristo. Ficamos iguais.
c) A fé na ressurreição não é algo apenas para nos ocuparmos na morte. Em si, na morte, só nos resta a entrega nos braços de Deus. A fé na ressurreição tem a ver com a vida. Isso é o que podemos aprender com Marta. Sua fé é uma fé confi ante. Em meio à dor, ela não espera por demonstrações, provas, nem por um milagre. Ela crê simplesmente nas palavras de seu amigo, mestre e messias: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim nunca morrerá”. Marta vive e ressuscita antes de Lázaro. Sua
fé renasce. Quase podemos dizer que a ressurreição de Lázaro, assim como tantos outros milagres, acontece a partir da fé das irmãs Marta e Maria. A fé das irmãs é maior até mesmo do que o desejo de ter o irmão Lázaro de volta. A fé de Marta não é condicional: se Lázaro for ressuscitado, eu vou crer; mas é uma fé que confi a na promessa do mestre. Fé na ressurreição para dentro da vida é confi ar na promessa daquele que se intitula a ressurreição e a vida. A ressurreição de Cristo é algo tão grandioso, que desmonta qualquer intenção de compreensão racional,
especulação, comprovação. A ressurreição é esperança que invade a vida e gera esperança, acolhe, conforta, desperta a fé. Por isso a fé na ressurreição não é uma fé para o dia da morte, mas uma fé para todos os dias da vida.
d) O Batismo parece ser a grande âncora em que podemos pendurar todas essas considerações. A Páscoa é tradicionalmente o dia do Batismo dos cristãos. É o dia também em que rememoramos nossos votos batismais. A fé ancorada no Batismo tem a ver com morrer e ressuscitar no dia-a-dia. Como diz Lutero, a vida cristã outra coisa não é que Batismo diário, começado uma vez e sempre continuado. A fé de Marta é uma fé que faz parte do dia-a-dia, embala suas alegrias e consola sua dor e tristeza. Nada mais apropriado do que refl etir sobre a vida no
Batismo, como preparação para a grande festa da ressurreição, a Páscoa.4 Imagens para a prédica
Quando refl ito sobre a ressurreição como mensagem central da fé cristã, sempre me dou conta de duas coisas: o quanto não falamos o sufi ciente sobre a ressurreição e o quanto não vivemos a fé da ressurreição em nossa vida, o quanto não vivemos o Batismo no cotidiano, na vida. Às vezes, estamos tão envolvidos com a ressurreição como verdade teológica, que já não a percebemos, nem a vivenciamos; não conseguimos mais trazê-la para dentro da vida, não nos deixamos ressuscitar pela própria ressurreição, pela promessa que sai da boca de Jesus: “Eu
sou a ressurreição e a vida”. Já não nos entusiasmamos como Marta se entusiasmou, nem nos entregamos confi antes à promessa como ela.
Uma história tem me ajudado a perceber essa aparente contradição. Estava indo para o Congrenaje (Congresso da JE) em Santa Maria de Jetibá/ES no ano de 2008. Era um voo direto de Porto Alegre a Vitória, com escala no Rio de Janeiro. No banco da frente viajava um menino, de uns quatro anos aproximadamente, com sua mãe e outro familiar. A criança viajou de Porto Alegre até o Rio na maior tranquilidade: brincou, comeu, pintou, dormiu. Quando aterrissamos no Rio, a criança olhou para fora e viu lá longe um outro avião taxiando no pátio do aeroporto. O menino ficou extasiado! Se pudesse, teria pulado para fora do avião. Empurrava o rosto da mãe em direção à janela e dizia insistentemente: – Mãe, eu vi um avião, estou vendo um avião... Olha o avião, mãe! Olha! Quem percebeu a situação achou tudo muito engraçado. A criança não se dava conta de que ela mesma estava dentro de um. Com a ressurreição parece que fazemos algo parecido. Estamos envolvidos com ela pelo Batismo. Estamos tão envolvidos, que já não nos damos conta de sua realidade, sua promessa, sua grandeza e singularidade. Percebemos “aviões” do lado de fora e não percebemos o “avião” dentro do qual estamos, o avião que nos leva. Marta confi ou na promessa da ressurreição, sem necessidade de uma comprovação externa. Confi ou na ressurreição antes de ver a ressurreição do irmão amado: Eu creio, Senhor, que tu és o Messias que devia vir ao mundo.
5 Subsídios litúrgicos
a) O ideal é que a rememoração do Batismo, assim como batismos, ocorram no Domingo de Páscoa e não na Quaresma. Poder-se-ia, no entanto, nesse culto, lembrar o Batismo de forma especial e preparar a comunidade para a rememoração dos votos batismais a ser feita no culto pascal.b) A confissão de fé poderia ser a confi ssão de Marta, ou usar a confissão de Marta como introdução para a confi ssão de fé.
Bibliografia
BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João: o caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994.
KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fi delidade. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 2000.
