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Consejo Latinoamericano de Iglesias - Conselho Latino-americano de Igrejas

 

A PALAVRA SE ENCARNOU E ARMOU SUA TENDA ENTRE NÓS
Pe. José Bortolini

I. INTRODUÇÃO GERAL

Que bom seria se o espírito natalino tomasse conta de todos os dias da vida. Viveríamos continuamente agradecidos, pois o Natal - início de nossa redenção - é o ponto alto da comunicação amorosa do nosso Deus. Hoje é dia de boas notícias: o nosso Deus vem para reinar, para fazer estremecer de júbilo as ruínas de Jerusalém e as nossas ruínas; na pessoa do Filho - Palavra encarnada que armou sua tenda no meio de nós - Deus nos fala e nos contempla face a face, e nós podemos contemplá-lo como um de nós. A Eucaristia coroa nossa celebração, e nela somos gratos ao Pai, pois na Palavra feita gente recebemos o poder de nos tornarmos filhos de Deus, nós que acolhemos Jesus e acreditamos em seu nome.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 52,7-10): "Seu Deus reina"
O Segundo Isaías (Is 40-55) é o profeta da esperança e da consolação para o povo exilado na Babilônia. O descaso das autoridades fez com que o povo perdesse a liberdade e a identidade numa terra estranha. Também Deus estaria tratando seu povo com descaso? A presença do profeta entre os exilados é prova de que Deus não abandonou seu povo, e é possível reconstruir a vida na liberdade.
O texto fala veladamente do exílio falando claramente da situação de Jerusalém em ruínas (v. 9). Essas mesmas ruínas de uma cidade arrasada são convidadas à alegria e à festa "porque Javé se compadece do seu povo e redime Jerusalém" (v. 9). As palavras "salvação" (vv. 7.10) e "resgate/redenção" (v. 9) anunciam o novo que está para acontecer: o exílio está terminando e o próprio Deus virá para reinar em Sião: "Seu Deus reina" (v. 7).
Não se trata simplesmente de refazer a dinastia de Davi, responsável principal pelo cativeiro babilônico, mas de resgatar um tema e um tipo de sociedade muito caros aos profetas: a época das tribos, quando ainda não havia reis, mas Javé reinava mediante a partilha e a solidariedade entre os clãs e as tribos (os salmos da realeza do Senhor defendem essa perspectiva). O texto, portanto, faz a Jerusalém um anúncio de paz (shalom = bem-estar para todos), levando-lhe uma boa notícia: Estão de volta os tempos dourados, sonhados pelas minorias que nunca aceitaram a monarquia, submetendo-se apenas à realeza de Javé: "Seu Deus reina".
É isso que o autor vislumbra: As sentinelas da cidade vêem ao longe um mensageiro chegando com essas boas notícias. Elogiam-se os pés, as passadas, por serem portadores de novidade. Na cidade, sobre as muralhas em ruínas, os vigias prorrompem em gritos e cantos de alegria porque o conteúdo da boa notícia é a salvação: os exilados vão poder voltar e Jerusalém terá um novo rei, o próprio Deus.
É como estar revivendo novo êxodo. De fato, a expressão "Javé arregaçou a manga do seu braço santo" (v. 10) é típica das narrativas do êxodo. Aqui, contudo, esse gesto é feito "diante de todas as nações", de modo que o mundo inteiro contempla a sua salvação.

2. Evangelho (Jo 1,1-18): A Palavra se encarnou e armou sua tenda entre nós
O Prólogo (Jo 1,1-18) é a mais brilhante síntese do Evangelho de João. Ele contém em miniatura todos os grandes temas que o corpo do evangelho desenvolverá. É poesia e, se excetuarmos os vv. 6-9.15, que parecem ser um acréscimo em prosa referente a João Batista, o Prólogo pode ser dividido da seguinte maneira: vv. 1-5: a Palavra existindo desde sempre junto de Deus; vv. 10-14: a Palavra no mundo; vv. 16-18: a Palavra no mundo voltada para Deus. (Para os vv. 6-9.15, cf. evangelho do 3º Domingo do Advento - Ano B.)

a. A Palavra existindo desde sempre junto de Deus (vv. 1-5)
O início do Prólogo é um baú de ressonâncias do Antigo Testamento. Não é pura coincidência começar com as mesmas palavras com que se inicia a Bíblia grega, criando uma ponte simbólica entre Gn 1,1 e Jo 1,1. Em ambos os casos, lá está a Palavra criadora e geradora de vida. O que é a Palavra? É a força criadora que a tudo dá vida. Mas o Prólogo parece ir além, fazendo a Palavra existir desde sempre junto de Deus: "No princípio a Palavra já existia" (1,1a). Outro contato forte é criado entre esses versículos e Pr 8,22-36, o poema sobre a Sabedoria criadora (cf. também Sb 9,9-12 e Eclo 24,3-32). Pondo-os lado a lado descobre-se a intenção de quem compôs o Prólogo: Jesus é a Sabedoria criadora de Deus, existindo desde sempre junto dele. Mas vai além: "a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus" (1,1b). O que é a Sabedoria? É o sentido da vida presente em todas as coisas: "Nela estava a vida" (v. 4a).
Há contato forte igualmente com Is 55,10-11, encerramento do Segundo Isaías, onde se compara a Palavra à chuva e à neve que fecundam ("engravidam") a terra, fazendo-a produzir (cf. I leitura do 15º Domingo Comum - Ano A). Para o autor do Prólogo, Jesus é essa Palavra geradora de vida: "Tudo foi feito por meio dela, e, de tudo o que existe, nada foi feito sem ela. Nela estava a vida" (vv. 3-4a).
O tema da luz - primeira criatura de Deus - aparece com força. Luz é o resplendor da vida, a vida brilhando intensamente. Os caps. 8-9 de João desenvolvem abundantemente esse tema. Aqui, no Prólogo, salienta-se o confronto entre luz e trevas. No Evangelho de João, as trevas são as forças de morte agindo na sociedade e que põem obstáculos à prática de vida de Jesus.

b. A Palavra no mundo (vv. 10-14)
Existindo desde sempre em Deus, a Palavra vem ao mundo, encarnando-se em nossa história. Tendo já mencionado as trevas tentando apagar a luz, é fácil compreender que o Prólogo se volte para a rejeição sofrida pela Palavra: não foi recebida na própria casa. Mais adiante o evangelho desenvolverá o tema do julgamento: Jesus provoca as pessoas a tomar posição, a fazer opções que determinam o destino de cada um. Quem o aceita terá vida, se tornará filho de Deus, nascido de Deus (vv. 12-13).
O ponto alto do Prólogo é o v. 14: "E a Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós contemplamos sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade". Dizendo que a Palavra veio morar em nosso meio, o autor pretende recordar algumas coisas do passado. De fato, no Antigo Testamento Deus acompanhava a marcha do povo e se comunicava com Moisés a partir de sua tenda, chamada de "Tenda da Reunião". Era lá que o povo, representado por Moisés, se encontrava com Deus. O Prólogo, ao dizer "habitou entre nós" usa, em grego, a palavra tenda, de modo que se pode dizer "armou sua tenda", "acampou" etc. Com isso se quer dizer que o corpo de Jesus, a Palavra encarnada, é de agora e para sempre o ponto de encontro de Deus com a humanidade, o novo e definitivo Templo onde se encontra e se adora a Deus. No Antigo Testamento a Tenda da Reunião recordava a presença do Deus da Aliança. Jesus é e será a presença visível do Deus invisível.
No passado, a glória de Deus se escondia e se revelava numa nuvem, no fogo etc., assustando às vezes mais que atraindo. Agora, porém, a glória de Deus está presente no humano Jesus. Ele é a manifestação da glória divina. O Deus da Aliança, no Antigo Testamento, se apresentava com duas características de aliado: hésed e 'émeth = amor e fidelidade. Agora, porém, o amor fiel é a Palavra que se encarnou.

c. A Palavra no mundo voltada para Deus (vv. 16-18)
Jesus, plenitude do amor e da revelação de Deus, é portador de novidade absoluta: "porque de sua plenitude todos nós recebemos, e um amor que corresponde ao seu amor". Que amor é esse? É o amor que dá a vida (cf. 13,1; 15,13). E como corresponder a esse amor? Mais adiante Jesus o dirá (cf. 13,34). Ele amou até as últimas conseqüências. Corresponder ao seu amor é fazer o que ele fez: amar sem limites.
O Prólogo mostra ainda o amor fiel de Jesus superando a Lei. O Evangelho de João vai deixar claro que Jesus foi condenado à morte em nome da Lei (19,7). Sinal de que a vida não está na Lei. A vida reside no amor fiel que se doa até o fim. O Prólogo começou afirmando que a Palavra estava desde sempre junto do Pai e voltada para ele. De fato, basta abrir o Evangelho de João para perceber com quanta insistência Jesus fala de sua perfeita sintonia e comunhão com o Pai, o Deus invisível. Mas ao mesmo tempo, vivendo no meio de nós, mostra tudo o que o Pai quer e realiza por meio dele, de modo que o Filho, que está voltado para o seio do Pai é seu perfeito revelador: "Quem me vê, vê meu Pai" (cf. 14,9b-11). Quem deseja conhecer e encontrar o Deus invisível tem agora o panorama desvendado: ele se tornou visível na Palavra encarnada. Vê-la é ver o Pai.

3. II leitura (Hb 1,1-6): Falou a nós por meio do Filho
Os vv. 1-4 são a solene introdução desse discurso que impropriamente passou à história como "carta aos Hebreus". O autor tem pressa um mostrar Jesus Cristo como centro da história e sua plenitude ao mesmo tempo, expressão acabada da comunicação de Deus com seu povo. Ele resume toda a comunicação e revelação do Antigo Testamento ("nos tempos antigos") no grupo dos profetas - fato que irá ressaltar o papel profético do Filho. Parece que o autor ignore propositadamente a Lei como fonte de revelação, pois ao longo do discurso a Lei será apresentada como algo que já passou. Deus sempre se comunicou, mas sua expressão máxima é o Filho, inaugurador do final dos tempos. Jesus é apresentado nessa solene introdução como 1. herdeiro de todas as coisas, 2. encarnação da Sabedoria, pela qual Deus criou o universo (cf. evangelho, item a), 3. Palavra que sustenta o universo, 4. agente da redenção ("purificação dos pecados") e 5. Senhor glorificado (o nome que herdou supera o nome dos anjos). Em poucas e densas palavras resume-se tudo o que se pode dizer acerca de Jesus, expressão perfeita do Pai ("esplendor de sua glória, expressão do seu ser").
Os vv. 5-6 pertencem ao corpo do discurso, abrindo a reflexão em torno do primeiro tema, "herdeiro de todas as coisas" (1,5-2,18). Para mostrar a superioridade de Jesus sobre os anjos, o autor vai buscar no Antigo Testamento textos que ajudem a compreender a relação Deus + Jesus como relação Pai + Filho, abrindo dessa forma o tema da herança. E encontra estes textos: os Salmos 2,7; 89,27-28 e uma passagem que tem ressonâncias em Dt 32,43 (grego) e Salmos 96,7 e 97,7. Os Salmos 2,7; 89,27-28 sublinham a relação Pai-Filho; os outros textos (Dt 32,43 [grego] e Salmos 96,7 e 97,7) convidam a render ao Filho primogênito (herdeiro) a mesma honra devida a Deus - a adoração.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

. "Seu Deus reina". Nosso povo, muitas vezes desesperançado e abandonado como as ruínas de Jerusalém, tem hoje a oportunidade de renovar a caminhada, escutando a boa notícia da chegada do reinado de Deus. A quem devemos ser hoje portadores de boas notícias? Para quem está chegando a salvação?
. A Palavra se encarnou e armou sua tenda entre nós. O impensável acontece: Deus se faz gente como nós para revelar o amor fiel que tem para conosco. Hoje os seres humanos são convidados a se alegrar, pois, no Filho, Deus assume radicalmente o humano. Jesus é o ponto de encontro da humanidade com Deus. Hoje começou a redenção do humano.
. Falou a nós por meio do Filho. Deus tirou todos os véus que impediam sua comunicação com a humanidade, falando-nos por meio do seu Filho hoje nascido. E sua primeira linguagem é a de uma criança como qualquer criança.

Tempo do Natal (MLZ)

1. A festa do Natal começa com a vigília do Natal, no dia 24/12, e se prolonga até 1º de janeiro. Celebramos a festa da Epifania no dia 08/01.
2. O tempo do Natal vai até a festa do batismo do Senhor (09/01/06).
3. Além do nascimento e da manifestação (epifania), que são as duas festas maiores deste tempo, celebramos, na oitava do Natal, a festa de Santa Maria, Mãe de Deus (01/01); a festa da Sagrada Família (30/12/05) e, no final do tempo do Natal, a festa do batismo do Senhor, quando inicia o tempo comum.
4. A cor branca ou amarela, no altar, na mesa da Palavra e nas vestes litúrgicas, assim como as luzes, a estrela... dão às festas natalinas uma tonalidade pascal.
5. O presépio, a bandeira da paz, a folia... ligam a celebração do Natal às expressões populares dos reisados e do pastoril.
6. O incenso, que os reis magos oferecem, pode ser também expressão de comunhão com as religiões indígenas e africanas.

 

 
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