Pe. José Botolini
JESUS É A LUZ PARA A ALEGRIA DOS POBRES
I. INTRODUÇÃO GERAL
A missão profética nos é apresentada, também neste tempo de preparação à chegada do Salvador, como algo fundamental. Ser profeta é fazer valer os direitos dos pobres e anunciar-lhes uma boa notícia, é denunciar as estruturas que estão distorcendo os caminhos de Deus e propor uma atitude de mudança, na liberdade de quem cresce a cada dia e respeita a vocação profética característica de cada cristão. A proximidade do Natal não nos convida a lamentar os desafios e dificuldades da missão, mas a nos alegrar sempre, pois Deus, em seu Filho, continua vindo sempre a nós, caminhando conosco e dando forças na construção da liberdade e da alegria dos pobres.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 61,1-2a.10-11): Ungidos por Deus para dar a boa notícia aos pobres
Os quatro versículos propostos pela liturgia são o início e o final do cap. 61 de Isaías, considerado por muitos como o centro de todo o terceiro livro de Isaías. Nesse terceiro livro (Is 56-66), originário do período pós-exílico, encontramos a profecia num tempo de tensões: os que tinham voltado do exílio estavam entusiasmados com as novas possibilidades de reconstruir a vida em Israel, mas esse entusiasmo vai cedendo às desilusões e conflitos entre os que voltaram do exílio e os que permaneceram na terra; a situação, como sempre, é de injustiça - rejeição do domínio persa e esperança de uma libertação por parte de Javé, de um lado, e subserviência ao domínio estrangeiro e conformismo por parte das autoridades políticas e religiosas judaicas, de outro. O cap. 66, apresentando a missão do profeta dirigida aos pobres e alimentando a esperança, anuncia a libertação desse povo injustiçado.
Os vv. 1-2a apresentam a missão profética com os dois traços fundamentais: o profeta é enviado para proclamar a palavra de Deus, ou seja, evangelizar, anunciar a boa notícia, que não é boa notícia genérica dirigida a todos, mas aos pobres. Deus envia o profeta para proclamar aos pobres que coisas boas estão acontecendo em favor deles. Vêm, então, as outras características dessa missão, que não se limita ao anúncio com palavras, mas se expressa na prática: curar os corações feridos e pôr em liberdade os prisioneiros. Que o anúncio profético só tem sentido com a prática profética vemos no paralelismo sinonímico do v. 1: "proclamar a libertação dos escravos" e "pôr em liberdade os prisioneiros". Nesse sentido deve ser lida a missão de "anunciar o ano da graça de Javé". O verbo hebraico qara', aliás, é corretamente traduzido pela Bíblia Pastoral como "promulgar", pois não se trata de simples anúncio, mas de fazer valer, com o anúncio e a prática profética, o ano da graça, que na Bíblia se refere ao ano jubilar (a cada 50 anos) e ao ano sabático (a cada sete anos), quando, entre outras coisas, deveriam ser perdoadas todas as dívidas e libertados todos os escravos, para que a justiça fosse restabelecida.
A missão profética, em tempos de injustiça, consiste em fazer valer os direitos dos pobres, dos injustiçados, dos que são vítimas de uma estrutura social em que poucos são privilegiados e a grande maioria massacrada. Os pobres de Isaías são os judeus pobres que sofrem a exploração do império estrangeiro, escravos na própria terra, e que sofrem, ao mesmo tempo, a opressão por parte das autoridades judaicas, que fazem o jogo do império persa. Opressão interna e externa, que continua ainda hoje, aumentando o número de miseráveis e excluídos, naquilo que chamamos de globalização: globalização da miséria, não das riquezas, que estão sempre mais concentradas em poucos países.
O que autoriza e sustenta a missão profética é o "espírito do Senhor Javé", que está sobre o profeta porque este foi ungido. Na Bíblia, a unção era feita geralmente a reis e sumos sacerdotes, em vista de uma missão em nome de Deus. Agora, o profeta é o ungido, pois tantas unções a reis e sacerdotes não se expressaram na prática como serviço ao povo de Deus, mas como autoridade e domínio em vista de privilégios pessoais. O profeta é o ungido de Deus para agir e falar em seu nome, e tal unção divina não conseguirá ser anulada por nenhuma outra autoridade humana.
Jesus aplica a si essa mesma missão profética, quando, no início de sua atividade pública na sinagoga de Nazaré, em Lc 4,18-19, lê esses versículos de Isaías e os toma como programa para a sua vida: Jesus é o profeta ungido e enviado para trazer libertação aos pobres, e com ele todos os seus seguidores, que herdam a mesma missão profética.
Os vv. 10-11 concluem o capítulo com um agradecimento do povo, que reconhece as ações de Deus em seu favor. O povo dos pobres está unido e se expressa em primeira pessoa, usando a imagem dos noivos que se preparam para o casamento para manifestar a própria alegria: como o turbante e as jóias dos noivos, a salvação e a justiça são as vestes que preparam o povo para o casamento com Deus. E as imagens da terra que faz brotar uma nova planta e do jardim que faz germinar suas sementes servem para manifestar o favor de Deus pelo seu povo, mediante a justiça.
Deus doa seu espírito aos profetas e, por meio deles, alimenta a esperança no seu povo. Se, na mentalidade bíblica, gerar filhos e ter descendência era o bem mais precioso, agora o que conta é gerar justiça, para que os filhos vivam, de fato, livres. Para tanto, também a esperança e a capacidade de transformar as relações de injustiça são o grande presente de Deus.
2. Evangelho (Jo 1,6-8.19-28): João é a testemunha da luz
O início da pregação de João Batista coincide com uma grande expectativa messiânica por parte dos judeus. Esperava-se a vinda do Messias a qualquer hora, o Messias que iria restaurar a Aliança e destituir as autoridades por sua infidelidade. Não é de estranhar, portanto, que as autoridades judaicas de Jerusalém enviem sacerdotes e levitas para saber notícias a respeito de João Batista e sua atividade.
Os vv. 6-8, que pertencem ao prólogo do evangelho, apresentam João como o enviado por Deus para dar testemunho da luz. E, para desfazer as crenças existentes a respeito de João como Messias, diz-se que "ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz", Jesus, a luz verdadeira que ilumina a todos e que estava chegando ao mundo.
As autoridades de Jerusalém, com medo de um movimento popular que pusesse em risco seu poder, querem saber quem, de fato, é João. O evangelista, apresentando três respostas negativas de João, afasta toda e qualquer identidade messiânica para o Batista. O v. 20, aliás, manifesta isso com a redundância: João "confessou e não negou e confessou". João sabe muito bem das preocupações das autoridades de Jerusalém e nega de antemão: "Eu não sou o Messias". Uma negação que desconcerta os enviados, que precisam encontrar uma justificativa para a missão de João. Daí a pergunta: "Quem é você? Elias?". E a negação: "Não sou". E por fim: "Você é o Profeta?". E a última negativa, rápida e seca: "Não".
No tempo de Jesus, acreditava-se que a vinda do Messias seria precedida pelo envio de Elias, que prepararia o povo para a chegada do Salvador, restaurando a Lei de Moisés (cf. Ml 3,22ss). João não é profeta como Elias, pois rompe completamente com a instituição judaica e se move fora dos círculos políticos e religiosos judaicos do seu tempo: ele vem preparar a chegada da Luz que libertará o povo da Lei, transmitindo a vida plena.
Acreditava-se também que um segundo Moisés apareceria nos últimos tempos (cf. Dt 18,15-18: "Deus suscitará um profeta como eu no meio de ti"). João não é sucessor de Moisés, pois não olha para o passado da Lei e da tradição, mas para o futuro completamente novo do Messias que inaugurará uma nova Aliança.
João nega, portanto, ser o Messias, Elias e o Profeta, sobretudo porque essas três figuras serão representadas por Jesus, a luz que ele veio testemunhar. De fato, ao longo do evangelho, as figuras de Elias e do Profeta se fundirão, e Jesus será apresentado como o Profeta que devia vir ao mundo, rejeitado pelos seus (cf. 4,4; 6,9.14). Como Elias/Profeta, Jesus não restaurará a Lei, mas doará o Espírito que criará uma nova humanidade.
Depois de três negações, vem a afirmação sobre a identidade de João. Ele não usa a expressão "eu sou", que, na Bíblia, tem fortes atributos divinos. No grego, temos a expressão ego phoné, ou seja: "eu voz". João responde: "Eu, voz que grita no deserto", e, citando Is 40,3, denuncia e critica as autoridades judaicas por terem distorcido o caminho do Senhor. João chama a atenção das autoridades não para a sua pessoa, mas para a sua pregação, que é séria crítica aos poderosos.
Os fariseus querem saber com qual autoridade ou por qual motivo João, portanto, batiza. Também aqui se estabelece uma distinção, agora entre o batismo de João e o de Jesus. O batismo de João, com água (v. 26a), usando um elemento da natureza, atinge somente o físico das pessoas. É o batismo que procura levar à consciência das trevas e sujeiras presentes na ordem social injusta e suscitar o desejo de renovação, limpeza, mudança. Porém, João anuncia alguém que chega depois dele e que já está presente (vv. 26b-27). Jesus batizará com o Espírito, um elemento novo que só ele pode transmitir e que atingirá a intimidade das pessoas e, transmitindo-lhes a vida, as tornará capazes de construir novas relações, de liberdade e vida.
Por fim, João diz não ser digno de "desamarrar as correias das sandálias" daquele que vem depois dele. Essa expressão, muitas vezes interpretada como um gesto de humildade de João Batista, alude no entanto, claramente, à lei judaica do levirato. Segundo essa lei, quando alguém morria sem deixar filhos, um parente próximo devia casar-se com a viúva para dar filhos ao falecido e garantir-lhe, assim, uma descendência. Se quem tinha o direito e a obrigação de fazê-lo não o fazia, um outro podia ocupar o seu lugar, numa cerimônia em que se declarava a perda desse direito e que consistia em desamarrar as sandálias (cf. Dt 25,5-10; Rt 4,6-7). João está afirmando que Jesus é quem tem o direito de tomar a humanidade como esposa e garantir-lhe uma herança de filhos. João tem consciência de ser a testemunha da luz, e não a luz: não pode tomar o lugar daquele que, por direito, será o esposo da humanidade.
João, batizando com água, manifesta o rompimento com as estruturas políticas e religiosas de seu tempo, que aprisionavam o povo numa situação de trevas e morte. Jesus, o Messias que vem, batizando com o Espírito, a partir do rompimento manifestado por João e respondendo aos anseios do povo, conduzindo-o para fora das estruturas de dominação e morte, construirá com a humanidade uma nova história, inaugurando uma nova criação.
3. II leitura (1Ts 5,16-24): "Examinem tudo e fiquem com o que é bom"
A primeira carta aos Tessalonicenses é o primeiro escrito do Novo Testamento. De Atenas ou Corinto, no ano 50 ou 51, Paulo escreve à comunidade que teve de deixar às pressas, para escapar à perseguição. Quando Timóteo e Silas, que ele enviara para saber notícias da comunidade, retornam com boas notícias, Paulo e seus colaboradores escrevem esta carta cheia de alegria pela perseverança dos cristãos de Tessalônica e aproveitam para dar conselhos práticos para a vida comunitária. Os versículos da liturgia de hoje são parte desses conselhos para que a comunidade permaneça firme e continue crescendo.
Antes de tudo, é preciso notar que Paulo não exerce poder autoritário sobre as comunidades: ele não ordena, mas aconselha; não olha o negativo e insiste sobre ele, mas considera o positivo e anima a melhorar e continuar progredindo. Uma metodologia válida sobremaneira para nossos tempos e nossas lideranças na pastoral...
A comunidade é convidada a viver em contínua alegria e oração (vv. 16-17). A oração, que é relacionamento constante da comunidade com Deus, e a alegria, que é consciência de estar vivendo uma nova dinâmica, que é histórica e transcende a história, são as novas relações do evangelho. Estar sempre alegres, portanto, não tem nada que ver com atitudes abobadas, românticas ou resignadas, tal como ser o "inocente útil" da história...
Paulo e seus colaboradores convidam a comunidade a agradecer sempre a Deus, não somente nos momentos bons, mas "em todas as circunstâncias", também nos momentos difíceis (v. 18). A comunidade que constrói novas relações enfrenta oposições e tribulações, e estar consciente disso, sabendo que seguir fielmente a Jesus é o que importa, leva a agradecer a Deus também pelas tribulações que demonstram a fidelidade a essa mesma missão.
Os vv. 19-22 deixam entrever como Paulo, o fariseu "convertido", não admitia nas comunidades nenhum legalismo. E não é para menos: basta considerar seu árduo trabalho de libertar os seguidores de Jesus da Lei judaica e de todo e qualquer legalismo, para que os cristãos vivessem de fato a liberdade para a qual Jesus os libertara. Numa cidade como Tessalônica, importante pelo comércio e local de encontro de tantos pensadores com as filosofias e doutrinas as mais diversas, Paulo enuncia o princípio ético fundamental: "Examinem tudo e fiquem com o que é bom" (v. 21). A comunidade que não se deixa escravizar pelo legalismo, que não está aprisionada pela rotina, pelas regras e pelo que está estabelecido, pode crescer, ser espontânea e criativa. Quando os cristãos são adultos, têm a capacidade de examinar tudo e ficar somente com o que é bom, ou seja, com aquilo que é bom para a comunidade e constrói fraternidade. Quando os cristãos são adultos, não precisam que tudo seja decidido pelos outros, pelos que são chamados, sim, a animar e servir a comunidade, mas não a dar respostas prontas.
Daí os conselhos: "não extingam o Espírito" e "não desprezem as profecias". Extinguir o Espírito seria banir da comunidade a liberdade que Jesus nos conquistou, liberdade que nos dá o direito de errar e crescer aprendendo, em vez de ser eternos e infantis observantes de leis e regras fixadas que muitas vezes não nos permitem ser fiéis ao evangelho - exatamente porque fidelidade exige criatividade. Desprezar as profecias, a esse respeito, é rejeitar a voz da liberdade do Espírito. É rejeitar de antemão a insegurança da novidade para ficar na segurança do estabelecido. E aqui o critério é examinar as profecias, para discernir quais delas contribuem para o bem da comunidade. Se não contribuem para o bem, não são verdadeiras profecias, e por levarem ao mal devem ser afastadas (v. 22).
Paulo e os colaboradores expressam sua comunhão com a comunidade suplicando por ela a Deus, na confiança de que a santidade é dom do Deus fiel que chama, conserva e realiza o prometido (vv. 23-24).
III. SUGESTÕES PARA A CELEBRAÇÃO (MLZ)
1. A comunidade poderá ser convidada a lembrar os motivos que tem para se alegrar e ter esperança, como sinais da presença amorosa e fiel de Deus e de seu Reino em nosso meio (fatos, acontecimentos apresentados em forma de encenação, jogral, recortes de jornais ou simples recordação falada).
2. Acender a 3ª vela do Advento nos ritos iniciais ou no momento da aclamação ao evangelho, como já foi sugerido nos domingos anteriores. Após a proclamação, apresentá-la à assembléia juntamente com a Bíblia. Esse gesto poderá ser acompanhado por uma frase ou refrão inspirado nas leituras ou no salmo deste domingo. Em seguida, a vela é colocada na coroa do Advento, com as outras duas já acesas.
3. A 1ª ou a 2ª leitura poderá ser proclamada de cor e o evangelho dialogado ou, se possível, encenado.
4. Marcar toda a celebração com expressões de alegria e de esperança.
5. Na apresentação das oferendas fazer a coleta para a sustentação da evagelização da Igreja, proposta pela CNBB.
6. No momento do prefácio ou louvação, a comunidade poderá apresentar, em ação de graças, os sinais da vinda do Senhor e de seu Reino presentes na realidade.
7. Cantar o prefácio ou a louvação do Advento (Hinário Litúrgico I, p. 73), o Santo, as aclamações, o amém e o Cordeiro de Deus.
8. No abraço da paz, realçar a alegria como fruto da paz.
9. Bênção própria do Advento, com imposição das mãos sobre o povo (p. 519 do Missal Romano).
10. Se a comunidade ainda não começou a armar seu presépio, será muito oportuno fazê-lo nesta semana, início da novena do Natal. |