V Asamblea General
Buenos Aires, 19-25 de febrero de 2007
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Consejo Latinoamericano de Iglesias - Conselho Latino-americano de Igrejas

 

JOÃO 20.19-30

Vinde e Ide. Creio que estas duas palavras resumem todo o ministério de Jesus Cristo. O "vinde" é um chamado ao compromisso, ao ministério geral de todos os crentes. O "Ide" é um mandato divino. É no chamado de Jesus Cristo que sentimos em nós a "faísca" vocacional se acender. Porém, isto não basta, por isso falamos do "Ide". Enquanto um chama, o outro envia. Vocação tem haver com isto: com o vir e com ir, com o chamar e com o enviar. Assim Jesus o fez, chamou discípulos, os preparou, depois os enviou ao mundo.
Quando penso no que aconteceu com Jesus a mais de dois mil atrás, vejo que nós sempre somos chamados/as a fazer parte do povo que quer estar disposto a ouvir os seus ensinamentos. Somos pessoas que têm sede da palavra. Contudo, já é tempo de acordar, Jesus mesmo nos deixou claro este alerta. Ele disse que a sua Cruz, que o seu sofrimento, abriria um novo tempo. Se antes podíamos sentar perto dele para ouvir os seus ensinamentos, agora é tarefa nossa passar estes ensinamentos adiante. O "Vinde até a mim" agora se põe a caminhar. Primeiro, nós vamos até Cristo, depois temos que ir em direção ao mundo e anunciar as maravilhas do Reino. Como cristãos, estamos comprometidos/as com esse envio divino. A vida e morte de Jesus Cristo são um chamado. Sua ressurreição é um envio.
O cenário do nosso texto aponta para uma situação meio estranha. Os discípulos estão trancados numa casa e amedrontados, não sabem o que fazer diante da morte de Cristo. Enquanto no Domingo passado o dia da Ressurreição nos dava a certeza de que algo novo nos foi presenteado, que a salvação nos vem; hoje, uma semana depois, esse domingo nos enche de incertezas, de medo e dúvidas....
Por isso, a cena da fuga dos discípulos se torna incompreensível. A casa trancada abriga pessoas que estiveram junto com Jesus e que agora se sentem acossadas, afugentadas. Ela abriga pessoas que ainda não entenderam de fato o que Jesus lhes queria anunciar com os seus ensinamentos. Os discípulos se sentem despreparados para serem instrumentos de propagação do Evangelho. Se sentem despreparados para "ir" ao mudo e anunciar tudo o que aprenderam de Jesus.
Em nossas vidas o episódio se repete. Também temos estes sentimentos de impotência. Muitas vezes pensamos: "Meu Deus, eu cheio de pecados e imperfeições, não me sinto preparado/a para falar sobre o seu Reino". Mas Tomé, o homem descrente de nosso texto, nos alimenta de esperanças. Alguém entre os próprios discípulos, vê sua fé abalada com a perda do Mestre.
Tomé, para crer, quer apalpar Jesus, sentir o calor da sua pele, hoje no mundo não é diferente, criamos o hábito de querer tocar para ver se é real, se é verdadeiro. Vamos até uma feira e comprovemos, quando vamos a uma feira, tocamos os legumes, as frutas, para ver se estão boas e se servem para ser compradas. Não bastam as palavras do vendedor.
Contudo, infelizmente, em pleno século 21, ainda somos pessoas egoístas, pois tudo o que tocamos hoje em dia, nós queremos possuir. Até nisso Tomé nos dá uma lição. Ele quer tocar no mestre não para o possuir, mas para ter certeza e clareza da sua missão no mundo: "Mestre, não sou perfeito, mas faça-me instrumento do teu amor!".
Para nós é muito natural enxergar Tomé com olhos descrentes e fazer juízo de sua atitude. Um discípulo de Jesus não pode se dar ao luxo de duvidar da palavra do próprio mestre. Tomé, afinal, era um dos doze, esteve com Jesus antes de sua morte.
Apesar de personagens como Tomé, Pedro e Judas serem alvos de críticas somente pelo fato de fazerem parte do grupo de Jesus. Precisamos recordar que eles são pessoas como nós, humanas, falhas, que lutam contra as suas imperfeições e seus erros. Tomé, carregando sua falta de fé; Pedro, negando Jesus como o seu Mestre e Judas, traindo-o. Nem por isso, Cristo os julgou e os condenou, muito pelo contrário, os amou e os aceitou com os seus defeitos.
Para nós, o próprio grupo de Jesus nos mostra que crer ou não crer em Jesus Cristo como a verdade do Reino, vai além da nossa razão e entendimento. "Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a Ele", dizia Lutero.
Em nossas vidas, Deus não nos obriga a aceitar os seus ensinamentos. Ele nos criou livres e para a liberdade fomos criados. Tomé fez uma opção, não acreditou que Jesus havia ressuscitado. Não o condeno por isso, é sua liberdade aceitar ou não o anúncio feito pelos seus amigos de que Jesus havia ressuscitado. Agora pensem comigo, antes de Jesus morrer, tudo o que os discípulos haviam aprendido veio da boca do Mestre. Eram as palavras de Jesus que bastavam para lhes dar segurança e coragem. E agora, poderia estar pensando Tomé, com a morte do Mestre, em quem vou acreditar? Nas mulheres que foram ao sepulcro de manhã? Nos discípulos que nem sequer abriram as janelas da casa para ver como estava o dia lá fora? Tomé deve estar se questionando: "O que eu, pessoa que pertence a esse mesmo grupo de Jesus, tenho feito de tão ruim que o Mestre só aparece para eles e para mim não?".
Creio que Tomé se sente abandonado por Deus neste instante. Enquanto outras pessoas têm o privilégio, a alegria de ter visto Jesus, a ele somente cabia ouvir meras palavras de que Ele havia de fato ressuscitado. Tomé experimenta para a sua vida a dor do abandono e em sua dor, ele duvida até de Deus: "Eu só acredito vendo e tocando".
Quantas vezes questionamos também a Deus, questionamos aquela presença amiga que Deus nos promete, aquele consolo que Ele disse que nos daria nos momentos de dores e incertezas. Quantas vezes olhamos cara-a-cara com a nossa falta de fé e nos revoltamos contra Deus pelas bênçãos que Ele concede as outras pessoas, mas a mim não.
Assim como Tomé, podemos até nos sentir inúteis. Temos esse direito. Podemos questionar o Deus que parece não pensar em nós e em nossos esforços diários que fazemos para serví-lo com todas as nossas imperfeições e desacertos. Isto é humano. Até o próprio Cristo gritou na Cruz quando se sentiu abandonado por Deus. Mas bem sabemos, que Deus está ao nosso lado em todas as circunstâncias de nossas vidas, caso contrário, esta vida seria uma desordem, um caos, estaríamos no mundo sem destino e desorientados.
Nós, comunidade aqui reunida, somos o novo grupo de discípulos de Jesus aqui na terra, não se esqueçam disso. Em nossa caminhada, muitas vezes, podemos tropeçar, duvidar de Deus quando vemos o nosso milho morrendo na roça por falta de chuva, quando vemos nossa família adoecendo e nem sequer temos dinheiro para comprar um remédio, quando vemos pelo mundo tantas dores e aflições, tanto abandono e opressões. Porém, precisamos nos perguntar, quem causa tudo isto: Deus e seu amor para conosco ou o ser humano e seu egoísmo e insensibilidade?
Em sua angústia, Tomé é surpreendido com a presença do Deus vivo. Ele não o abandona. Diante de Deus, Tomé vê sua descrença desmoronando. A sua vida aflita se transforma e ele encontra a paz e a razão de continuar crendo que Jesus é o Senhor e Deus unicamente seu.
Querida comunidade, somos todos Tomé, por isso a nossa busca terminou. Deus está presente entre vocês neste instante, aqui neste templo e em qualquer outro lugar em que vocês o procurarem. Ele não abandona, muito pelo contrário, ele nos procura porque nos ama de todo o coração. Isso Ele fez há mais de dois mil anos atrás e faz diariamente, a todo segundo de nossa vida. Nós é que não o queremos ver. Deixemos nossa cega descrença de lado, abram os olhos e se virem para o lado. Vejam, o rosto de cada pessoa que está aqui presente. Eles são uma faísca da presença de Deus, somos pessoas criadas à imagem de Deus, destinadas a pertencer a Deus, por isto, Deus está conosco. O que falta mais para crer? Falta um coração amoroso, que supere todas as barreiras que nos separam. Se quisermos sentir a presença de Deus, então toquemos uns aos outros, amemos uns outros de todo o coração, arranquemos de dentro de nós todas as nossas incertezas, e se isso não basta, lembrem-se da marca que nós recebemos com o batismo, da presença que nos é oferecida através da Santa Ceia.
Gostaria de recordar com a história de Tomé o tema que abraçamos este ano: "Mãos à obra... porque Deus nos amou primeiro". Não precisamos temer e achar que somos incapazes. Cada um de nós fomos presenteados com o dom da missão, cada um de nós recebeu de Deus o chamado e o envio para ir ao mundo e anunciar suas obras aos povos e nações. Deus está conosco, nos levantando em nossos tropeços e nos iluminando em nossas incertezas. É assim que eu e meu colega Anselmo nos sentimos neste dia, chamados e enviados a assumir um sério compromisso. Ele, aqui em Palmeira e eu em Recife. Sabemos que não somos perfeitos, por isso oramos a Deus como os discípulos fizeram a Jesus: "Senhor, somos pecadores, mas aumenta-nos a fé". (Lc 17.5). Por fim, gostaria de finalizar com uma pequena história, onde o reconhecimento de nossos erros pode ser o princípio para a construção de um mundo melhor:
O Pote Rachado
Um carregador de água na Índia levava dois potes grandes, ambos pendurados em cada ponta de uma vara a qual ele carregava atravessada em seu pescoço.
Um dos potes tinha uma rachadura, enquanto o outro era perfeito e sempre chegava cheio de água no fim da longa jornada entre o poço e a casa do chefe; o pote rachado chegava apenas pela metade.
Foi assim por dois anos, diariamente, o carregador entregando em pote e meio de água na casa de seu chefe.
Claro, o pote perfeito estava orgulhoso de suas realizações. Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição, e sentindo-se miserável por ser capaz de realizar apenas a metade do que ele havia sido designado a fazer.
Após perceber que por dois anos havia sido uma falha amarga, o pote rachado falou para o homem um dia à beira do poço.
"__ Estou envergonhado, e quero pedir-lhe desculpas".
"__ Por quê?" Perguntou o homem. "De que você está envergonhado?"
"__ Nesses dois anos eu fui capaz de entregar apenas a metade da minha carga, porque essa rachadura no meu lado faz com que a água vaze por todo o caminho da casa de seu Senhor. Por causa do meu defeito, você tem que fazer todo esse trabalho, e não ganha o salário completo dos seus esforços" - disse o pote.
O homem ficou triste pela situação do velho pote, e com compaixão falou:
"__ Quando retornarmos para a casa de meu senhor, quero que percebas algo no chão ao longo do caminho."
De fato, à medida que eles subiam a montanha, o velho pote rachado notou que o caminho estava cheio de flores selvagens das mais diversas cores, nelas pousavam inúmeras borboletas e insetos, buscando o mel apreciável, e isto lhe deu um certo ânimo. Mas ao fim da estrada, o pote ainda se sentia mal porque tinha vazado a metade, e de novo pediu desculpas ao homem por sua falha.
Nisso, disse o homem ao pote:
"__ Você notou que pelo caminho só havia flores no seu lado. Eu, ao conhecer o seu defeito, tirei vantagem dele. E lancei sementes de flores no seu lado do caminho, e a cada dia, enquanto voltávamos do poço, você as regava com a água que caía de sua rachadura. Por dois anos eu pude colher estas lindas flores para ornamentar a mesa de meu senhor. Sem você ser de jeito que você é, ele não poderia ter esta beleza para dar graça à sua casa."

Cada um de nós temos nossos próprio e únicos defeitos. Porém, cada um de nós é chamado para servir a Deus na sua seara com todas estas imperfeições. Deus reconhece nossas falhas, porém, precisamos tirar forças delas, descobrindo o quão preciosas obras podemos semear para a concretização do Reino neste mundo. (autor Anônimo)
Graça e paz a toda a Comunidade!
Amém.

Pastor Luciano Ribeiro Camuzi

 
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