V Asamblea General
Buenos Aires, 19-25 de febrero de 2007
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Consejo Latinoamericano de Iglesias - Conselho Latino-americano de Igrejas


Vida Pastoral - Paulus

2º DOMINGO COMUM (14 de janeiro)
DEUS E A HUMANIDADE: O CASAMENTO QUE DEU CERTO

I. INTRODUÇÃO GERAL
Pequenas ou grandes comunidades do nosso país, a maioria delas empobrecidas e postas à margem da sociedade, se reúnem para celebrar a fé. Deus vem ao encontro delas, declarando-lhes seu amor e predileção: juntas, elas são a noiva de Javé, aquele que lhes faz justiça, as reconstrói e sente por elas imenso amor (I leitura).
A Eucaristia é o momento privilegiado em que Jesus se entrega por aqueles que ama. Seu sangue derramado, seu corpo doado por nós selam definitivamente a aliança entre Deus e a humanidade. Nossa resposta é a fé nele, com o desejo de fazer tudo o que ele disser. Assim estaremos constituindo a comunidade-esposa do Cordeiro por nós imolado (evangelho).
A Eucaristia é comunhão com a Trindade, que é una na diversidade das pessoas. Para esse encontro – que é o serviço de Jesus em nosso favor – convergem todos os ministérios eclesiais, dons que o Espírito concede para o crescimento de todos (II leitura). Celebrar a memória do serviço de Jesus é resgatar e valorizar todos os dons presentes nas pessoas; mas é, sobretudo, crer que, pelo fato de pertencer à comunidade, toda e qualquer pessoa é dom de Deus feito à comunidade.


II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 62,1-5): A comunidade dos sofredores, noiva de Javé

O texto pertence ao Terceiro Isaías, profeta anônimo que procura incentivar a comunidade pós-exílica. Nessa época, Jerusalém é uma cidade insignificante: depois que Nabucodonosor a destruiu, levando sua população para o cativeiro, Jerusalém tornou-se como viúva desamparada por Javé, seu esposo; a Judéia se encontrava em completo abandono. Tudo isso trouxe perplexidade e desânimo à população. Mais ainda: a pergunta crucial que se fazia era esta: teria Deus, por causa da infidelidade do seu povo, anulado a aliança feita no passado?
Os versículos lidos na liturgia deste domingo são um poema nupcial. O casamento de Javé com Jerusalém traduz, de modo ímpar, o relacionamento entre Deus e seu povo.
O profeta se apresenta qual sentinela sobre as muralhas da cidade-esposa, anunciando a volta do esposo com a mesma ansiedade com que aguarda a chegada do amanhecer (cf. Sl 130,6). Javé, o esposo, saiu para executar a justiça contra os que exploraram seu povo: “Por causa de Sião não ficarei em silêncio, por causa de Jerusalém não ficarei quieto, enquanto a justiça não surgir para ela como aurora enquanto sua salvação não brilhar como lâmpada” (v. 1).
O rei que saiu para fazer justiça aos explorados é comparado com o sol. Sua volta vitoriosa coincidirá com a aurora. Por isso o profeta, qual sentinela do povo, não anunciará somente o amanhecer, mas sobretudo a chegada da justiça e da vitória. A vitória do rei sobre os que oprimiram o povo de Deus funciona como catequese universal: há um Deus que faz justiça e se posiciona ao lado dos sofredores, libertando-os, amando-os e protegendo-os como o esposo ama e zela por sua esposa: “As nações verão a sua justiça e todos os reis verão a sua glória. Você então será chamada com o nome novo que a boca de Javé indicou” (v. 2).
Vista de longe, a cidade de Jerusalém, com suas torres e ameias, parece uma grande coroa: “Você será coroa magnífica na mão de Javé, um diadema real na palma do seu Deus” (v. 3). A comunidade dos oprimidos, que lutam para manter a própria identidade, é o sinal-distintivo (coroa) da realeza de Deus. A noiva de Javé é a comunidade dos sofredores. Deus optou por eles para mudar-lhes a sorte, transformando o desamparo e abandono em predileção particular (“Minha Delícia”), unindo-se para sempre com eles de modo original e único (“Desposada”, v. 4).
Para marcar a opção de Deus pelos enfraquecidos e explorados, o profeta da esperança e da reconstrução não encontrou termo de comparação mais forte que o do noivado e casamento entre Deus e seus aliados. Javé é o Deus que faz justiça, e esta não tarda a chegar, pois já desponta como a aurora. A ação de justiça divina é como o casamento de Deus com seu povo: “Javé vai amar você, e sua terra terá um esposo” (v. 4b).
Realizado o casamento, vem a lua-de-mel e, com ela, iniciam os sinais de vida nova: “Como o jovem se casa com uma jovem, o seu Criador se casará com você; como o esposo se alegra com a esposa, seu Deus se alegrará com você” (v. 5). O profeta da esperança e da reconstrução não se contenta em afirmar que a aliança entre Deus e o povo sofrido é o reatar relações rompidas pelo pecado e abandono da comunidade. Para ele o amor divino é sempre novo, como o primeiro amor de um jovem por sua amada. A comunidade, apesar de suas infidelidades, é jovem cheia do fogo do amor primeiro. As ruínas do passado não são mais recordadas, pois o esposo reconstrói completamente a comunidade, sentindo por ela o mesmo prazer, alegria e felicidade de dois apaixonados que, finalmente, se encontraram na doação plena.

2. Evangelho (Jo 2,1-11): Jesus é o esposo da humanidade

O trecho deste domingo, chamado normalmente de “Bodas de Caná”, conclui uma unidade maior dentro do Evangelho de João. O evangelista montou os relatos que vão de 1,19 a 2,11 dentro do esquema de uma semana: 1º dia: 1,19-28; 2º dia: 1,29-34; 3º dia: 1,35-42; 4º dia: 1,43-51; 6º dia: 2,1-11 (a expressão “No terceiro dia”, em 2,1, corresponde a “dois dias depois do quarto dia”, ou seja, o sexto dia). Portanto, o episódio das “Bodas de Caná” encerra a semana. Por que o evangelista planejou esse esquema de uma semana? Certamente porque pensava em Gn 1, a semana da criação. Lá, a humanidade foi criada no sexto dia, pronta para celebrar a festa com Javé, no sábado. Aqui, a nova humanidade da nova criação é quem se torna discípulo de Jesus e crê nele (cf. 2,11). De fato, duas idéias básicas, tiradas do Antigo Testamento, estão sempre presentes no Evangelho de João: aliança e criação. Jesus inaugura a Nova Aliança e dá início à Nova Criação. No sexto dia (Bodas de Caná) temos, portanto, o retrato da nova humanidade.
O cerne dessa nova humanidade é a Aliança que Jesus, Cordeiro-Esposo, realiza com a comunidade. Ele já havia sido anunciado por João, ainda que de forma indireta, como o esposo da humanidade (cf. 1,15.27.30). Situando Jesus num casamento falido, como o de Caná da Galiléia, o evangelista não faz outra coisa senão mostrar quem é o esposo da humanidade. Portanto, o episódio de Caná deve ser lido em chave simbólica. Nesse sentido, é importante ter presente que:
• Com muita freqüência, o casamento é, na Bíblia, sinônimo de aliança (cf. I leitura). Na linguagem profética, ser infiel à aliança é a mesma coisa que ser adúltero, prostituir-se.
• A aliança antiga caducou, não tem mais razão de existir: “Eles não têm mais vinho” (2,3).
• O que sustentava a antiga aliança eram os ritos de purificação (cf. 2,6: as talhas para a purificação estão vazias). Os ritos de purificação não são mais condição para que as comunidades se tornem esposa do Cordeiro.
• Jesus é aquele que inaugura a Nova Aliança, aquele que traz o vinho novo, de ótima qualidade, em abundância. O vinho, por sua vez, é símbolo muito forte do amor (“Seus amores são melhores do que o vinho” – Ct 1,2; “Sua boca é um vinho delicioso que se derrama na minha, molhando-me lábios e dentes” – Ct 7,10; “…Eu lhe daria a beber vinho perfumado e licor de minhas romãzeiras” – Ct 8,2).
• O vinho que Jesus dá é de ótima qualidade, fazendo esquecer o antigo.
• A abundância de vinho (mais de 600 litros, cf. 2,6) era o sinal da chegada do Messias, que vai trazer o amor definitivo. Chegou, portanto, a hora de Jesus, que se consumará na cruz, ao mostrar seu amor sem limites.
• No episódio de Caná ignora-se a presença da noiva. É possível um casamento sem noiva? Onde, pois, está a noiva da Nova Aliança?
A resposta a essa última pergunta pode ser encontrada no próprio texto deste domingo. É estranho que Jesus se dirija à sua mãe chamando-a “Mulher”. Os especialistas afirmam que em toda a literatura rabínica daquele tempo jamais se encontra forma de tratamento semelhante. O Novo Testamento também não registra essa forma de tratamento. Isso nos leva a crer que “a mãe de Jesus”, no episódio de Caná, é figura simbólica. É símbolo dos que se conservaram fiéis a Deus, na expectativa da realização das promessas messiânicas. Representa aqueles que aguardam o novo, distanciando-se do antigo modo de encarar a relação Deus-humanidade (“Eles não têm mais vinho”).
Jesus mostra à sua mãe que a antiga aliança não tem mais razão de ser. Ele é o verdadeiro esposo da humanidade, pois traz a vida em plenitude, simbolizada pela abundância de vinho; ele inaugura o novo modo de as pessoas se relacionarem com Deus: não mais na base de troca de favores ou ritos de purificação (as talhas estão vazias), mas em base ao amor pleno e verdadeiro.
Jesus não veio remendar a aliança antiga, como se pudéssemos sobrepor uma à outra. O vinho novo não provém das talhas de pedra (que representam a antiga Lei), mas é transformado longe delas (cf. v. 9: “O encarregado da festa não sabia de onde procedia o vinho, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água”). Em termos teológicos, Jesus é o que põe a graça no lugar da Lei. Supera, com isso, uma das mais antigas instituições para inaugurar o novo relacionamento entre Deus e a humanidade, baseado exclusivamente no amor gratuito.
A mãe de Jesus é o germe da comunidade-esposa. É a raiz do novo povo de Deus, esposa do Cordeiro. Fazendo tudo o que ele disser (v. 5) e acreditando nele (v. 11), as pessoas vão assumindo o perfil do que é ser cristão.
O episódio de Caná marca o início dos sinais de Jesus (v. 11) que têm como finalidade levar a nova humanidade à maturidade da fé e à posse da vida (cf. Jo 20,30-31). Dentro do Evangelho de João, Caná é um episódio que encontra seu ápice na cruz, a Hora de Jesus, quando manifesta em sinais concretos o que significa a abundância do vinho novo. É lá que ele manifesta seu amor até as últimas conseqüências (cf. 13,1). Em Caná Jesus manifestou sua glória (v. 11) que consiste em revelar o projeto de vida e liberdade para todos. A comunidade cristã, entregando-se total e definitivamente ao Esposo, participa da Nova Criação, o mundo novo. Vivemos tempos de plenitude, tempos de vinho novo e de ótima qualidade. É a hora de Jesus. Os que andam com ele são pessoas novas.


3. II leitura (1Cor 12,4-11): O Espírito age em todos, mas ninguém o possui plenamente

Paulo fundou a comunidade de Corinto durante a segunda viagem missionária (cf. At 18,1-18). Daquela cidade cosmopolita nasceu pequeno grupo de cristãos, formado em sua maioria por gente pobre, estivadores dos dois portos da cidade. Surgiu assim uma comunidade alternativa, que rompeu com o passado para viver a novidade do Evangelho. A mudança foi forte, pois eliminou as barreiras de classe, raça e sexo. A ruptura é mais forte quando lembramos que “viver à moda dos coríntios” era sinônimo de vida desregrada e libertina. Essa vida desordenada tinha o apoio das religiões vigentes em Corinto. Elas sustentavam uma sociedade desigual.
Após o impulso inicial, a comunidade se acomodou. Aos poucos viu-se cercada de muitos problemas internos e externos. Estando em Éfeso, Paulo toma conhecimento da situação por meio de pessoas que lhe relataram os fatos e através de uma carta da comunidade, pedindo esclarecimentos.
Um desses esclarecimentos solicitados dizia respeito à questão dos carismas. A comunidade não assimilara de modo maduro e responsável a vida nova que brotava do anúncio evangélico, pois na questão dos carismas dava-se valor unicamente àqueles carismas extraordinários capazes de causar impacto nas pessoas: falar em línguas, profetizar, fazer curas e milagres. Para os coríntios, ter carisma era isso. Suas celebrações eram concorridas, cada qual ansioso por apresentar seu dom extraordinário, a fim de “aparecer”. Ao mesmo tempo, um falava em línguas, outro profetizava, outro cantava, outro ensinava, outro fazia uma revelação (cf. 14,26). Paulo lhes dirá: se alguém, que não é da comunidade, entrar nesse momento, pensará ter entrado num manicômio! (cf. 14,23).
Os coríntios, portanto, achavam que o Espírito só se manifestava nos dons espetaculares. Quem não os possuísse não possuiria o Espírito. Por isso Paulo procura alargar o horizonte da comunidade: “São distribuídos muitos dons, mas o Espírito é o mesmo” (12,4). O Espírito não discrimina nem privilegia pessoas, mas distribui seus dons a cada um, conforme ele quer (cf. v. 11; cf. Jo 3,8). Nos vv. 4-6 encontramos uma formulação trinitária: Espírito, Senhor, Deus. Os carismas e suas manifestações concretas, isto é, os ministérios, têm como fonte e origem a própria Trindade, que é comunhão. Na comunidade cristã, cada um recebe uma manifestação do Espírito para o crescimento de todos. Ninguém fica sem ter seu carisma. Contudo, ninguém pode se julgar dono ou condicionador do Espírito. Os carismas não são algo do qual o possuidor possa se gabar ou exibir: “A cada um é dado algum sinal da presença do Espírito para o bem comum” (v. 7).
Os vv. 8-10 apresentam um elenco de carismas extraordinários: palavra de sabedoria, palavra de ciência, fé em grau extraordinário, dom das curas, poder de fazer milagres, profecia, discernimento dos espíritos, dom das línguas, capacidade de explicar essas línguas. Nota-se, aí, que Paulo insiste na expressão “o mesmo Espírito”, para salientar que todos esses dons extraordinários têm sua origem no mesmo Espírito; é ele quem os dá de presente em vista do bem comum. Notam-se, ainda, duas coisas: 1. Paulo põe em penúltimo e último lugares aqueles dons mais ambicionados pelos coríntios: a profecia em penúltimo lugar, e o dom das línguas, em último, como o mais insignificante da lista; 2. Paulo submete o dom das línguas e a profecia a dois carismas que lhes examinam a autenticidade: a profecia deve passar pelo discernimento dos espíritos, para ver se é autêntica (é bom lembrar que alguém, na comunidade, achando-se inspirado, teria afirmado: “Maldito Jesus!”); o dom das línguas tem que se submeter à interpretação das mesmas, para que a comunidade seja edificada.
Colocando nos últimos lugares os dois carismas mais ambicionados pelos coríntios, Paulo mostra que eles se esqueceram do mais importante, agarrando-se ao supérfluo. Importante é perceber que há diversidade de dons e que essa diversidade, longe de desunir as pessoas, deveria favorecer o crescimento mútuo, na comunhão que reflete a comunhão da Trindade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO


• A comunidade dos sofredores, noiva de Javé. A I leitura reforça as convicções da caminhada da Igreja latino-americana, composta, em sua maioria, de pessoas sofridas. Os profetas da esperança e da reconstrução não se cansam de mostrar a opção de Deus pelos marginalizados, sofredores e empobrecidos. Quais os sinais de justiça, vitória e libertação que animam a caminhada de nossas comunidades?
• Jesus é o esposo da humanidade. A comunidade cristã é esposa de Jesus (evangelho). O que significa, para nós, crer em seus sinais e fazer o que ele está pedindo?
• O Espírito age em todos, mas ninguém o possui plenamente. Ser cristão é crer que cada pessoa é dom de Deus para a comunidade (II leitura). Celebrar os serviços (ministérios) mais esquecidos e menos valorizados. Por que se dá mais valor ao que é mais vistoso e tem aparência de extraordinário? Os serviços e as pastorais unem ou desunem a comunidade? Qual é o objetivo de um carisma específico: o serviço à comunidade ou o status social da pessoa?

 
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