JOÃO 7.37-39
Iára Müller
NÚMEROS 11.24-30
1 CORÍNTIOS 12.3b-13
1 Introdução
O Domingo de Pentecostes é uma das datas mais importante da cristandade.
Ali o Espírito de Deus transborda, alastra-se, espraia-se, não se contém mais
e transforma a realidade. Ali um mistério se inicia, e quem nele crê não se cansa
de proclamar. É uma responsabilidade grande pregar nesse dia e fazer com que a
comunidade sinta que o Espírito também é concedido a ela para grandes e pequenas
transformações.
As leituras previstas – Números 11.24-30, 1 Coríntios 12.3b-13 e João
7.37-39 – têm uma relação signifi cativa entre si. Números faz alusão ao tempo de
Moisés, tempo em que ainda se vivia em tendas, e como o Espírito pousou sobreos setenta anciãos e depois repousou sobre Medade e Eldade, e esses não pararam
de profetizar. Coríntios também faz alusão ao Espírito, que, quando é concedido,
leva a profetizar, a servir, a fazer milagre, a falar e a interpretar línguas, dons muito
diferentes, mas cada um com um fi m proveitoso. E nosso texto da pregação não
fala de outra coisa: Jesus anuncia que aquele que receber o Espírito será como
uma fonte, que jorrará em favor de um mundo mais misericordioso. Três textos
sob medida para o Domingo de Pentecostes, pois se entrelaçam, complementam
e dão respaldo coerente para a pregação.
É importante saber que há cinco auxílios homiléticos no Proclamar Libertação
VI, XII, XVI, XXII e XXVIII sobre esse texto, e sugiro que, ao preparar a
pregação, na medida do possível sejam lidos, pois cooperam grandemente para a
compreensão do cenário em que ocorre o texto a ser pregado neste domingo. Eles também esclarecem uma questão problemática de tradução do grego, a qual vou
me abster de discutir, pois neles há argumentos sufi cientes para fazer uma opção
clara. Fico com a tradução de Lutero e Almeida, como fez o P. Kunert no PL 28.
2 Exegese
Há um contexto e uma trama a serem compreendidos aqui. Jesus foi à Festa
dos Tabernáculos em Jerusalém, mas não foi sem a preocupação de passar despercebido
nos primeiros dias da festa. Foi como clandestino, sozinho. Os discípulos
foram antes. A festa durava mais dias, e temos certeza de que esteve por lá,
pois até ensinou no templo, mas não atraiu publicidade sobre si mesmo, somente
no último dia. Ele sabia que havia pessoas querendo matá-lo.
Havia cochichos sobre ele. Não há consenso sobre o que falavam de Jesus.
Uns o admiravam, outros queriam eliminá-lo. Os que o admiravam baseavamse
nos sinais que haviam visto: milagres, compaixão com os necessitados, palavras
de sabedoria, partilha, senso crítico em relação ao poder dominante. Os
que queriam eliminá-lo temiam que ele liderasse as pessoas consideradas pobres
e sem noção (“plebe que nada sabe”), que as infl uenciasse “mal”, contrariando
a liderança confortavelmente acomodada em suas próprias normas. Os líderes
religiosos observavam silenciosamente o movimento de Jesus e da população
ali reunida. Eles se lembravam da confusão armada por ele na Páscoa, quando
expulsou negociantes do templo e confrontou seus líderes.
A Festa dos Tabernáculos era a maior e mais sagrada festa para os judeus.
Um acontecimento popular alegre, com música, canto e dança; tomava-se o melhor
vinho. Durava em torno de sete dias e celebrava a saída do povo do Egito
e sua peregrinação no deserto, onde a água era escassa. A festa ocorria depois
da colheita. Por isso, com o passar dos anos, acrescentou-se a celebração pela
colheita ao signifi cado da festa, daquele tempo em que já não eram mais povo
peregrino e tinham água para as plantações, mas nunca em abundância.
Os tabernáculos ou pequenas choupanas que construíam para a festa ao redor do templo podiam representar as tendas em que viveram durante a peregrinação
no deserto, antes de se fi xar, bem como o local onde o povo celebrava a colheita
depois do trabalho, antes de existir o templo, no tempo em que já estavam
na terra prometida. Mesmo ali havia tempos de seca; assim, a água sempre teve
um signifi cado vital para a sobrevivência desse povo.
Na Festa dos Tabernáculos, havia todo um ritual em torno da água. Era
um ritual de agradecimento pela água e, ao mesmo tempo, um pedido por chuvas
abundantes para garantir a vida. Ambos equivaliam ao pedido pela salvação. Eles
não conheciam uma fonte de água que jorrasse sem parar, sem deixá-los em situação
precária e de desespero frente à perda da colheita e frente à falta de água
no geral para cozinhar, banhar-se, higienizar o ambiente, regar as plantas, dar
aos animais. Toda a cerimônia lembrava os tempos difíceis de escassez de água,
as secas, as plantações destruídas e, consequentemente, a fome. A festa celebrava
experiências antigas permeadas de tradição religiosa.
A água é personagem de destaque na Fest dos Tabernáculos. A cada manhã,os sacerdotes buscavam água na fonte de Siloé, num recipiente de ouro,
e em procissão a levavam ao altar. Misturavam a ela um pouco de vinho (pela
colheita), derramando-a e duas bacias também de ouro, enquanto o povo ali
admirava aquele ritual tradicional. Isso também acontecia no ápice da festa no
último dia. Para eles, a água simbolizava a abundância nos tempos escatológicos.
Por isso o grande impacto que causam as palavras de Jesus: “Se alguém tem sede,
venha a mim e beba. Quem crer em mim, do seu interior fl uirão rios de água
viva”. Como se atreve? Tirar a abundância de água do momento escatológico e
dizer que, já agora, nele há como saciar a sede?
Isso acontece no último dia, o mais importante da festa. Ele parece, sai do
anonimato, expondo-se à raiva dos que o observam e querem eliminá-lo. Berra
heresias aos quatro ventos, quebrando o clima de festa e a harmonia e perturbando o ambiente. Ele insinua que nem o ritual da água tampouco o vinho ali
bebido em abundância matam a sede. Só Ele é quem substitui essa água. É muita
coragem de Jesus. Para os outros, é um ato de petulância. Com esse enfrentamento,
Jesus quer mostrar que não é o templo nem os sacerdotes que determinam e
nem garantem isso, mas Deus. E a água já está dentro daquele que acreditar em
Jesus e em sua proposta. Que não é lá no futuro, mas agora, se crerem em Deus
que haverá abundância. É uma cena, sem dúvida nenhuma, dramática. Alguém
berrando coisas que não fazem sentido! Toda essa festa, sua liturgia, sua alegria,a confl uência do povo demonstravam a esperança pela vinda do Messias. E Jesus
numa aparição dramática dá-se como substituto disso tudo? Ele rompe com a
religião ofi cial e reafi rma ser o enviado pelo Pai.
Jesus não só critica o ritual do templo, que não saciava mais a sede do
povo, nem sua necessidade de solidariedade, paz e sentido de vida, mas se coloca,
ele mesmo, como a fonte que sacia e não seca nunca. Ainda dá a possibilidade de
cada pessoa ser uma fonte para outros. Ele diz isso na perspectiva do recebimento
do Espírito para aqueles que nele cressem.
Cabe ainda expliar que não se sabe bem a que passagem bíblica Jesus quis
se referir quando disse: “Quem crer em mim, como diz a Escritura...”. Comungo
da mesma opinião da maioria, de que ele se refere à Escritura (Antigo Testamento)no geral, onde estão profetizadas sua vinda e sua missão, sua boa- nova.
3 Meditação
É interessante explicar para a comunidade que essas palavras de Jesus vêm
logo depois do texto em que guardas são enviados pelos sacerdotes e principais
fariseus para prender Jesus, pois ele fala abertamente que ele é o Cristo, enviado
pelo Pai, que eles não conhecem, e isso desinstala e ameaça a tradicional festa.
É um perigo para a tradição, que está acostumada há anos a fazer tudo da mesma
forma, ser liderada sempre pelos mesmos critérios. Isso cega a comunidade paraoutras formas de fazer, para outros jeitos; impede de ver a essência, marginaliza
algumas pessoas. Para resolver a questão, os principais sacerdotes e fariseus
mandam prendê-lo para evitar novo tumulto. Tudo isso ocorre em meio à festa.
E o que acontece?
Jesus fala as palavras da fonte, e o texto que vem a seguir mostra os guardas
voltando de mãos vazias. Não prenderam Jesus. Dá-se um diálogo:
– Por que não o trouxestes? Será que também vós fostes enganados por
ele? – pergunta a liderança da época. E os guardas atordoados diante da autoridade,
com medo por ter descumprido uma ordem e por admiração pelas palavras
de Jesus, respondem: – Jamais alguém falou como este homem. Aqui é dado a
perceber que a palavra de Jesus é loucura, poucos a entendem. Mas os humildes
entendem: os que não estão no poder, os submissos, que foram fazer um serviço
sem saber bem por que e voltam sem tê-lo feito, porque também foram impactados
pela fala e, mais ainda, pela autoridade da fala de Jesus.
Quem crer em Jesus recebe o Espírito e dele fl uirão rios de água. Primeiro
temos que beber da fonte de Jesus para então nos tornarmos fonte para outros. É
um serviço de solidariedade e amor. Não se compra nem se vende a água dessa
fonte, somente se recebe e se dá. Jesus ensina que quem nele crer recebe uma fonte
tão poderosa, que é impossível estancá-la. Ela jorra sem esforço nosso, é dádiva.
Por isso a distribuímos também, pois é abundante. Não é algo que diminui
quando dividimos, como um bolo ou dinheiro, mas aumenta! Quanto mais gente
beber dessa fonte, mais abundância haverá na terra. Abundância de solidariedade,
misericórdia e justiça.
Eu entendo que Jesus estava furioso à vista dos rituais e de toda a festa que
promovia a plenitude somente para o momento escatológico; fazia-a depender
dos sacerdotes e, ainda por cima, deixava muitos de fora dessa alegria. Eu entendo
Jesus se levantando e berrando alto que há outra maneira de viver. Que existe
uma vida que brota sem esforço, da graça de Deus. Neste Domingo de Pentecostes,
é vital que a comunidade sinta que o Espírito também é concedido a ela, para
grandes e pequenas transformações. Que de cada pessoa é possível fl uírem rios
de água viva.
A pregação pode benefi ciar-se também da ideia da importância da águapara nossa vida, da percentagem de água que perfaz o planeta e da percentagem
de água que compõe o corpo humano. Não é difícil comparar toda água que
habita ao nosso redor e dentro de nosso corpo com rios que podem fl uir de nós
se bebermos da fonte chamada Jesus. Outra possibilidade também é falar o queocorre com a falta de água em nosso corpo – a desidratação – e compará-la com
a escassez de espiritualidade, com a vida sem sentido, sem solidariedade. Pentecostes
é a festa de beber da água de Jesus e deixar-se transbordar com o mesmo
Espírito de misericórdia e amor.
4 Imagem para a prédica
Na casa de meus avós, havia dois poços. Um no jardim na frente da casa,
mais perto da cozinha, e outro nos fundos do terreno, quase na divisa com os
vizinhos. Ambos estavam circundados por muitos bambus e árvores frondosas,
estavam abrigados pelas sombras abundantes. Éramos proibidas de abrir a tampa
dos poços e brincar sentadas nele. Aprendemos a respeitar a importância a autoridade
dos poços. Jogar algo dentro? Jamais! Nunca podíamos buscar água no
poço por conta própria, somente acompanhar um adulto nesse serviço. Jogava-se
um balde leve, de latão, com uma longa corda lá para baixo e puxava-se de volta
um balde pesado, cheio de água. O balde subia balançando, derramando o excesso,
e meus avós ainda derramavam um pouco da água do balde de volta, para não
derramar e desperdiçar. Depois passavam a água para o balde que fi cava sempre
na cozinha.
Era incrível olhar para dentro do poço: aquela escuridão, aquele silêncio e frescor restaurador, e lá no fundo um brilho se movia. Nossos avós nos seguravam
pela camiseta nessa hora.
Essa experiência durava breves segundos, mas era muitas vezes repetida
e não cansava, não saciava a nossa curiosidade de ver o fundo do poço. A água
dos poços era doce, e a água do poço dos fundos era mais fresca ainda, quase
geladinha.
O poço da frente era o mais usado. E quando chegava o verão com a seca,
com a escassez de água, recorria-se ao outro poço. Tínhamos que caminhar um
pouco mais, e era mais pesado para eles levarem o balde de volta à cozinha. O
poço dos fundos tinha mais água. Ao lado dele fi cava uma cisterna que recolhia a
água que fl uía abundantemente dele, para evitar o desperdício. Ao lado da cisterna
fi cava o tanque de lavar roupas. E aquela era também a água dada aos animais.
Durante o inverno, quando chovia muito, o poço transbordava, alagando
toda a região do tanque e cobrindo a cisterna, que desaparecia com tanta água.
Lembro de meu avô dizendo que aquele poço nunca os deixara na mão,
sem água. Até vizinhos vinham ali pegar água no verão. Era grátis, ninguém
pagava, pois era compreendida como dádiva. Durante o auge do verão, ao redor
do poço dos fundos, tudo estava seco, não havia abundância de água, a cisterna
estava vazia, ma no fundo do poço sempre havia água. Era necessário ter uma
corda mais longa para o balde alcançar a água, mas o poço nunca secou.
Assim gosto de imaginar a fonte que Jesus diz que fl uirá dentro de nós se
crermos nele. Uma fonte inesgotável de onde tiramos para dar aos outros.
5 Subsídios litúrgicos
Oração do dia:
Deus querido e misericordioso, ajuda-nos a entender o presente que tu nos dás. Ajuda-nos a viver da tua graça abundante e a entender melhor a tua Palavra.
Que possamos beber de ti e dar aos outros de beber de nossa própria fonte de fé e
misericórdia, que vem como um lençol de água, que não se vê, mas nos sustenta.
Que a tua palavra nos hidrate e nos faça terra frutífera, seara abundante. Amém.
Confi ssão:
Aqui chegamos, Senhor, na tua presença como comunidade. Conscientes
de nossas falhas e erros. Pedimos-te paciência com nossa falta de cuidado com
nossa espiritualidade. A ela não dedicamos tempo em nossa agenda, para ela não
buscamos recursos como para outras situações. Ainda bem, querido Deus, que ela
não depende só de nós, mas jorra de ti. Perdoa-nos pelo mau uso da água do planeta,pelo desperdício de algumas pessoas que lavam calçadas com mangueira,
que poluem os rios e mares, envenenando nossa própria moradia. Confessamos
nossa inabilidade de lidar também com a saúde de nosso corpo, o templo do teu
Espírito, que necessita da água para ser saudável. Acolhe-nos como tua criação,
como teu sonho e não por causa de nossa conduta. Assim te pedimos em nome de
Jesus, a fonte, o doador dos rios que fl uirão de dentro de nós. Amém.
Bênção:
Que o Senhor nos abençoe com o discernimento sobre o uso da água.
Que o Senhor nos abençoe com a constante nutrição de nossa fonte, a fi m
de que ela transborde para os outros.
Que o Senhor nos abençoe com seu manancial de misericórdia.
Assim nos abençoe o triúno Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Bibliografi a
NEWSON, Carol A. Women’s Bible Commentary. Kentucky: Westminster/John
Knox Press, 1992.
PROCLAMAR LIBERTAÇÃO volumes VI, XII, XVI, XXII e XXVIII.
