PROCLAMAR LIBERTACAO
Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/ Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia da Escola Superior de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. SALMO 126;
1 CORÍNTIOS 10.1-13
LUCAS 13.1-9
Anete Roese
1
Tempo da Quaresma. Tempo da Paixão de Cristo
Nesta época de Quaresma, é importante que o culto tenha o poder
de propiciar o sentimento, o tempo de pensar, refletir sobre o sentido
da Palavra de Deus nesta época para a vida de cada pessoa, para
a vida comunitária, social, familiar. Por isso, sugiro que o culto seja mais
meditativo, mais quieto – com pausas para pensar. Mas que seja um
culto com presença e força simbólica muito grande!
Qual é o contexto social, que acontecimentos se estampam no
momento em que você lê este texto? Como esses acontecimentos podem
convergir com o tema/tempo da Quaresma? Que tipo de situação
precisa de arrependimento e conversão, conforme indica o texto de
Lucas?
2
Evangelho de Lucas: o texto e seu contexto
O texto de Lc 13.1-9 faz parte do bloco de capítulos que compreende
os acontecimentos que integram a viagem de Jesus a Jerusalém
(Lc 9.51-19.28). A maior parte deste bloco é material exclusivo de Lucas.
Para o evangelista Lucas, a cidade é o lugar-símbolo do poder violento,
pois é na cidade onde vivem aqueles que exercitam seu poder
com decisões baseadas em interesses de um pequeno grupo de autoridades,
que governam com leis que ordenam a morte dos que contrariam
a ordem estabelecida. É o que testemunha Lc 13.34: “Jerusalém,
Jerusalém, tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados...”
Lucas revela insistentemente o problema das injustiças sociais.
No seu contexto há uma situação social dividida entre a miséria, a pobreza
e a opulência, os banquetes e a riqueza (6.20).
O povo do Evangelho de Lucas é uma multidão de pessoas necessitadas.
São doentes, marginalizados, pecadores (Lc 5, 6, 9), que têm
sede de um mundo novo. O pão, a fome, a comida, bem como o roubo, a
acumulação e a exploração (Lc 6, 10, 12, 14-16, 19, 21) são temas constantes
nesse evangelho. É provável que esse evangelho tenha sido escrito
em Antioquia da Síria ou em Corinto na Grécia, ou em Éfeso naÁsia Menor, cidades que tinham entre 400 e 700 mil habitantes. Portanto,
pode-se prever que as comunidades do Evangelho de Lucas se
encontram na periferia dessas grandes cidades, onde a miséria e a
exploração alcançam níveis extremos.
O culto ao imperador romano foi instalado aos poucos em algumas
regiões como na Ásia Menor. Havia os ritos religiosos cotidianos
com sacrifício de animais, além dos templos de padroeiros em cada
cidade, como o culto a Ártemis (At 19). Por outro lado, também crescia
o número de pessoas que aderia aos cultos e religiões de mistério que
vinham do oriente. Além disso, havia a corrente dos gnósticos, que acreditavam
que o mundo era do mal, era desprezível.
O tempo de Jesus em Jerusalém é o tempo que caminha para a
sua morte e sua glória. Os discípulos, portanto, vão sendo preparados,
orientados e ensinados para o tempo futuro, o tempo que será da igreja.
No capítulo 12, v. 22, inicia uma série de ensinamentos que recomendam
e alertam: despreocupação com as coisas materiais e com o
dia de amanhã; a vigilância pela espera do Senhor; o discernimento
dos sinais dos tempos; que as multidões compreendam o sentido do
tempo presente e se convertam.
É preciso discernir os tempos, e este discernimento vem pela fé,
que revela que a interpretação rígida das leis nos afasta do Reino de
Deus. Os judeus acreditavam que esse tipo de acontecimento era resultado
do castigo de Deus por causa do pecado. Jesus, ao invés do
castigo, insiste no arrependimento, na conversão para a remissão dos
pecados. Estende a responsabilidade do pecado e suas conseqüências
a toda a sociedade, invertendo a ordem daqueles que, numa lógica
simplista, excluem-se da culpa e do compromisso diante dos acontecimentos
trágicos.
Lucas entende a necessidade de conversão e arrependimento, para
a qual convoca Jesus, não “no sentido helenista, como se fosse um desenrolar
determinado por um destino imutável, nem no sentido da
apocalíptica, como se fosse o plano histórico de Deus para os últimos
tempos (...), mas como a intenção salvífica de Deus, anunciada na Escritura.
No entanto, na obra de Lucas essa intenção salvífica é prolongada
e vinculada à História. Torna-se como um plano de salvação que
se deve manifestar na História” (Goppelt, p. 526). Portanto, ainda há
tempo, não muito, mas há, como indica a parábola da figueira, e a salvação
deverá ter lugar em nossa história cotidiana.
3
Leituras
Sugiro dar destaque às leituras do dia, reservando a estas um breve
comentário e também símbolos para que sejam bem compreendidas:
Salmo 126: No momento da leitura, é importante fazer referência
no culto ao contexto em que este salmo surgiu, para que haja uma preparação
para a compreensão da situação que o salmo retrata. Ele é um
cântico ou oração de agradecimento, cantada no caminho de volta do
exílio na Babilônia. Para esse povo, que espera ver sua cidade restaurada,
a volta do exílio é sinal da chegada do Messias. O salmo exala alegria
e assim merece ser anunciado na comunidade onde será lido. É o louvor
e a confiança em Deus, cantada por um povo que sofreu no exílio. Pode
ser anunciado com sons, instrumentos, batidas que anunciam uma vitória,
para, em seguida, ser lido em coro por toda a comunidade.
1 Coríntios 10.1-13: Paulo recorre ao Antigo Testamento para providenciar
um exemplo da importância da confiança em Deus e os cuidados
com os males da presunção e do orgulho. Relata experiências
que não devem ser repetidas e adverte que mesmo quem está de pé
pode cair (v. 12). Estes acontecimentos podem ser relembrados brevemente
após a leitura, para que esta adquira mais clareza e entendimento.
O texto de 1 Co termina reafirmando a fidelidade de Deus para
com seu povo, que não permite que carreguemos fardos além de nossa
capacidade.
4
Texto da pregação: Lucas 13.1-9
O texto está dividido em duas partes. Uma primeira parte descreve
um contexto de violências praticadas por um sistema que persegue
e mata pessoas contrárias ao regime político; e pergunta pelas conseqüências
do pecado e por “quem” é responsável/culpado pelo pecado.
A segunda parte do texto traz a parábola da figueira estéril, que é como
uma palavra pastoral e profética para as dúvidas que se geram nessas
situações extremas da realidade social, onde se pergunta pelos bons e
pelos maus e o que fazer diante de pessoas que demoram a compreender
os propósitos de Deus.
v. 1 – Pessoas (talvez fariseus) que relatam a Jesus a respeito dos
galileus mortos por Pilatos, enquanto celebravam no templo. Um caso
de violência praticada por um líder político, uma autoridade pública. É
um relato egoísta por parte daqueles que se excluem de qualquer compromisso
e responsabilidade diante dos fatos. Tema: violência, abuso
de poder, pecado = morte/culpa.
v. 2 – Jesus diz: Vocês pensam que os outros galileus são menos
pecadores do que estes que morreram? Jesus confronta a concepção
de que uns são pecadores e culpados, enquanto outros são salvos e
livres. Para Jesus, todos são igualmente pecadores e responsáveis enquanto
não se converterem.
v. 3 – Se não vos arrependerdes... perecereis do mesmo modo que
aqueles que sofrem a violência, os que a praticam e os que a permitem.
v. 4 – Todos são pecadores também em Jerusalém. A morte de 18
pessoas sob a torre de Siloé traz de novo um caso e o tema: violência,
responsabilidade, descaso, pecado x morte/castigo.
v. 5 – Se não vos arrependerdes... perecereis do mesmo modo. As
pessoas que morreram sob a torre de Siloé não eram mais culpadas do
que outras em Jerusalém.
v. 6-7 – Um exemplo: uma figueira sem fruto; há três anos não produz frutos e deve ser cortada, excluída, eliminada.
v. 8-9 – Uma atitude, um compromisso, uma responsabilidade: o
vinhateiro sugere ao dono deixá-la mais um ano, tempo de escavar ao
redor, colocar adubo, esperar. Tempo de espera. Tempo de graça. Atitude,
intervenção, ação. Esperar os frutos da fé.
Se o escopo teológico do texto é o debate sobre pecado e culpa,
que invoca a responsabilidade de toda e qualquer pessoa indistintamente,
convoca ao arrependimento e estende a graça de Deus como
paciência, o escopo sociológico do texto é o retrato da violência estampada
nos versículos 1 e 4. Jesus ouve um relato de violência. As pessoas
que vêm relatar o fato não estão inconformadas com o acontecimento.
A preocupação era saber se as pessoas que morreram estavam
sendo castigadas por algum motivo, para alívio da consciência própria
desses que interpelam Jesus.
5
Olhar para nosso tempo e nosso arrependimento
O texto apresenta duas situações específicas de violência. Da
mesma forma podemos nós escolher situações específicas para a partir
destas refletir, meditar.
Ø Podemos optar por refletir especialmente sobre marginalização
que sofrem as pessoas idosas no país, na cidade etc., sejam aquelas
que passam fome, que precisam trabalhar duramente para
sobreviver até o último dia de suas vidas, que sofrem descaso
dentro das famílias etc.
Ø A violência nas famílias poderia ser outra abordagem, com
enfoque na relação entre adultos e crianças e a hierarquia violenta dessas convivências em muitas situações, como estão sendo
educadas as crianças.
Ø A violência étnica, etnocêntrica, de brancos em relação a pessoas
de descendência afro-brasileira em nosso país e como ela
se expressa no dia-a-dia da comunidade é outro tema desafiador
a ser refletido.
Ø A violência de gênero é outra possibilidade, pois vivemos numa
sociedade que educa principalmente homens para uma violência
que mata; cada vez mais mulheres agridem suas crianças; a
cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil (segundo
dados do IBGE). Como homens e mulheres podem encontrar
caminhos de paciência ativa para relações não-violentas, mais
humanas e sadias?
Ø A violência no trânsito é outro grande tema. Pois hoje o trânsito é uma das maiores causas de morte no Brasil; são verdadeiros
crimes e assassinatos cometidos com veículos. Por que há tanto
desrespeito, tanta imprudência?
Ø A violência contra o meio ambiente, a destruição, a aniquilação,
a poluição do mundo de Deus sem dó nem piedade.
A Quaresma nos convida a meditar sobre todo tipo de violência,
pois foi uma sociedade violenta que levou Jesus à cruz. O culto precisa
apontar para a responsabilidade da comunidade cristã frente a essa
realidade; proporcionar a possibilidade do arrependimento e prática
comprometida, fruto da graça e da paciência de Deus.
6
Dinâmica da reflexão
A homilia pode ser dividida em três partes ou momentos:
1 – Escolher um tema específico da violência que acontece no contexto
social; enfocar dados e situações reais como nos v. 1 e 4 do texto
de Lucas. Apontar esse contexto como pecado e perguntar por (nossa)
responsabilidade diante dos fatos, em que medida e de que forma fazemos
parte dessa falta diante de Deus. É em certa medida a pergunta
por situações da nossa vida que nos levam à paixão, ao sofrimento.
2 – Um segundo momento poderia ter como enfoque o arrependimento
de cada qual e da comunidade cristã reunida, em vista da falta de
responsabilidade. Aqui o arrependimento pode se dar em silêncio como
sinal de que o arrependimento deve acontecer concretamente. Exercitar
o discernimento é um caminho para o arrependimento, é o exercício de
colocar-se no lugar de outras pessoas para melhor saber entender.
3 – O terceiro momento seria, então, a parábola da figueira. É a
oferta da graça e da paciência de Deus. O tempo de Deus é aquele
tempo que espera, é um tempo de paciência, de silêncio, de cuidado,
de oração, de atitude. Foi assim com o joio e o trigo, com Ana, com
Isabel, com Sara e com a figueira. Não é um tempo passivo, nem para
Deus tampouco para nós É tempo de escavar, adubar e cuidar da vida.
7
Subsídios litúrgicos
Os três momentos da homilia poderiam estar intercalados assim:
* escuridão, o uso de pouca luz e de mais luz na parte do arrependimento
e bastante luz na parte sobre a paciência ativa. A escuridão
pode simbolizar a ausência de paz, de justiça... A luz pode simbolizar
discernimento, esperança de um novo tempo, de se relacionar, de distribuir
o pão, de viver com justiça;
* cada parte também poderia ser intercalada com dramatizações(de um minuto) sem fala, só com movimentos e expressões que indicam
relações violentas, arrependimento e graça/espera ativa;
* instrumentos e sons, de acordo com cada momento, também
podem ser usados para intercalar os três momentos;
* a comunidade poderia participar relatando de forma breve situações
de violência específica, bem como situações em que a violência foi
sanada;
* momentos de silêncio também podem servir como símbolo de
paciência, de tempo de pensar, refletir sobre a nossa vida ou sinal da
paciência de Deus.
Saudação inicial: Esta pode ser lida por jovens que lêem juntos e
repetem três vezes o versículo, começando a leitura em tom de voz
baixo, aumentando o tom aos poucos até o final da terceira leitura.
* Por muito tempo me calei, estive em silêncio e me contive; mas,
agora, darei gritos como a que está de parto (Is 42.14 ou Is 62.1).
Confissão de pecados: Silenciosa e individual, intercalando momentos
de silêncio com a súplica: Ouve, Senhor, a nossa confissão. Podem
ser usadas pedras pequenas para simbolizar a violência que será
confessada por cada pessoa. Concluir a confissão com a leitura do Sl
51.1-13, intercalando a leitura dos versículos em dois grupos da comunidade.
Absolvição: “O Senhor não demora para cumprir o que prometeu,
como alguns pensam, achando que há demora; é que Deus tem paciência
com vocês, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos
cheguem a se converter” (2 Pe 3.9).
Bênção: A bênção pode ser mútua, envolvendo toda a comunidade.
As pessoas podem colocar as mãos nos ombros daquelas que estão
ao lado e podem ser convidadas a repetir as frases curtas da bênção,
que será lida por alguém. Poderia também ser feita em duplas.
“A ti a profunda paz do vaivém das ondas.
A ti a profunda paz do fluxo do ar.
A ti a profunda paz da terra silenciosa.
A ti a profunda paz das estrelas reluzentes.
A ti a profunda paz do filho da paz.”
(Antiga bênção céltica)
Bibliografia
GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal,
2. ed., v. II, 1988.
KÜMMEL, Georg Werner. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.
MOSCONI, Luís. Leitura Segundo Lucas. Pistas para uma leitura contemplativa espiritual e
militante. A Palavra da vida. Belo Horizonte: Cebi, n. 43/44, 1991.
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