4º DOMINGO DO ADVENTO (24 de dezembro)
A SALVAÇÃO NASCE DOS POBRES
I. INTRODUÇÃO GERAL
Celebrar a Eucaristia é sentir que a salvação nasce dos pobres. É nos pequenos das roças e periferias que hoje Jesus se encarna, devolvendo-lhes a esperança e a paz (I leitura e evangelho).
As comunidades cristãs, pequeno resto, se reúnem para celebrar esse evento libertador: o nascimento, morte e ressurreição de Jesus que, em seu corpo, nos santificou e libertou, perdoando nossos pecados. A melhor resposta que podemos dar-lhe, neste tempo de Advento, é esta: “Estamos aqui para fazer a tua vontade” (II leitura).
A comunidade reunida, o pão partilhado, são sinais visíveis de que o mundo novo está começando a partir dos que se comprometem com o Reino de Deus. Na celebração sentimos que a realeza de Cristo se traduz na partilha do seu ser com os empobrecidos, criando a paz. Como Isabel, nós também perguntamos: “Como posso merecer que… o meu Senhor me venha visitar?” A proximidade do Deus que se faz pão e palavra de vida nos leva a exultar como João Batista no seio de sua mãe. Deus veio morar entre os empobrecidos. Encarnou-se neles para salvá-los!
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Mq 5,1-4a): Surgimento do poder popular
Miquéias exerceu sua atividade profética contemporaneamente a Isaías, em Judá. O seu foi um tempo difícil, caracterizado pela corrupção do poder e das lideranças, pela idolatria que tem nos “porta-vozes palacianos” (profetas a serviço do poder político e econômico) seu ponto de sustentação, e pelo empobrecimento crescente do povo. Nesse tempo, Jerusalém, capital e sede do poder, está para ser tomada pelos inimigos.
O capítulo 5 de Miquéias é um clássico da teologia messiânica. Os estudiosos discutem se este capítulo é da autoria do profeta ou se foi acrescido posteriormente. É mais provável que seja um oráculo – surgido dos meios populares rurais – acrescentado mais tarde. De fato, o trecho fala de um soberano que reina a partir dos pobres, rompendo com a ideologia palaciana central.
Esse oráculo messiânico serviu de inspiração para as camadas empobrecidas da sociedade. Embora não saibamos exatamente quando surgiu, é possível perceber nele um texto que critica e anula o tipo de poder que se instalou em Jerusalém, poder que traiu os objetivos da realeza davídica. O oráculo de hoje, portanto, poderia ter surgido das camadas populares às vésperas do exílio, ou do povo pobre que ficou no território durante o exílio ou, ainda, entre os que, a duras penas, tiveram que reconstruir o país após o exílio. Isso é confirmado pelo fato de o texto hebraico ter sofrido muitos acertos e correções, o que torna impossível, hoje, uma tradução única.
O oráculo inicia privilegiando Belém, uma aldeia do interior, desprezível aos olhos da corte instalada em Jerusalém. Essa localidade, pequena entre as vilas de Judá, será pátria daquele que vai governar Israel (v. 1). A salvação, portanto, não vem da capital e do poder aí instalado; vem da roça, exatamente como no início da monarquia em Israel, quando Deus escolheu Davi, um jovem pastor, para organizar e salvar seu povo. De fato, Belém era a cidade natal de Davi. Deus, portanto, se mantém fiel à promessa davídica conservando-lhe um descendente no trono (cf. 2Sm 7), mas muda completamente o modo de exercer o poder: será um poder popular, à semelhança do de Davi, em torno do qual se uniram os descontentes e explorados pelo poder absolutizado.
O v. 2 fala da restauração do povo. O profeta não acena para a época em que isso irá acontecer. Mostra, simplesmente, dois sinais: o da mulher que dá à luz e a volta dos exilados. Os dois sinais falam de vida nova e de nova sociedade: a mulher que dá à luz (que pode ser entendida em sentido coletivo; seria, então, símbolo de nova sociedade) e o retorno dos exilados irão marcar tempos novos para o povo de Deus. Isso vai acontecer graças ao soberano que reina a partir dos pobres, instaurando novo modo de exercer o poder.
Evocando a memória de Davi, o rei-pastor, o v. 3 descreve as qualidades do poder popular. É poder a serviço do bem e da segurança do povo. Recupera-se, dessa forma, o ideal da realeza em Israel: defesa dos interesses populares mediante a conservação das fronteiras do país e mediante o exercício da justiça aos pobres e oprimidos.
Os reis tiranos de Judá (e de Israel) mantinham-se no poder graças à ideologia palaciana de apoio (falsos profetas) e através da violência. O novo soberano terá outro tipo de sustentação: a força de Javé e o nome glorioso do Senhor Deus. O Deus libertador (Javé) irá conservar no trono o poder que defende os interesses e reivindicações das massas empobrecidas. O domínio desse rei será total (até os confins da terra) e o povo viverá em segurança. O poder popular vai trazer a plenitude dos bens (paz = shalom) para todo o povo (v. 4a).
2.Evangelho (Lc 1,39-45): A salvação nasce dos pobres
Lc 1,39-45 é a seção que costumamos chamar “a visita de Maria a Isabel”. Pertence aos relatos do nascimento e infância de Jesus. A preocupação central de Lucas não é demonstrar como as coisas aconteceram. Ele pretende fazer uma releitura dos fatos à luz do evento morte-ressurreição de Jesus, a fim de iluminar a caminhada das primeiras comunidades cristãs. Não se trata, pois, de curiosidade histórica, mas de leitura teológica. Com isso, os primeiros cristãos vibravam intensamente com o fato de a salvação nascer dos pobres.
a. A Trindade se revela nos pobres
Na anunciação, o anjo informara Maria a respeito da gravidez de Isabel, com a garantia de que nada é impossível para Deus (1,37). Ao declarar-se serva do Senhor (v. 38), ela concebe Jesus e, como sinal do seu serviço, dirige-se apressadamente à casa de Zacarias, ao encontro de Isabel (vv. 39-40).
A cena mostra o encontro de duas mães agraciadas com o dom da fecundidade e da vida (Isabel, além de idosa, era estéril; Maria não teve relações com nenhum homem). O trecho mostra também o encontro de duas crianças, o Precursor e o Salvador, sob o dinamismo do Espírito Santo. Jesus fora concebido por obra do Espírito; João Batista exulta no seio de Isabel que, cheia do Espírito Santo, proclama Maria bendita e bem-aventurada. Bendita porque missionária; bem-aventurada porque crê na Palavra do Senhor. Simplesmente discípula, serva do Senhor e servidora do povo.
A cena mostra, sobretudo, que a Trindade se revela nos pobres e faz deles sua morada permanente. O Pai havia revelado a Maria o dom feito a Isabel, a marginalizada porque estéril, a que não tinha mais esperanças de vida porque idosa e incapaz de conceber; o Espírito revela a Isabel que Maria, a serva do Pai, se tornou “mãe do Senhor” (v. 43). Assim a Trindade entra na casa dos pobres humilhados que esperam a libertação. Nesse sentido, é interessante esclarecer o significado dos nomes das personagens envolvidas na cena: Jesus (= Deus salva); João (= Deus é misericórdia); Zacarias (= Deus se lembrou); Isabel (= Deus é plenitude); Maria (= a amada). Em síntese, os pobres proclamam a misericórdia do Deus que se lembra dos pobres, vem morar com eles porque os ama, trazendo-lhes a plenitude da salvação.
b. Deus fecunda a fé
As palavras de Isabel a Maria (vv. 42b-45) se inspiram nos elogios das mulheres libertadoras do Antigo Testamento: Jael (“Que Jael seja bendita entre as mulheres”, Jz 5,24) e Judite (“Ó filha, bendita sejas para Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra”, Jt 13,18). Abraão, pai dos que crêem, também é bendito (cf. Gn 12,2-3). O v. 42b se inspira, ainda, nas promessas de vida a Israel (“Será bendito o fruto do teu ventre”, Dt 28,4).
Isabel proclama Maria bendita, ou seja, abençoada. Na Bíblia, as pessoas abençoam (benzem ou bendizem) quando descobrem a presença do Deus que salva. Maria é motivo de bênção porque se tornou o lugar privilegiado onde se experimenta Deus. O Antigo Testamento (Isabel e João) abençoa o Novo (Maria e Jesus). O Antigo Testamento reconhece a nova humanidade que está se formando no seio de Maria, o lugar privilegiado onde se experimenta Deus.
A expressão de alegria de Isabel ao acolher Maria (“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”) recorda o espanto de Davi ao acolher a Arca: “Como virá a Arca de Javé para ficar na minha casa?” (2Sm 6,9). Em base a esse paralelismo, a mariologia tradicional vê em Maria a arca da Nova Aliança, por ser ela a mãe do menino que é chamado Santo, Filho de Deus (Lc 1,35). A exultação de João no seio de Isabel (v. 44) é a alegria do povo de Deus pela vinda do Messias. Com esse fato, Lucas quis registrar a realização das expectativas messiânicas: a misericórdia de Deus se revela agora em Jesus que vem para salvar (cf. I leitura).
O elogio de Isabel a Maria vai além da maternidade física. A bem-aventurança de Maria (v. 45) é ter acreditado que as coisas ditas pelo Senhor iriam se cumprir. Isso está em perfeita sintonia com o Evangelho de Lucas, no qual ela aparece como modelo do discípulo. O próprio Jesus afirma haver uma bem-aventurança que supera a da maternidade física: “Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (cf. 11,27-28). Maria, a escrava do Senhor (1,28), merece a bem-aventurança dos ouvintes cristãos aos quais Lucas, em At 2,18, chama de servos e servas do Senhor.
3. II leitura (Hb 10,5-10): Jesus, a oferta que agrada ao Pai e santifica as pessoas
O texto de Hebreus foi escrito para “um grupo de cristãos que se acham em grande perigo de rejeitar a fé em Jesus como revelador e portador da salvação. Eles sentem dificuldade em aceitar, tanto a forma humilhante e dolorosa da aparição terrestre de Jesus (Hb 2), como os próprios sofrimentos que estão tendo de suportar por serem cristãos (10,32ss; 12,3ss) e ainda a desilusão de não verem realizada a salvação final (10,36s; 3,14; 6,12). Por outro lado, parece que a religião do Antigo Testamento exerce forte influência nesse grupo. Pode-se supor que sejam judeus convertidos da comunidade cristã de Roma. O escrito é de grande importância no quadro geral do Novo Testamento, pelo fato de apresentar Jesus como aquele que supera a instituição cultual do Antigo Testamento… O único fato salvador a obter uma vez por todas o perdão, é o sacrifício de Jesus, que derramou seu sangue e entregou sua vida por nós. Jesus é, portanto, o único mediador entre Deus e os homens. Doravante, ele é o único santuário e sacerdote, e o sacrifício por ele realizado é, daqui por diante, o único agradável a Deus (9,11-14)” (Bíblia Sagrada – Ed. Pastoral, Paulus, p. 1474).
Os versículos deste domingo pertencem à parte central do texto (5,11-10,39), cujo tema é o valor sem igual do sacrifício de Cristo. O autor apresenta a tríplice incapacidade da Lei: 1. Ela possui apenas a sombra dos bens futuros (10,1); 2. O sangue dos sacrifícios que ela prescreve – imolação de touros e bodes – é incapaz de eliminar os pecados do povo; 3. Os sacerdotes que presidem esses sacrifícios são incapazes de eliminar os pecados. Isso deveria ser motivo de consternação e desânimo para a comunidade cristã, se Deus não tivesse, em Jesus, apresentado a definitiva novidade libertadora.
O texto deste domingo quer mostrar a novidade do único sacrifício de Jesus. O autor se esmera em trazer provas indiscutíveis: o testemunho do Antigo Testamento. Diante da incapacidade dos sacrifícios e oferendas antigos em libertar as pessoas de seus pecados, Deus dá um corpo a Jesus. E é em seu corpo, entregue à morte, que ele realiza a vontade do Pai. A prova escriturística do Antigo Testamento que o autor apresenta é o salmo 40,6-8 (cf. Hb 10,5-8). Esse salmo é uma ação de graças na qual o fiel agradece a Deus a libertação obtida gratuitamente. Como, pois, agradecer a Deus? Mediante sacrifícios no Templo? Não. O salmista aponta a novidade da ação de graças: reconhece a salvação gratuita de Deus e, como resposta, entrega-se pessoalmente, disposto a cumprir a vontade divina.
O autor aplica esse salmo à missão de Jesus: “Tu não quiseste e não te agradaram sacrifícios, oferendas, holocaustos e sacrifícios pelo pecado. Trata-se de oferendas prescritas pela Lei!” (Hb 10,8). Jesus, em seu corpo, supera o complexo sistema sacrifical do Antigo Testamento, inaugurando a novidade e unicidade do seu sacrifício: ele se entrega pessoalmente para remir o povo: “Aqui estou eu para fazer a tua vontade” (v. 9). Pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez para sempre, os cristãos são santificados e recebem o perdão de seus pecados (v. 10).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
• A I leitura e o evangelho mostram o lugar social onde Deus se encarna para construir nova sociedade: ele se encarna nos pobres e no meio deles, trazendo-lhes plenitude de vida e salvação. À semelhança de Maria, Zacarias, Isabel e João, os marginalizados são hoje o lugar privilegiado onde se experimenta Deus. O clima de alegria que invadiu João Batista no seio de sua mãe se traduz hoje nas expectativas e esperanças do povo que espera a libertação. Benditos os pobres que crêem, aguardam e fazem a hora da libertação! Benditos os que descobrem neles a presença do Deus que salva!
• Jesus é a oferta que agrada ao Pai e santifica as pessoas (II leitura). Seu corpo entregue é salvação, perdão e esperança que já começa a se concretizar na comunidade dos que fazem a vontade do Pai. A melhor resposta a ser dada à gratuidade da salvação é a entrega pessoal e comunitária: “Estamos aqui para fazer a tua vontade”.
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