DEUS REALIZA AS ESPERANÇAS DOS POBRES
Pe. José Bortolini
I. INTRODUÇÃO GERAL
Maria "proclama que Deus realizou uma tríplice inversão das falsas situações humanas, para restaurar a humanidade na salvação, obra de Cristo. No campo religioso, Deus derruba as auto-suficiências humanas; confunde os planos dos que nutrem pensamentos de soberba, erguem-se contra Deus e oprimem os homens. No campo político, Deus destrói os injustificáveis desníveis humanos, abate os poderosos dos tronos e exalta os humildes; repele aqueles que se apoderam indevidamente dos povos, e aprova os que os servem para promover o bem das pessoas e da sociedade, sem discriminações. No campo social, Deus transtorna a aristocracia estabelecida sobre ouro e meios de poder, cumula de bens os necessitados e despede de mãos vazias os ricos, para instaurar uma verdadeira fraternidade na sociedade e entre os povos" (Missal Dominical, Paulus, p. 1346).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1.Evangelho (Lc 1,39-56): Maravilhas de Deus em favor dos humilhados
Lc 1,39-56 é a seção que costumamos chamar "a visita de Maria a Isabel". Pertence aos relatos do nascimento e infância de João Batista e de Jesus. O contexto é das aldeias: Maria é da aldeia de Nazaré e vai a uma aldeia da Judéia para servir. Lucas não pretende, em primeiro lugar, mostrar como isso aconteceu, mas reler esses acontecimentos à luz da morte-ressurreição de Jesus, a fim de iluminar a caminhada das primeiras comunidades cristãs. Não se trata, pois, de curiosidade histórica, mas de leitura teológica. Dividiremos essa seção em dois momentos: vv. 39-45 e vv. 46-56.
a. A Trindade se revela aos pobres (vv. 39-45)
Na anunciação, o anjo informara Maria a respeito da gravidez de Isabel, com a garantia de que nada é impossível para Deus (1,37). Ao declarar-se serva do Senhor (v. 38), ela concebe Jesus e, como sinal de seu serviço, dirige-se apressadamente à casa de Zacarias, ao encontro e a serviço de Isabel (vv. 39-40). A cena mostra o encontro de duas mães agraciadas com o dom da fecundidade e da vida (Isabel era estéril e Maria não teve relações com nenhum homem); mostra também o encontro de duas crianças, o Precursor e o Messias, ambos sob o dinamismo do Espírito Santo. Jesus havia sido concebido por obra do Espírito; João Batista exulta no seio de Isabel que, cheia do Espírito Santo, proclama Maria bem-aventurada. Mas a cena mostra, sobretudo, que a Trindade se revela aos pobres e faz deles sua morada permanente. O Pai havia revelado a Maria o dom feito a Isabel, a marginalizada porque estéril; o Espírito revela a Isabel que Maria, a serva do Pai, se tornou "mãe do Senhor" (v. 43). Assim a Trindade entra na casa dos pobres e humilhados que esperam a libertação. Os nomes das personagens nos ajudam a ver melhor: Jesus (= Deus salva); João (= Deus é misericórdia); Zacarias (= Deus se lembrou); Isabel (= Deus é plenitude); Maria (= a amada). Maria se torna, assim, pioneira insuperável de evangelização, pois leva Jesus-Messias às pessoas.
As palavras de Isabel a Maria (vv. 42b-45) se inspiram nos elogios das mulheres libertadoras do Antigo Testamento: Jael ("Que Jael seja bendita entre as mulheres", Jz 5,24) e Judite ("Que o Deus Altíssimo abençoe você, minha filha, mais que todas as mulheres da terra", Jt 13,18; cf. Gn 14,19-20). O v. 42b se inspira, ainda, nas promessas de vida a Israel ("Será abençoado o fruto do seu ventre", Dt 28,4).
A expressão de alegria de Isabel ao acolher Maria (v. 43) recorda a surpresa de Davi ao acolher a Arca ("Como é que a Arca de Javé poderá ser introduzida em minha casa?", 2Sm 6,9). Em base a esse paralelismo, alguns vêem em Maria a arca da nova Aliança, por ser ela a mãe do menino que é chamado Santo, Filho de Deus (Lc 1,35). Mas o elogio de Isabel a Maria vai além de sua maternidade física. A grande bem-aventurança de Maria é ter acreditado que as coisas ditas pelo Senhor iriam cumprir-se (v. 45). Isso está em perfeita sintonia com o Evangelho de Lucas, no qual ela aparece como modelo do discípulo. O próprio Jesus afirma haver uma bem-aventurança que supera a da maternidade física: "Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam" (cf. 11,17-28). Maria, a escrava do Senhor (1,28), merece a bem-aventurança dos ouvintes cristãos a quem Lucas, em At 2,18, chama de servos e servas do Senhor.
Duas são as características mais importantes de Maria no relato da visita a Isabel. E são exatamente as qualidades do discipulado no Evangelho de Lucas: atenção e adesão absolutas à palavra de Deus e, como conseqüência disso, serviço incondicional a quem necessita. Maria é discípula fiel (em relação a Deus) e solidária (em relação ao próximo).
b. Magnificat: Deus realiza a esperança dos pobres (vv. 46-56)
Algumas observações preliminares ajudarão a entender melhor o Magnificat (cf. VV. AA., Maria no Novo Testamento, Paulus, São Paulo, 1985, pp.150-156). Em primeiro lugar, devemos perguntar se foi Maria quem pronunciou esse hino de louvor que chamamos de Magnificat. Alguns manuscritos atribuem esse hino a Isabel. O Magnificat se inspira fortemente no canto de Ana (1Sm 2,1-10), mãe de Samuel, depois que Deus a livrou da humilhação da esterilidade. Nesse sentido, o hino (sobretudo o v. 48) está mais para Isabel do que para Maria. Porém, a idéia de serva e a expressão "todas as gerações me chamarão de bem-aventurada" (v. 48) se adaptam melhor a Maria.
Em segundo lugar, os estudiosos são concordes em afirmar que o Magnificat, assim como se encontra, não foi composto por Maria. Uma prova disso são os verbos no passado: agiu com a força de seu braço, dispersou, depôs, exaltou, cumulou, despediu etc. (vv. 51-55). Esses verbos no passado revelam que o hino é lido à luz da vida, morte e ressurreição de Jesus. "Deus inverteu o estado de coisas que a crucifixão havia criado".
Em terceiro lugar, trata-se de descobrir quem compôs esse hino. É bem provável que fosse um hino das primeiras comunidades cristãs, onde se louva a intervenção de Deus em favor dos pobres, humilhados e famintos, contra os orgulhosos, poderosos e ricos (característica dos hinos de louvor). O contraste de sortes ressalta o poder de Deus e as maravilhas que realiza em favor dos pobres, coroando suas esperanças. Lucas atribuiu esse hino a Maria porque ela, mais que todos, expressava os sentimentos e atitudes de compromisso, esperança e confiança no poder de Deus. Lucas foi muito corajoso ao atribuir esse hino a Maria, ressaltando-lhe o valor e a importância enquanto figura representativa de uma coletividade. Ela, portanto, é porta-voz qualificada dos discípulos cristãos, dos pobres que anseiam por libertação. É porta-voz dos oprimidos, pobres, aflitos, viúvas e órfãos. Opostos a esses estavam os ricos, mas também os orgulhosos e auto-suficientes que punham suas esperanças nos próprios recursos, não sentindo qualquer necessidade de Deus.
É um texto profético. Não no sentido de previsão do futuro, mas no sentido genuíno da profecia, que pode ser traduzida como denúncia de algo errado e anúncio de uma transformação. Maria é profetisa porque, movida pelo Espírito, encarna os ideais dos profetas do Antigo Testamento, do qual também ela faz parte.
O espírito do Magnificat combina com o da comunidade de Jerusalém em At 2,43-47; 4,32-37, na qual provavelmente o hino tomou corpo, tornando-se canto de louvor pela libertação. Pondo-o nos lábios de Maria, Lucas atribui a ela um papel importante na história da salvação, "um papel representativo que, partindo do relato da infância, penetrará no mistério de Jesus e chegará finalmente à Igreja primitiva" (o.c., p. 156).
O Magnificat, como os salmos do tipo "hino de louvor", contém uma introdução (vv.46b-47) onde se louva Deus; um corpo (vv. 48-53), que enumera os motivos de louvor (cf. v. 48: porque.), e uma conclusão (vv. 54-55), que ressalta por que Deus agiu assim, cumprindo as promessas feitas aos antepassados. Dentro do hino há pares que fazem de Maria a figura representativa de todo o povo: serva + servo; humilhação/humildade + humildes; a misericórdia de Deus que se estende.. + Deus que se lembra de sua misericórdia.
A introdução vê realizadas as expectativas de Ana (cf. 1Sm 1,11) e do profeta Habacuc (3,18), que traduzem as esperanças dos pobres ('anawim). Atribuindo a Maria este hino, Lucas a torna intérprete dos anseios dos humilhados que vêem, finalmente, realizadas suas esperanças. Todo o ser de Maria é envolvido no louvor (alma + espírito).
O corpo do Magnificat ressalta a ação de Deus em favor dos humilhados (inicia com porque...). Essa ação é descrita como maravilha, termo que, na Bíblia, marca as grandes intervenções de Deus em vista da libertação (por exemplo, o êxodo). A maravilha divina é libertar os que sofrem e esperam nele, exaltando-os e cumulando-os de bens. Os beneficiados são dois: Maria e os necessitados. Os aspectos político e econômico estão bem representados (poderosos destronados; ricos despedidos de mãos vazias).
A conclusão salienta que a ação de Deus em favor dos pobres é fruto da memória de sua misericórdia, renovando hoje os benefícios e opções feitos no passado, mantendo assim a fidelidade prometida a Abraão e a seus descendentes.
2. II leitura (1Cor 15,20-26): A ressurreição de Cristo nos cristãos
Um dos motivos que levaram Paulo a escrever aos coríntios foi a questão da ressurreição dos mortos. Para os de cultura grega era difícil aceitar que os mortos pudessem voltar à vida. Negando a ressurreição dos mortos, negavam também a ressurreição de Cristo.
Em 1Cor 15 Paulo aborda essa questão. Inicia recordando o anúncio fundamental (querigma) do Evangelho: Cristo morreu e ressuscitou. É isto que ele e os demais apóstolos anunciam. E as provas de que Cristo vive são os próprios apóstolos e muitos cristãos, aos quais ele apareceu depois de ressuscitado.
Baseado nesse pressuposto, tenta levar à fé os que duvidam (vv.12-34), apresentando provas da Bíblia (vv. 27.32). Outros argumentos que confirmam a ressurreição dos mortos fazem parte do trecho que lemos na liturgia de hoje. O primeiro é o que mostra Cristo enquanto primícias dos que adormeceram (v. 20). Primícias são os primeiros frutos a amadurecer. Depois deles amadurecem os demais e vem a colheita. Cristo é o primeiro fruto de ressurreição. Ele venceu a morte para sempre, abrindo as portas para a vitória da vida sobre a morte. Portanto, os mortos ressuscitarão também, como Cristo ressuscitou. Paulo contrapõe Adão a Cristo: o pecado do primeiro acarretou a morte para todos; a morte-ressurreição do segundo confere vida a todos. Se todos se solidarizam em Adão em vista da fraqueza do pecado, com sua morte e ressurreição Cristo nos associou a si e à sua vida em plenitude (vv. 21-22). Por causa dele fomos feitos cristãos, semelhantes a Cristo na vitória sobre a morte.
O segundo argumento é o da vitória de Cristo sobre todas as forças hostis às pessoas e ao projeto de Deus. Ele aniquilará todos os mecanismos de morte (principado, autoridade, poder), vencendo finalmente a morte, último inimigo, e entregando o Reino ao Pai (vv. 34-36). A vitória de Cristo, portanto, não será completa enquanto não vencer também naqueles que trazem seu nome. Isso quer dizer que a luta contra a morte é tarefa conjunta de Cristo e dos cristãos. Só quando estes participarem da vida plena em Deus é que Cristo dará por encerrada sua missão.
3. I leitura (Ap 11,19; 12,1-6a.10ab): A comunidade dá à luz o Cristo
O texto pertence, na estrutura do Apocalipse, à "seção dos três sinais" (11,15-16,16). As comunidades cristãs, às quais é endereçada a mensagem, encontram-se em fase difícil por causa das perseguições. Percebem que a história é movida por forças positivas e negativas que determinam o desenrolar dos acontecimentos. E as forças negativas parecem ter o poder de destruir todas as esperanças de vida das comunidades.
O autor do Apocalipse apresenta, pois, à comunidade que lê o texto, dois sinais que devem ser interpretados, iluminando a vida dos cristãos. A descrição dos sinais é precedida pela abertura do templo que está no céu e pelo surgimento da arca da Aliança (11,19). Templo e arca são sinônimos de proximidade, comunicabilidade e encontro com Deus. Os relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e tempestade de granizo indicam, enquanto elementos teofânicos, que Deus está para comunicar à comunidade algo de capital importância.
O final do capítulo 11 tem como pano de fundo uma tradição secular, cuja memória se conserva em 2Mc 2,1-8. Trata-se de Jeremias (século 6 a.C.) escondendo numa gruta a Tenda, a Arca e o altar do incenso, sem deixar vestígios de acesso a essa gruta. Ele repreende os que desejavam sinalizar o lugar, dizendo: "O lugar ficará desconhecido até que Deus se mostre misericordioso e reúna novamente toda a comunidade do povo. Então o Senhor mostrará esses objetos. A glória do Senhor e a nuvem também vão aparecer..." (vv. 7b-8a). Esse texto certamente estava na memória do autor ao escrever o livro do Apocalipse. E com isso nos brinda algumas chaves desta leitura: O Senhor se mostrou misericordioso; ele reuniu novamente o seu povo (representado pela Mulher); revela-se aqui a glória do Senhor, vinda do céu, onde reaparece a Arca da Aliança; tudo isso compõe uma grande teofania (relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e tempestade de granizo).
O primeiro sinal grandioso aparece no céu, isto é, no ambiente de Deus. Trata-se de uma mulher, uma esposa-mãe. Ela tem por manto o sol (sinal da proteção de Deus). Tem a lua sob os pés (isto é, já possui a eternidade de Deus) e tem na cabeça uma coroa (ou seja, é vitoriosa) de doze estrelas (que representam as doze tribos de Israel e os doze apóstolos). No Apocalipse, a roupa é a identidade da pessoa. Sol, lua, estrelas são elementos cósmicos simbolizados. Esses elementos são a "roupa" da mulher, ou seja, sua identidade. Em outras palavras, o Apocalipse afirma que essa mulher está profundamente ligada e identificada com Deus (sol que envolve como vestido, lua que envolve por baixo, estrelas que envolvem por cima).
A comunidade que lê o Apocalipse é convidada a interpretar o sinal. Quem é essa mulher? É uma imagem polivalente. É, em primeiro lugar, Eva, a mãe da humanidade (Gn 3,15-16); é o povo de Deus do Antigo Testamento (as doze estrelas); é Sião-Jerusalém, esposa de Javé; é Maria que dá à luz o Cristo. Mas é sobretudo as comunidades do tempo do Apocalipse. Elas têm dimensão celeste (o sinal aparece no céu) e dimensão terrena (encontram-se no mundo, procurando dar continuamente à luz o Cristo). As comunidades se identificam com essa mulher, e descobrem a raiz do seu ser e de sua missão no mundo.
O segundo sinal (vv. 3-4) é o do Dragão, a força hostil, de origem demoníaca, aparentemente superior às forças dos cristãos (sete cabeças). As comunidades são convidadas a interpretar o sinal: o Dragão é força opressora que se encarna em pessoas e arranjos sociais, dificultando o testemunho cristão, e procurando devorar os frutos e a vida das comunidades proféticas que resistem ao imperialismo romano (e aos imperialismos de hoje).
Contudo, apesar de ter aspecto aterrador, seu poder não é absoluto, pois tem dez chifres (número que denota imperfeição) e com a cauda arrasta um terço das estrelas (cifra que denota poder parcial). As comunidades proféticas, pela força do Cristo ressuscitado, vencerão esse poder opressor.
De fato, Deus socorre as comunidades proféticas que lutam para dar à luz o Cristo e as salva (vv. 5-6), e o Dragão é vencido sem esforço (v. 7).
A proclamação que segue anuncia que Deus salva e liberta, por meio da autoridade de Cristo, as comunidades proféticas, conferindo-lhes capacidade de vencer todos os obstáculos, inclusive a morte (v. 11).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Assumindo responsavelmente o projeto de Deus, Maria é figura e esperança de quantos aspiram por liberdade e vida. Ela vem reforçar a confiança dos pobres, ao mostrar que neles o Poderoso opera maravilhas de libertação. Serva fiel, bem-aventurada porque acreditou nas promessas, solidária com os necessitados, é mãe das comunidades que lutam contra os dragões que procuram matar as sementes do Reino e roubar-lhes as esperanças. Associada intimamente a Jesus por sua maternidade e mais ainda pela prática da Palavra, participa da vitória de Cristo, primícia da vida em plenitude.
O canto de Maria nos estimula a lutar pelo mundo novo já iniciado com a ressurreição de Jesus. Esse mundo novo irá se tornando realidade concreta se formos cidadãos conscientes e responsáveis. O que o Magnificat nos sugere para a prática pastoral hoje?
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