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Missionários Claretianos
Primeira leitura: Josué 5, 9a.10-12
O povo de Deus celebra a Páscoa depois de entrar na Terra Prometida.
Salmo responsorial: 33, 2-3.4-5.6-7
Provai e vede quão suave é o Senhor!.
Segunda leitura: 2 Coríntios 5, 17-21
Por Cristo, Deus nos reconciliou consigo mesmo.
Evangelho: Lucas 15, 1-3.11-32
Este teu irmão estava morte e tornou a viver. |
Análise
A primeira leitura nos apresenta um elemento fundamental para a liturgia, que é a celebração da Páscoa no deserto. O texto oferece uma série de elementos que podem ser discutidos sob uma perspectiva "histórica": o nome de Gálgala certamente não se refere ao que diz aqui o texto, mas a um "círculo" de pedras que pode ter dado origem a um lugar que hoje não conhecemos com segurança (há diferentes locais possíveis). Não é isto, porém, o principal, mas algo importante foi concluído.
Isto é apresentado como o "opróbrio" do Egito. Uma vez que o termo "opróbrio" é empregado em Gênesis 34, 17 para falar da circuncisão, pensou-se que se refira ao fato de ter estado sob o domínio de "incircuncisos". Isto foi questionado porque os egípcios se submetiam à circuncisão, mas não é "somente à circuncisão" que devemos nos referir, não se deve esquecer que esta é sinal da aliança de Deus com seu povo (Gênesis 17, 2. 11) e certamente os egípcios não participam da aliança.
Por outro lado, o v. 9 pertence de fato à unidade anterior (5, 1-9) onde a circuncisão é o tema fundamental. Ter estado dominados por um povo "não-circuncidado" constitui um verdadeiro opróbrio, mas o fim do êxodo (do qual se trata nesta unidade) marca também o fim desta etapa.
Nos vv. 10-12, trata-se de outra temática, estritamente ligada à anterior: o fim do maná, que é símbolo da peregrinação pelo deserto. Egito e deserto chegaram a seu fim, agora se está na terra que os alimenta e onde devemos ser fiéis à aliança expressa na circuncisão, aliança pela qual deixam de ser "gentios" ( goy ) para passar a ser "povo" ( `am ). A temática da alimentação ("comer", "páscoa", "maná") marca esta unidade.
É interessante que o êxodo começa com uma páscoa e finaliza com outra, como a peregrinação foi marcada pelo aparecimento do maná e fechada por seu apogeu.
Não nos interessa, neste comentário, a parte histórica de notar que ainda não foi acrescentada à festa pascal o rito da comida do cordeiro e dos pães sem fermento. Isso parece ter ocorrido nos tempos de Josias (622 a.C.; 2º Livro dos Reis 23, 21-23: Josué = Josias?), o importante é que a celebração não somente marca o auge de um período, mas o começo de um novo, e esse período é marcado pela memória dos acontecimentos salvadores de Deus no êxodo e no deserto. É interessante notar a importância que esta unidade dá à marcação do tempo: "no décimo quarto dia do mês, pela tarde" (v. 10), "no dia seguinte" (vv. 11e 12), "naquele ano" (v.12). Inicia-se um tempo novo, e a celebração da páscoa é sinal dele.
O Salmo 33 (34) é "acróstico", quer dizer, "alfabético".Cada verso começa com uma letra em ordem alfabética. A liturgia finaliza no versículo 7. Com isso, só temos hoje a primeira parte do texto. Como muitos salmos deste tipo, a necessidade de encontrar palavras e encher espaços torna-os às vezes monótonos, outras vezes pouco criativos, literariamente falando. Vejamos alguns elementos:
Quem reza é um indivíduo que está diante da comunidade. Em todo momento, é ele quem louva a Deus. Expressamente, diz-nos que sua oração é de " louvor", um hino (daqui o Saltério tira seu nome, "o livro dos hinos") e que quer repeti-lo constantemente (a idéia de "totalidade" é freqüente no salmo, vv. 5. 7. 18. 20. 21: "todos", "todas", "nem um só deles").
O motivo do louvor é Deus mesmo, algo que repetirá com alguma freqüência o Antigo Testamento (cf. Jeremias 9, 22ss) e que Paulo resume com a idéia: "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1ª Carta aos Coríntios 1, 31; 2ª Carta aos Coríntios 10, 17).
Se quem reza afirma que os pobres ( `anawîm ) se alegram, é porque ele está dentro dessa categoria (cf. v. 7: "quando o pobre [ `ani ] grita..."). A humildade, o "abaixamento" contrasta com o engrandecer e louvar a Deus (v. 4).
A distância entre o orante e Deus não impede a busca (muitas vezes nos salmos é sinônimo de ir ao Templo), sabendo que Deus responde e isso tranqüiliza quem reza.
No v. 6, há um contraste entre "refulgir" e "escurecer". Em Isaías 60, 5 diz-se que a cidade que está no alto "brilha" em meio à escuridão ao nascer o sol, enquanto que a lua se escurece em um eclipse (Isaías 24, 23; cf. Jr 15, 9); isto é afirmado da nova Sião em Isaías 54, 4 e 60, 5. Este triplo elemento olhar - brilhar - não se escurecer , lembra Moisés e seu encontro com Deus do qual saía com o rosto resplandecente até o ponto em que o povo não podia olhar para ele sem que usasse um véu (Êxodo 34, 29-35). A oração humilde e confiante nos põe como Moisés diante de Deus e o orante sairá radiante do encontro, o privilégio que era de Moisés se estende agora para toda a comunidade.
Ao longo do Salmo, encontramos outros elementos característicos do Êxodo e Moisés (no versículo 8, "acampar"; v. 10, "santos"; "ensinamento"; v. 21: "quebrar os ossos") com o que a comunidade em oração sabe que louvando a Deus volta a viver os momentos de origem e pode encontrar-se com o Senhor que escuta e salva os pobres dos perigos (há momentos do salmo de clara influência no Magnificat , cf. v. 11 e Lucas 1, 53).
No texto da 2ª Carta aos Coríntios , Paulo nos diz como ele se vê diante de Deus. Agora, assinala que tudo isto é obra de Cristo. Estamos diante de uma das unidades mais cristológicas da carta. Um novo jogo de opostos (que voltaremos a encontrar na Carta aos Romanos 5, 12-21) entre um e todos dá sentido à morte de Cristo .
É uma morte de um por ( hyper ), palavra que se repete seis vezes nesta unidade e parece provir da leitura cristológica do cântico do Servo de Isaías 53 e assinala a ação em favor de todos nós (cf. Carta aos Romanos 5, 6.8). O efeito desta morte é a reconciliação (também na mesma carta 5, 6.8). E porque fomos reconciliados - reconcilia-se o mundo , cf. v. 19, confia aos ministros da palavra , o ministério da reconciliação . A missão do apóstolo parece claramente tornar realidade (imperativo) o que já ocorre (indicativo) por obra de Cristo: estamos reconciliados , reconciliemo-nos ! E o que nos deve mover (a todos nós ) é o amor , que nos estimula, angustia-nos e compele (para anunciá-lo a todos), por isso o efeito reconciliador busca que os que vivem não vivam para si , mas para o Senhor .
Solidários com a morte de Cristo, como sua morte é solidária conosco, não nos deve preocupar que se destrua o homem exterior; pelo contrário, isto significa uma morte a este homem e a irrupção da novidade de Cristo, novidade que é apresentada como nova criação. Uma notícia paradoxal: pecado-justiça se revela nesta 'solidariedade por'. Jesus foi feito pecado por nós (considera-se: feito por Deus, é um "passivo divino") e nele viemos a ser justiça , assim como nele somos nova criação.
Estar em Cristo mostra uma in-corporação, entrar no corpo, fundir-se na realidade que é Cristo, o que se obtém pelo batismo. A preposição em , neste caso, está carregada de sentido. Por isso pode afirmar algo tão terminante, aplicado aos cristãos. Isto não deve ser entendido de modo individualista: se alguém (está) em Cristo , (é) nova criação . Desta maneira, o primeiro, o velho, o anterior a Cristo e segundo a carne, já passou (o aoristo [do Grego] refere-se ao batismo), e já estamos (e continuamos estando [tempo do perfeito]) no novo tempo.
Seguindo o mesmo contexto, agora Paulo passa a desenvolver algo novo: cinco vezes usa o termo reconciliar/reconciliação nesta unidade, mas sempre a iniciativa parte de Deus e a reconciliação é com ele. Não se entende que Deus se reconcilie conosco, mas nós com ele. Como se vê nesta perícope (e também na Carta aos Romanos 5, 10-11), a reconciliação com Deus é fruto por excelência da morte e ressurreição de Cristo (5,15), e portanto é o conteúdo principal da pregação apostólica; o ministério da reconciliação é aqui sobre, a respeito da reconciliação pregada como efeito da Páscoa. Os apóstolos devem ser ministros , devem comunicar esta novidade começada e que já podemos conhecer. Submergindo-nos em Cristo, já viveremos para ele e seremos justiça de Deus .
Acentua-se a obra de Deus, obra sempre caracterizada pela gratuidade, por isso ele não conta os delitos . Com a linguagem econômica, contrasta-se novamente por um lado, a gratuidade de Deus - que não pede contas -, e que Paulo quer imitar, e por outro, a exploração ou paga que pretendem os adversários.
Reconcilie-se está no tempo aoristo (do Grego), o que significa uma urgência; contudo os coríntios já estavam reconciliados - convertidos. Por acaso, Paulo entende que os adversários desfizeram a obra de Deus e devem renovar a reconciliação? O uso do termo embaixadores parece que se deve entender como anúncio de status , certamente em comparação com o que a comunidade dá aos outros; e pretende também levar em conta o lugar que deve ocupar a mensagem, a liturgia e beneficência, que deve transmitir o embaixador de parte do imperador ( embaixadores de Cristo ). O que é claro é a instância mediadora entre Cristo e os coríntios.
É estranha a frase que indica que foi feito pecado. Conhecer o pecado é um semitismo em lugar de experimentá-lo na vida. É um tema freqüente no Novo Testamento a afirmação de que Jesus não pecou (cf. João 9, 16. 31; Carta aos Romanos 6, 10; Atos 4,15; 1ª Carta de Pedro 2, 22; 1ª Carta de João 3,5), enquanto que manifesta solidariedade com o pecador. A frase, contudo, não parece remarcar esta solidariedade, mas que foi feito pecado ; a voz passiva - como é freqüente - remete a Deus (passivo divino). Esses tipos de paradoxos são habituais em Paulo para assinalar os frutos reconciliadores da obra de Cristo (cf. também 8,9; Carta aos Gálatas 3,13; Carta aos Romanos 8,3-4; o tempo pretérito em feito pecado parece remeter-nos à Páscoa). Preposições como para (hina) e também por (hyper) buscam dar um sentido à morte de Jesus que não perdeu sua dimensão de escândalo.
O próprio Paulo na Carta aos Romanos nos dá uma chave de leitura: Deus " enviou seu próprio Filho numa carne semelhante à carne de pecado ( sarkòs hamartías ) e com respeito ao pecado, condenou o pecado na carne" (8, 3). É um "feito carne" no sentido de solidário com" a carne de pecado, é representante de todos os pecadores. Nesse sentido, é semelhante a morreu por todos - todos pecaram do v. 14 e forma inclusão literária com isso, emoldurando o relato.
Sabemos o lugar central que dá o Evangelho de Lucas à "misericórdia". Devemos ser misericordiosos como é nosso Pai (6, 36), e - como o "bom samaritano" - os ouvintes devem "fazer o mesmo". No capítulo 15, depois de uma apresentação da situação que provoca escândalo: "recebe os pecadores e come com eles", Jesus propõe três parábolas. A idéia é a mesma nas três, embora na última se incorpore um novo elemento no debate. A idéia principal é a de uma coisa querida que é perdida, buscada e encontrada. O acento recai na alegria que causa o encontro da coisa perdida, seja esta uma ovelha, uma moeda, ou um filho. As duas primeiras, como é freqüente em Lucas, apresenta um par em que se integram um homem e uma mulher: um pastor e a mulher (lembrar o profeta e a profetisa de Lucas 2, 25-38, ou as parábolas da mostarda e do fermento em 13, 18-21). A liturgia de hoje omitiu este "par misto" e se deteve - logo após a introdução, que lhe dá o marco à parábola - na assim chamada "do filho pródigo".
Vejamos de modo breve o marco redacional dos vv. 1-2. Aproximam-se de Jesus para ouvi-lo "todos" os publicanos e pecadores. Não é necessária muita imaginação para saber que se trata de uma construção artificial. "Todos" deveria ser muita gente, mas o acento é colocado em destacar que esses grupos de rechaçados escutam da boca de Jesus uma pregação na qual não são excluídos.
Muitas vezes, faz-se referência no Terceiro Evangelho a grupos que "ouvem" Jesus, mas é evidente que isto não basta, é necessário "pôr a doutrina em prática" (6,47-49; cf. 8,11-15; 11,28) para ser como uma casa edificada sobre rocha e não sobre areia. Ficar só nas parábolas não serve, já que é ouvir e não entender (8,10), "é ficar na casca" sem chegar ao nó da questão, bem diferente da "mãe e dos irmãos" que escutam a palavra e a cumprem (8,21).
Mas escutar é a primeira atitude, é sinal de reconhecê-lo como profeta semelhante a Moisés (9, 35); logo transferido para os seus: quem os escuta, escuta o Filho (10, 16). Ouvir é a atitude do discípulo que escolhe a melhor parte, a única importante (10,39), e por isso os bons judeus devem "ouvir" Moisés e os profetas (16, 29.31). O rico não segue Jesus ao ouvir suas exigências e não estar disposto a "vender tudo" (18, 23). Os adversários não podem desfazer-se publicamente de Jesus porque o povo o ouve atento (19, 48; cf. 20, 45; 21, 38). Podemos dizer, então, que "ouvir" é o primeiro passo do discipulado, e nesta etapa estão "todos os cobradores de impostos e pecadores".
Por outro lado, encontramos fariseus e escribas (5, 21.30; 6, 7; 11, 53), sempre os encontramos olhando "de fora" a Jesus e enfrentando-o com suas opiniões e atitudes.
Os escribas, por sua parte, quando os encontramos com os sacerdotes já é para conspirar contra Jesus, procurando matá-lo. São expressão do que de certa maneira poderíamos chamar "ortodoxia judaica, os que eram fiéis à lei e às tradições, e por isso questionam o "heterodoxo", o que não "corresponde"à Lei, como, por exemplo, receber os pecadores. Como é freqüente em Lucas, os fariseus se escandalizam com as atitudes de Jesus diante dos pecadores, e murmuram (diagong_zô). Este termo volta a aparecer em 19, 7 pela única vez em Lucas e todo o Novo Testamento, Jesus se hospeda com Zaqueu e " murmuram ": "foi hospedar-se na casa de um homem pecador"; também o encontramos como murmurar (gong_zô) em 5,7 (8 vezes no Novo Testamento, Mateus 1, Lucas 1, João 4, Paulo 2): "comem e bebem com publicanos e pecadores". O termo é freqüente nas tradições do deserto (nesse sentido, também em João e Paulo) onde o povo "murmura" contra Deus e Moisés (Êxodo 16, 7; 17, 3; Números 11, 1; 14, 27-29) e no caso de Jesus, aparecem mais. A acusação é que Jesus prosdéjetai: aceita favoravelmente, recebe, espera os pecadores, e - certamente o mais grave - "come com eles".
O tema das refeições de Jesus é sumamente interessante e importante. A atitude de synesthíô (literalmente "comer com") marca uma atitude. É a única vez que o encontramos nos Evangelhos, e se repete outras duas vezes nos Atos e outras duas em Paulo; os apóstolos são apresentados como aqueles que "comeram e beberam com o ressuscitado" (Atos 10, 41) e Pedro recebe uma repreensão dos "apóstolos e irmãos da Judéia" por "ter entrado em casa de incircuncisos e comido com eles" (11, 3), como se vê, neste caso a ênfase é semelhante à dos Evangelhos. A 1ª Carta aos Coríntios 5, 11 fala de não comer com os que se chamam irmãos, mas vivem como pagãos, e a Carta aos Gálatas 2, 12 lembra aos cristãos de Antioquia que comiam junto com os cristãos convertidos. Mas quando chegaram "os que seguiam o apóstolo Tiago", retraíram-se e passaram a comer em mesa separada... Como se vê, a idéia que se fazia era a de que somente se podia comer com os que eram puros, e a comida com impuros também tornava impuros os que dela participavam.
As refeições de Jesus com os pecadores é uma expressão evidente de que não veio "chamar os justos, mas os pecadores" (5, 32); esse seu costume contraria a religiosidade "tradicional" a que está em questão; Jesus quer mudar o rosto de Deus como já se disse mais de uma vez, quer substituir o Deus da pureza legal pelo Deus da misericórdia. Suas refeições refletem esse Deus que Jesus propõe, que recebe pecadores, a "todos". Este marco das refeições de Jesus que revela um novo rosto de Deus é o que o Senhor quer agora mostrar na parábola.
Não comentaremos a parábola toda, mas nos deteremos no fundamental. O movimento da parábola é simples: apresentação dos personagens (vv. 11-12); comportamento do filho mais moço (vv. 13-20a); atitude do pai diante do filho perdido (vv. 20b-24); reação do filho mais velho em face do filho perdido (vv. 25-32). Como se vê, as três primeiras cenas são paralelas às atitudes do pastor e da mulher perante o objeto perdido. A nota destoante é dada pelo filho mais velho.
Provavelmente isso reflete a atitude dos fariseus e escribas em relação aos pecadores. Não deixa de ser interessante a linguagem da comida na parábola, o que nos lembra o contexto: "sobreveio uma grande fome" (v. 14), desejava fartar-se das vagens (v. 16), os empregados do pai "têm pão em abundância" (v. 17), o pai manda "matar um novilho gordo, comamos e façamos uma festa" (v. 23), "nunca me deste um cabrito para comer com meus amigos" - queixa-se o mais velho (v. 29) e esclarece "esse teu filho que devorou teus bens com prostitutas" (v. 30); além disso, nos versículos 23.24.29.32 utiliza eufrainô que como vimos é festejar num banquete...
Como se vê, o contraste é entre dois personagens com respeito a uma mesma situação: o filho/irmão mais moço. Como noutras parábolas de dois personagens, talvez o título devesse refletir estas duas atitudes mais que remeter ao "filho pródigo".
Por uma parte, ocupa-se em mostrar até que ponto se degradou o filho mais moço com uma série de elementos muito críticos para qualquer judeu: "país longínquo", "vida libertina/prostitutas", "passar necessidade", "cuidar de porcos"; não lhes dão nem sequer as vagens, que é de preferência comida de animais (deve roubá-las?), até a ponto de pretender voltar "a seu pai" como um assalariado. Deve-se prestar atenção às palavras, como "não mereço" (vv. 19-21) e "convinha/era bom" (v. 32), às quais voltaremos. Descobrindo sua miséria, o filho parte "para seu pai" (não diz para sua casa, embora se suponha que assim fosse pelos vv. 18-20), o filho mais velho é quem não entra "na casa" (v. 25). O movimento de partida e regresso do filho é semelhante ao perder-encontrar, e mais ainda à morte-ressurreição (com este paralelismo termina a intervenção do pai e volta a ser repetida quando o filho mais velho reclama).
O filho preparou um discurso, mas o pai não lhe permite terminá-lo, não se deixa vencer em generosidade e iniciativa: não somente - contra os costumes orientais - "corre" ao encontro do filho assim que o vê de longe, mas devolve-lhe a filiação que havia "perdido": é isso o que significa o anel (selo), as sandálias e o melhor vestido, digno de um hóspede de honra. A alegria do pai reflete-se além disso, na festa por "este meu filho".
O irmão maior, que foi cumprir com suas responsabilidades de filho não quer entrar na casa e participar da festa. Novamente o pai sai ao encontro de um filho e deve escutar as reclamações. O maior se nega a reconhecê-lo como irmão ("esse teu filho") fato que o pai lhe lembra ("teu irmão"). O pai não lhe tira a razão quando o filho mais velho afirma que "nunca lhe desobedeceu uma ordem sequer", foi-lhe "sempre fiel", e "esteve sempre junto dele", mas embora tudo o que é seu lhe pertença, o pai quer ir além da dinâmica da justiça: o mais moço "não merece", mas "é bom" festejar.
A misericórdia supõe um ir ao encontro dos outros, os pecadores que - pelo fato de o serem - não merecem, mas o amor é sempre gratuito e não olha os merecimentos, mas para a pessoa do caído. Os fariseus e escribas são modelos de grupos "sempre fiéis", mas sua negativa em receber os irmãos que estavam mortos e voltam à vida pode deixá-los fora da casa e da festa. Os mais velhos também podem ir embora da casa se não imitam a atitude do pai, ou podem ingressar e festejar se forem capazes de receber os pecadores e comer com eles.
Comentário
Nossa vida cristã é movida às vezes por caricaturas de Deus; seja pelo que acreditamos, pelo que mostramos, ou pelo que nos ensinaram. Alguns têm dele a imagem de um deus bonachão, um eterno rabugento que fica à espreita, esperando uma falha nossa para cair com tudo em cima de nós; outros o têm na conta de um distraído e esquecido das coisas dos humanos, criados por ele "há tanto tempo", um "pai" autoritário e caprichoso que toma decisões arbitrárias e não admite que se discutam suas ordens...
Como é nosso Deus? É importante saber como é o Deus em que cremos, mas muito mais importante é saber como é o Deus em que acreditou Jesus , o Deus que ele nos revelou. Jesus sempre nos falava de Deus não somente com palavras, mas também com o que fazia. Agindo, Jesus nos mostrava o Deus verdadeiro e Pai de verdade.
Hoje, Jesus nos conta uma parábola. Uma parábola que nos fala de Deus, mas uma parábola que nasce de uma atitude de Jesus, e ele nos diz que diante dos irmãos desprezados, podemos agir de duas maneiras diversas, como Deus - que é também como age Jesus - ou também como os judeus religiosos, os "separados" do resto, os "puros".
O pecado é o não-dar-amor e o amor-não-dado , e por isso nos afasta de Deus, que é amor; afasta-nos da casa paterna. Mas com seu amor, que continua derramando, e de um modo preferencial pelos pecadores, Deus continua estendendo-nos constantemente sua mão amiga, à espera da volta de seus filhos. Nós, numa freqüente caricatura de Deus, costumamos rechaçar, julgar e condenar os que achamos ser pecadores. Nós, da mesma forma que Jesus, também mostramos com nossas atitudes o Deus em que acreditamos; mas, de maneira diferente da de Jesus, mostramos um Deus que em nada se assemelha ao Eterno "Buscador" de Filhos Perdidos.
O Jesus que ama e prefere os pecadores, e come com eles , não faz outra coisa que conhecer a vontade do Pai e realizá-la concretamente, suas mesas partilhadas e suas refeições nos falam de Deus, claramente! No comportamento de Jesus se manifesta o comportamento de Deus, Jesus mesmo é a parábola viva de Deus: sua ação é então uma revelação.
Que Deus, que Igreja, que ser humano revelamos com nossa vida? Com freqüência, como irmãos mais velhos ficamos tão orgulhosos de não ter abandonado a casa do Pai, que cremos saber mais do que ele mesmo: "Deus é injusto", para nossas justiças; Deus é "de pouco caráter" para nossa imensa sabedoria. Talvez, Deus já esteja velho, para dedicar-se à sua tarefa e deveria aposentar-se e deixar-nos ...
Diante de tanta gente que rejeita a Igreja ("creio em Deus, não na Igreja"), às vezes dizemos "sim, mas Deus quer a Igreja", não nos deveríamos perguntar constantemente que Igreja é que ele quer? Não nos deveríamos perguntar que Igreja mostramos em nossas atitudes? Esta Igreja, aquela que eu-nós mostramos, é como Deus quer? Jesus, com sua vida, e até com suas refeições, mostra o rosto verdadeiro de Deus, mostra a comunidade de mesa da qual ele participa; até na comida ele revela o verdadeiro Deus.
Talvez devêssemos de vez, deixar nossa atitude de filho mais velho, e já que nos parece tão mal o papel de Deus, deveríamos assumir o papel de filho mais moço; devemos voltar a Deus para enchê-lo de alegria, para participar de sua festa; e, participando de sua alegria comecemos a mostrar o rosto misericordioso deste Deus de portas abertas.
A própria ceia eucarística é expressão da universalidade do amor de Deus: é comida para o perdão dos pecados. O Deus da misericórdia, não quer excluir ninguém de sua mesa; e mais, quer convidar especialmente todos aqueles que são excluídos das mesas dos homens por sua situação social, por sua pobreza, por seu sexo ou por qualquer outro motivo; e vai mais além, não vê com bons olhos que acreditem estar participando de sua ceia aqueles que não esperam por seus irmãos excluídos da mesa por serem pobres. O Deus que não faz distinção de pessoas ama diretamente aos menos amados. Contudo, muitas vezes tomamos a atitude do irmão mais velho.
Quando é que nos sentaremos à mesa dos pobres, e abandonaremos nossa tradicional postura soberba e sectária de "bons cristãos"? Quando nos decidiremos a participar da festa de Deus reconhecendo-nos irmãos dos rejeitados e desprezados? Jesus nos convida para sua refeição, uma refeição na qual nos mostramos - como na parábola -como é o Deus e a fraternidade em que cremos. E nos mostraremos como somos irmãos, como somos filhos na medida em que participarmos da alegria do pai e do reencontro dos irmãos.
O Evangelho de hoje está dramatizado, em espanhol, no capítulo 34, "Los hijos de Efraín", da série " Un tal Jesús ", dos irmãos López Vigil. Para obter o roteiro e seu comentário clique aqui . Para ouvir clique aqui .
Para a revisão de vida:
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O que há em meu coração de filho pródigo... fugindo do Pai, dilapidando a herança gratuitamente recebida?
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Que há em mim de filho mais velho que se crê melhor, com mais direitos, irrepreensível, depreciando os demais irmãos?
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Que há em mim que lembre a misericórdia paciente e madura do Pai?
Para a reunião de grupo:
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Ver quais são os atores da parábola e ordená-los conforme seu maior ou menor "protagonismo".
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Esta parábola do evangelho de hoje era conhecida com o nome de"O Filho Pródigo"; nosso comentário a chama de outra maneira... O que pensar dessa mudança?
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Qualificar o significado de cada ator. Que atitudes atuais poderiam representar estes atores?
Para a oração dos fiéis:
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Por todos os que padecem fome neste mundo no qual certamente o problema está na distribuição dos alimentos e não em sua produção; para que sejamos capazes de pôr em prática a confissão teórica de que somos irmãos por sermos filhos de Deus, rezemos ao Senhor.
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Pelas relações familiares entre pais e filhos, para que sejam presididas pelas "entranhas de misericórdia" que Deus tem para com todos nós...
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Para que caiamos em conta de que Deus é tanto Pai como Mãe; para que pouco a pouco vá penetrando em nossa igreja uma consciência crítica a respeito da masculinização que temos projetado sobre a imagem de Deus...
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Para que tenhamos um coração generoso que se alegra pelo bem dos demais e nunca tenha ciúmes das alegrias alheias...
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Para que "nos deixemos reconciliar com Deus", que de tantas e tão suaves maneiras nos chama à conversão neste tempo quaresmal...
Oração comunitária:
Deus nosso, a quem podemos chamar verdadeiramente de Pai e Mãe, cheio de entranhas de misericórdia, disposto sempre à acolhida e ao perdão, apesar de nossa ingratidão ou infidelidade; concedei-nos imitar-te nesse teu amor, para que possamos chamar-nos honradamente e ser verdadeiramente "filhos teus" e "irmãos uns dos outros". Isto te pedimos em nome de Jesus, filho teu e irmão nosso.
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