LUCAS 24.44-53
Joe Marçal Santos
ATOS 1.1-11
EFÉSIOS 1.15-23
1 Introdução
A unidade temática dos textos previstos está em torno do símbolo da Ascensão
do Senhor, bem como da teologia que o sustenta e da qual emergem significados para nossa atualidade. Um contexto mais ou menos secularizado como
o nosso traz certo grau de difi culdade para o desenvolvimento de uma liturgia e
uma prédica sobre esse tema, pois ao mesmo tempo se trata de um símbolo que
toca um imaginário religioso muito presente e difundido. Nas observações que
seguem, procuramos destacar elementos do texto bíblico que ajudam a dar um
significado sensível e humano à Ascensão.
É imprescindível assimilar, na interpretação do evangelho, o texto que lhe
dá continuidade: os Atos dos Apóstolos. A perspectiva do próprio texto é a atividade
apostólica; a relação com os primeiros versículos de Atos, inclusive oportuniza
o enriquecimento de detalhes para a percepção das atitudes dos discípulos –
o que poderia fazer paralelo a aplicações pastorais do texto na prédica. A relação
com o texto indicado na Epístola aos Efésios ajuda, do mesmo modo, a identifi car
elementos centrais na interpretação do texto indicado, bem como fornece uma
série de motivos relativos ao tema litúrgico.
2 Exegese
O texto que conclui o Evangelho de Lucas convida para uma visão de conjunto
de todo o evangelho e faz-nos pensar sua mensagem como impulso ao que
segue nos Atos dos Apóstolos. Ambos os aspectos se desenham como horizonte
de interpretação (intenção e recepção) do evangelho. Numa palavra, nesse texto,
o evangelista ressalta que o testemunho da boa-nova é movido pela experiência
de encontro com o Cristo vivo e glorifi cado, cuja memória (e promessa que
encerra) é celebrada pelas comunidades de fé em torno do partilhar do pão e da
leitura das Escrituras, sob a ótica do que se cumpriu em Jesus, sua crucificação e
ressurreição.
omo indicam várias introduções, é importante considerar que esse relato
é ele mesmo uma leitura ou uma revisão de fontes do testemunho sobre a pessoa
e a obra de Jesus (1.1-4), com alguma contribuição pessoal do autor, tanto de
conteúdo como de estilo. A intenção de Lucas é mais teológica do que histórica; o
que ele tem em vista não é apenas a rememoração litúrgica do que fora realizado
em Jesus, mas uma instrução na fé a seus leitores, personalizados em “Teófi lo”
(1.3), seu interlocutor direto. Assim, Lucas zela pela organicidade da narrativa
(com omissões e novos arranjos em relação aos outros evangelhos, principalmente
Marcos) e, ao mesmo tempo, o faz com uma declarada intenção literária e
poética na valoração de alguns temas e, sobretudo, dos discursos de Jesus. Como
autor, Lucas parece querer alcançar seus ouvintes de modo semelhante àquele
com que o “estranho” que acompanhava os discípulos a caminho de Emaús expunha
as Escrituras: fazendo-os arder no coração (24.32).
ra necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito (v. 44-49)
Essa palavra poderia servir de título para este bloco. Nela estão elementos
importantes para o que segue nos v. 45s – uma interpretação cristológica das
Escrituras na boca do próprio Jesus: a necessidade de cumprimento do que fora
“dito/escrito” sob a autoridade das Escrituras. Lucas, seguindo suas fontes, legitima
essa interpretação cristológica como autocompreensão de Jesus em sua identifiação com a tradição messiânica do Servo de Deus (cf. Lc 4.16-21). Também
situa o ensino do conteúdo da fé no Cristo na comunhão eucarística (24.43).
No v. 44, a partícula de tempo “a seguir” remete ao que antecede esse
momento do relato. Lucas dedica o fechamento de seu relato ao testemunho em
torno do encontro com o Cristo essuscitado, caracterizando a presença de Jesus
na situação da partilha de alimentos (24.30,43). Lucas recorre a essa situação
“eucarística” para caracterizar o encontro com o Jesus ressuscitado.
Esse argumento eucarístico, junto à expressão “lhes abriu o entendimento”
(v. 45), remete ao ocorrido no caminho entre Jerusalém e Emaús (24.13-35). A
maneira como Jesus se dirige ao grupo de discípulos – “caminha” e “come com
eles” – implica também uma comunhão de entendimento, isto é, de uma fé compartilhada
e confessada comunitariamente.
A partir disso, Lucas relata o que seriam palavras de Jesus, retomando ditos
dos profetas para dar expressão à autocompreensão messiânica de Jesus. Essa
mesma interpretação cristológica das Escrituras provoca o “ardor no coração”
dos discípulos no caminho de Jerusalém a Emaús (cf. 24.32), cuja percepção se
dá mediante o partir do pão (24.30).
No v. 47, o tema do omissionamento na pregação do arrependimento “em
nome do Cristo” converge com Mateus e Marcos. Porém Lucas dedica outro livro
para narrar seu desdobramento; na verdade, como vimos, o testemunho apostólico
ilumina toda a sua narrativa (1.1-4) e enfatiza o argumento missiológico de
sua teologia.
A interpretação das Escrituras é selada pela afi rmação do v. 48: “Vós sois
testemunhas dessas coisas” (cf. At 1.8), cujo comprometimento repercute na comunhão
de fé entre os discípulos e ouvintes desse evangelho. Não se trata, porém,
de um comprometimento formal. O testemunho a que o evangelista se refere
surge da experiência de encontro com o Cristo ressuscitado, o messias revelado,
agora sob a promessa (v. 49): “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai”.
Essa formulação de Lucas sugere uma teologia do batismo do Espírito Santo, cuja
chave de interpretação está na noção de promessa, evocada numa relação trinitária
entre o Filho que envia a promessa (Espírito Santo) do Pai.
Jesus encerra suas palavras (v. 49) ordenando que os discípulos permaneçam
na cidade de Jerusalém (cf. 24.33) “até que do alto sejais revestidos de
poder”. A permanência é temporalmente indeterminada e apenas sinalizada por
um evento que é referência de Lucas ao Pentecostes. A cidade de Jerusalém não é
mero registro geográfi co, mas um tema teológico para Lucas – a Cidade Santa é
o lugar messiânico onde o evangelho inicia e desde onde as nações o receberão.
O poder a que se refere Jesus está relacionado à promessa – sugerido pelo aoristo
passivo de “revestir” (endushsqe). Isto é, os discípulos devem aguardar até ser
objetos de uma ação do Pai, a quem pertence o poder (cf. Bíblia de Jerusalém, até
serdes revestidos da força do Alto).
(...) enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o
céu (v. 50-53)
Segue ao encontro de Jesus com os discípulos outro momento (o v. 50
inicia com uma partícula de tempo indeterminado), no qual o próprio Jesus guia
os discípulos a um desvio de Jerusalém ao povoado vizinho de Betânia – um
distanciamento que poderia se justifi car pela ação que segue: “erguendo as mãos,
os abençoou”.
São três ações simultâneas: Jesus abençoa e se distancia (sujeito ativo) eé elevado ao céu (sujeito passivo), lugar de onde virá a promessa. Novamente
sugerindo uma teologia trinitária, Lucas relaciona a Ascensão de Jesus com a
promessa do Espírito Santo, identifi cando a comunhão dessa promessa com a fé
no Cristo, agora colocado sobre todas as coisas, o cabeça de um corpo pleno entre
as nações e tudo o que existe (cf. Ef 1.22-23). Por fi m, imbuídos da promessa –não ainda revestidos de poder –, os discípulos retornam a Jerusalém e fazem do
Templo o lugar da espera pelo cumprimento da promessa de Jesus.
3 Meditação
Tomamos a Ascensão como motivo litúrgico para a interpretação do texto
indicado. Isso, contudo, implica uma inversão da estrutura do texto, o que não
pode passar desapercebido. O aspecto glorioso da Ascensão, que coroa a aparição
do Ressuscitado e entroniza-o como o Senhor, é determinado por uma teologia
eucarística, bem como o tema do envio apostólico e o símbolo da promessa.
Quer dizer, trazer a Ascensão para um primeiro plano na liturgia e na prédica não
deveria comprometer esses referenciais, isolando-a de seu conteúdo teológico.
Próprio a uma perspectiva evangélica luterana, o símbolo da Ascensão, com toda
a sua glória, tem de ser também interpretado desde uma teologia da cruz.
No texto, a Ascensão está relacionada a duas outras ações: a bênção e o distanciamento
de Jesus em relação aos discípulos. Numa palavra, poderíamos dizer
que se trata de uma solene despedida, signifi cada pelo gesto da bênção como
encorajamento para uma presença apostólica no mundo. É o fechamento que Lucas
dá a seu relato do evangelho, cujo motivo teológico principal é o encontro
do Ressuscitado com seus discípulos: encontro que promove uma comunhão noalimento e no entendimento, em torno de uma nova e cristológica interpretação
das Escrituras, que, por sua vez, reitera o envio apostólico sob a promessa doEspírito Santo.
Como ação e sinal do que fora cumprido em Jesus, a Ascensão coroa sua
glorifi cação, agora o Cristo de Deus. Ela testifi ca a promessa e motiva a esperança.
Por isso enche os discípulos de alegria, enquanto aguardam o cumprimento
neles do que já fora cumprido em Jesus. O distanciamento de Jesus e a ausência
que segue, com a Ascensão, tornam-se fonte de coragem e fé para a comunidade
de discípulos. Ela antecipa a promessa de um poder que fará o movimento contrário:
do céu para a terra, isto é, o reino de Deus.
Num contexto cultural e religioso mais amplo, marcado por uma frequente
tendência a uma “teologia da glória” em detrimento de uma “teologia da cruz”,
de conteúdo profético e transformador, não deveríamos nos acanhar diante desse
evangelho. A experiência que inaugura a fé no senhorio de Cristo é justamente
aquela que caminha silente de Jerusalém a Emaús e é surpreendida pelo Cristo
vivo, cuja presença é tão humana quanto é o gesto de partir o pão.
A Ascensão, como tema teológico e símbolo religioso, sugere um vínculo
“entre céu e terra”, que dá sentido à vida comunitária e a toda realização, na qual
essa se reconhece. A relação com o alto aponta, por sua vez, para a santidade.
O poder que sugere, principalmente porque esse é objeto da promessa de Deus,
tem de ser caracterizado como “poder do alto”. Isto é, não é qualquer poder, mas
poder de Deus, poder santo e santifi cador.
O que realiza esse poder? Com o que se ocupa? A preocupação de Lucas,
de fato, é preparar seus leitores para o que ele desenvolve em Atos dos Apóstolos.
Todo o conteúdo do evangelho é, na verdade, motivo para inaugurar uma ação
apostólica orientada à pregação para o arrependimento de pecados, visando todas
as nações. O texto convoca ao comprometimento com a comunidade que assume
para si o projeto de Cristo contra o mal e a injustiça (em seu padecimento) e a
realização profética que tem continuidade num pacto pela vida (a ressurreição) e
pela justiça (o arrependimento).
4 Imagens para a prédica
A Ascensão do Senhor como tal merece o devido destaque na liturgia e na
prédica. Ela mesma é uma imagem que deve ser pressuposta. Há todo um imaginário
religioso e uma iconografi a que a comunidade certamente traz consigo e
não poderia ser ignorado. Uma vez que o tema deverá estar sendo explicitado ao
longo da liturgia, a prédica deveria dialogar com essas convenções.
Para uma abordagem pastoral, sugere-se enfatizar mais o aspecto simbólico
e teológico do que a literalidade da Ascensão enquanto evento histórico.
Mais do que objeto de fé, a Ascensão deveria ser anunciada como símbolo deencorajamento da fé. A questão central é seu signifi cado para a ação apostólica
da comunidade cristã, e é nisso que devem orientar-se quaisquer imagens para a
Ascensão. Jesus vai para o mesmo lugar de onde a comunidade espera a promessa
de Deus como presença espiritual que a sustenta e a fortalece em sua presença
concreta no mundo.
Uma metáfora signifi cativa a ser explorada é a relação céu e terra, pressuposta
pela Ascensão. Jesus “é elevado” porque vai para junto do Pai; e desse
mesmo lugar a comunidade de discípulos deve aguardar o poder, pelo qual poderá
realizar sua vocação apostólica. A “geografi a” sugerida pelo texto não é de
“natureza” e “sobrenatureza”. Quer dizer, não se trata da crença em um poder
sobrenatural, anônimo e impessoal; mas a espera na presença de Jesus junto ao
Pai, que é a mesma que deverá revestir a comunidade de um poder reconciliador
na missão que recebe do próprio Jesus.
5 Subsídios litúrgicos
O motivo litúrgico da Eucaristia está muito presente no texto de Lucas edeveria ser algo também presente no desenvolvimento da liturgia em torno da
Ascensão do Senhor. Poderia ser inclusive uma oportunidade para trabalhar a
liturgia da Eucaristia desde uma abordagem catequética, considerando-a situação
de ensino, tal como no relato é descrito. Normalmente, a explicação da Ceia se reduz
à oralidade durante a prédica. Aqui se poderia aproveitar o próprio momento
da realização da liturgia eucarística como vivência da situação de encontro comJesus, procurando alcançar alguns desdobramentos sensíveis de conteúdo teológicodesse encontro para a vida comunitária e individual.
O que signifi ca a presença de Jesus em nossa vida? O que signifi ca pertencer
a essa comunhão e testemunhar sua participação no reino de Deus? De
uma forma mais vívida, essa sensibilização poderia também ser feita enfatizando
o gesto de partir o pão – que Lucas menciona em 24.30, quando os discípulos
reconhecem Jesus. Também pequenas intervenções motivadas pelo/a liturgista
poderiam ser feitas, convidando a comunidade a refl etir sobre a própria realização
da Ceia e seu signifi cado.
Outro momento litúrgico que pode ganhar relevo a partir do texto da prédica
são a bênção e o envio, enfatizando o que vier a ser ressaltado durante a
prédica e o sentido dado ao símbolo da Ascensão do Senhor. Motivar que a comunidade
se dirija com a bênção uns aos outros, referindo ao signifi cado da comunhão
que ali acontece e enfatizando a necessidade de viver responsavelmente
essa comunhão, como expressão da presença de Jesus entre nós. De todo modo, o
movimento da Ascensão deveria ganhar essa orientação evangélica de repercutir
na presença da comunidade de discípulos no mundo e seu papel na missão dada
pelo Cristo.
Bibliografi a
GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento: v. 1 – Jesus e a comunidade
primitiva. 3.ed. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1988.
BOYER, Orlando. Lucas, o Evangelho do fi lho do homem: Comentário sobre o
Evangelho segundo Lucas. 2.ed. Rio de Janeiro: O.S. Boyer, 1964.
