2º DOM. DO ADVENTO (4 de dezembro)
CONSTRUINDO O CAMINHO PARA DEUS NAS PERIFERIAS DO MUNDO
Pe. Jose Bortolini
I. INTRODUÇÃO GERAL
A liturgia do Advento é um convite para celebrar a esperança. A certeza da vinda de Jesus, que vem criar um mundo novo, dá-nos a consciência de que esperar é saber preparar-se e preparar o caminho para Deus. Preparamo-nos buscando, desde já, novas relações, de justiça e paz, com a voz profética da denúncia e do anúncio, com um novo estilo de vida, estando do lado dos menores, dos que estão longe dos centros de poder. Esperar é preparar-se, converter-se para Deus e para os necessitados, dar nossa pequena contribuição para que um mundo velho de injustiça ceda o lugar a novos céus e nova terra.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 40,1-5.9-11): Consolemo-nos, preparando um novo êxodo
Is 40 é o início do segundo livro de Isaías, conhecido como "livro da consolação de Israel", escrito no final do exílio na Babilônia, quando Ciro, rei da Pérsia, aumentava vertiginosamente seu poder (pelos anos 560-545). A deportação de 597 nunca foi assimilada pelos judeus, que esperavam o retorno à terra. Com a deportação de 586, as esperanças se frustram, e o povo entra em crise de fé. Teria Deus abandonado seu povo escolhido? Com a notícia das vitórias crescentes de Ciro, a esperança do retorno à Palestina se reacende, e é nesse contexto que se escreve este oráculo introdutório à grande profecia do retorno, do novo êxodo (da Babilônia à Palestina).
O oráculo se divide em quatro partes. A primeira (vv. 1-2) é o imperativo da consolação, porque os pecados do povo já foram expiados; a segunda (vv. 3-5) introduz o tema do novo êxodo; a terceira (vv. 6-8, não lidos na liturgia) fala da validez da palavra de Deus; a quarta (vv. 9-11) é outro imperativo do anúncio da chegada de Deus como pastor.
O anúncio da consolação de Israel tem seu motivo no fato de ter acabado o serviço forçado a que o povo, pelas próprias infidelidades e pela arrogância do império dominador, teve de se submeter, pagando até de modo dobrado, mais do que deveria pagar. O profeta salienta que este anúncio de consolação deve ser feito ao coração da capital Jerusalém, como esperança que anime, que toque o coração, ou seja, que passe pelo sentimento e chegue à ação.
Ação, pois ao anúncio que prepara o interior de cada um, motivando a esperança, segue a necessidade de preparar um caminho no deserto, um caminho para Javé, que conduzirá o povo num novo êxodo. Um novo êxodo que só pode ser feito por um povo preparado, ou seja, animado na fé e na esperança de que Deus quer conduzir novamente rumo à terra prometida, num caminho triunfal, em que a própria terra, em seu caminho de vales, montes e colinas, aplaine-se diante da glória de Javé.
Um mensageiro anuncia ao povo, com três "eis", a esperança do retorno, quando a capital Jerusalém estiver próxima: eis que quem conduz o novo êxodo é o "vosso Deus"; eis o poder do seu braço, que traz libertação; eis a sua recompensa, como aquele que venceu a batalha contra Babilônia: o próprio povo é como que seus despojos de guerra, os libertados são a recompensa que Deus traz de volta à terra prometida.
Deus apascenta seu povo como um pastor que reúne, carrega no colo e conduz carinhosamente. Esta certeza fundamenta a esperança do povo no fim do exílio, num momento de angústia em que consolar-se não significa resignar-se à escravidão, mas recobrar fé e esperança para, preparando-se interiormente, poder preparar um caminho de retorno. Do fundo das tragédias, nas crises e sofrimentos pelos quais passamos, o profeta nos exorta à esperança para construir algo novo. Esperança que consola somente porque podemos ter a certeza de que Deus, apesar de nossos pecados, é tão carinhoso a ponto de, conduzindo-nos como pastor, acariciar-nos e tomar-nos constantemente em seus braços.
2. Evangelho (Mc 1,1-8): Construir o caminho para o Senhor
O evangelho de Marcos inicia com um prólogo (1,1-12) que trata da preparação do ministério de Jesus. Aí se fala da pregação de João Batista, do batismo de Jesus e da tentação no deserto. Os versículos da liturgia apresentam a missão do Batista (1,2-3), sua pregação (1,4.7-8), seu êxito (1,5) e seu estilo de vida (1,6).
Mc 1,1 apresenta todo o livro como o começo do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. O "começo" faz lembrar a primeira palavra do Gênesis, na criação do mundo em Gn 1,1. A vida e missão de Jesus é uma nova criação, o começo de uma nova realidade. O termo "evangelho", por sua vez, é tirado do mundo grego e tem clara conotação política no mundo romano. Com o significado de "alegres notícias" no mundo grego, era um termo técnico para as notícias de vitória em batalhas militares, que o império romano assimilou para a propaganda política. "Evangelho", portanto, eram as proclamações do imperador, considerado homem divino. E porque era homem divino, suas mensagens e ordens deviam ser consideradas "alegres notícias", "evangelho". Marcos não nos fala do evangelho do imperador, mas de Jesus Cristo, Filho de Deus. Subverte assim a lógica do seu tempo, apresentando como alegre notícia a vida e missão de Jesus, o Ungido, ele sim Filho de Deus, com autoridade divina. Em um único versículo Marcos enfrenta o império romano e desmonta sua lógica de dominação ao propor Jesus como Messias (Cristo, o Ungido). Um versículo talhante, ainda hoje, contra todos os poderes, sobretudo imperialistas.
O que se apresenta nos vv. 2-3 como sendo de Isaías na verdade é um trabalho midráxico (interpretativo) de Marcos, que usa Ex 23,20, Is 40,3 e Ml 3,1 para repropor a voz profética de João. Isso é interessante, considerando que a partir do século I os antigos rabinos e escribas afirmavam que a profecia se havia encerrado com os profetas Ageus, Zacarias e Malaquias. O profetismo está vivo, e ganha voz em João Batista, o mensageiro que está diante dos que recebem o evangelho, para construir o caminho (no v. 2 Mc usa o verbo "construir" em vez de "preparar"), sendo voz que grita no deserto: "Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas veredas". Mc 1,3 lê Is 40,3 em sua forma grega ("uma voz grita no deserto: 'preparem' "), situando a figura do profeta no deserto (a forma hebraica diz "uma voz grita: 'no deserto preparem...' ").
Pregando "um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados", João atrai a si, no deserto, "toda a região da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém". Outra forte crítica, pois era Jerusalém o centro para onde deveriam se dirigir todas as nações a fim de receber a salvação (cf. Is 60). O que vemos agora é o caminho inverso, de saída do centro do poder e dos ritos de purificação do templo, em direção ao deserto, às periferias, onde acontece o batismo e a confissão dos pecados. Ou seja, o arrependimento, a confissão e a purificação pelo batismo acontecem na periferia, não no centro, e assim Marcos faz sua segunda subversão, a da lógica judaica nacionalista, que na sua instituição sacerdotal e escriba controlava a redenção no templo de Jerusalém.
Este caminho que se constrói para Deus é, portanto, um caminho para um novo êxodo. Os dois primeiros êxodos foram, respectivamente, do Egito e da Babilônia à terra prometida. No terceiro êxodo o povo já está na terra, mas não a possui na liberdade e na justiça, pois o poder romano com as autoridades judaicas centralizam o poder e dominam. O novo êxodo é a saída para as periferias da terra, para um novo estilo de vida, como o de João, que como Elias se vestia de pêlos de camelo e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. Um estilo de vida simples, que seja crítica e denúncia às riquezas injustamente acumuladas no centro do poder. João prepara a chegada de Jesus convidando ao arrependimento ("metanoia"), à mudança de vida, que implica mudar a mentalidade e também o lugar social (como diz o ditado: "não é possível viver como hebreu estando no palácio do faraó").
A pregação de João em 1,7-8 deixa claro que sua missão é a de preparar a vinda daquele que é "mais forte", e do qual ele não pode tirar as sandálias. Uma provável referência à lei do levirato (lei do cunhado, em Dt 25,5-10), segundo a qual o cunhado da viúva sem filho deveria dar ao irmão falecido uma descendência. João reconhece que Jesus tem o direito de unir-se à humanidade, esposa de Deus, para dar-lhe uma descendência, uma nova criação. Outra explicação estaria na instrução de Jesus ao Doze, em 6,9, para que estivessem calçados para a missão do reino. As sandálias, assim, teriam que ver com o estar preparados para a missão. João sabe que sua missão é construir um caminho para Jesus (e para seus discípulos) e que não pode tirar de Jesus uma missão que compete somente àquele que "batizará com o Espírito Santo".
Da conversão e purificação de João, com Jesus se passará à realidade do Espírito. Jesus é o Messias esperado, que vem com poder (é o mais forte) e traz o Espírito, prerrogativas esperadas do Messias pelos profetas (cf. Is 11,2). O Espírito, além disso, dá toda a orientação divina à missão de Jesus e dos discípulos que estão no caminho. Trata-se de uma missão (sandálias) para derrubar com poder (Jesus é o mais forte) os poderes injustos e de morte (pelo batismo no Espírito).
3. II leitura (2Pd 3,8-14): A espera ativa de uma nova criação
A segunda carta de Pedro é provavelmente o último escrito do Novo Testamento. O autor vive no fim do séc. I ou início do séc. II, quando começava a geração pós-apostólica, ou seja, a geração daqueles que não conheceram Jesus fisicamente, mas tiveram contato somente com seus apóstolos. Nos versículos da liturgia, diante do questionamento sobre a demora do retorno de Jesus, o autor quer mostrar que esse retorno acontecerá, em momento imprevisto, trazendo novos céus e nova terra.
A questão a que se quer responder é apresentada pelos zombadores sarcásticos no v. 4 (não lido na liturgia): "O que aconteceu com a prometida vinda de Cristo? Desde que morreram nossos pais, tudo continua o mesmo desde o início do mundo". A carta recorda então como o dilúvio, em Gênesis, pela água havia destruído tudo (e como Deus havia feito uma aliança selada no arco-íris). Não é portanto verdade que tudo continua como no início do mundo. Com a vinda de Jesus, sobretudo, uma nova transformação acontecerá, feita não mais por água, mas por fogo.
Para o questionamento sobre a demora da vinda de Jesus, apresentam-se então alguns motivos: 1) o tempo de Deus não é o nosso tempo ("para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia"), e ao ser humano não cabe determinar o agir de Deus tão-somente com uma lógica humana temporal; 2) não é que Jesus esteja demorando para vir, pois a aparente demora se deve ao fato de Deus ser paciente e dar tempo para que "todos se convertam"; 3) a vinda será num momento imprevisto, repentina (e nisso a carta segue a tradição bíblica - sinótica em Mt 24,43-44 e paralelos; apocalíptica judeo-cristã em 1Ts 5,2 e Ap 3,3); 4) a vinda do Dia de Deus pode ser apressada pela conduta de santidade de vida e piedade.
O Dia do Senhor, dia da sua vinda, será um dia de transformação. Não se fala aqui do fim do mundo, mas do fim de um mundo. As estruturas de pecado e morte desaparecerão devoradas pelo fogo (que deve ser lido simbolicamente), fogo que alcançará os elementos do universo (v. 12) e abrirá espaço para uma nova criação, "novos céus e nova terra, onde habitará a justiça" (v. 13). Os cristãos esperam e apressam esse Dia, a vinda de Jesus, com uma nova realidade de justiça, na esperança e no esforço. Esperança na certeza de que Jesus virá, e esforço para que Deus nos encontre vivendo em paz, sem mancha e culpa (v. 14).
A destruição do mundo pelo fogo era uma imagem recorrente entre os filósofos da época greco-romana e nos apocalipses judaicos e de Qumrã. O fogo representa o julgamento de Deus sobre um mundo injusto de morte, que precisa ser transformado. Diante de tal julgamento, os cristãos são convidados a viver em paz, conservando-se sem mancha nem defeito. Diante da nova realidade que então aparecerá, os cristãos podem se alegrar na esperança de um mundo novo de justiça. Uma espera ativa, portanto, que vem da consciência de que um novo mundo pode ser apressado pela busca da paz, da vida em plenitude para todos.
III. SUGESTÕES PARA A CELEBRAÇÃO (MLZ)
1. A cor rosada nas vestes litúrgicas, na estante da Palavra e na mesa eucarística, indica a alegria da espera que marca as celebrações deste tempo.
2. Procissão de entrada trazendo a 2ª vela do Advento. A pessoa que traz a vela coloca-a na coroa, fazendo uma breve oração: A luz de Cristo que esperamos neste Advento, enxugue todas as lágrimas, acabe com todas as trevas, console quem está triste e encha nossos corações da alegria de preparar sua vinda.
A comunidade pode cantar um refrão apropriado, como "Não deixe a lamparina apagar..."(Hinário Litúrgico 1, p.40) ou outro.
3. Após a proclamação do evangelho, quem preside retoma algumas frases-chave do texto, como: "Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!" e a assembléia poderá repeti-las.
4. Neste domingo o ato penitencial poderia ser realizado após a homilia, a partir da Palavra de Deus proclamada e meditada.
5. É bom recordar, neste domingo, fatos que são sinais que apressam a vinda de Deus no meio de nós, tais como:
. Hoje as Igrejas evangélicas realizam o Dia da Bíblia. E o Advento é tempo de contemplação e encarnação da Palavra de Deus, para que o Verbo possa fazer morada entre nós.
. Dia 08/12 - festa da Imaculada Conceição de Maria,
. Dia 10/12 - Dia mundial dos direitos humanos e dia internacional dos povos indígenas.
A recordação desses e de outros fatos poderá ser feita antes da 1ª leitura, iniciando a liturgia da Palavra.
6. Cantar o prefácio Advento I ou a louvação do Advento (Hinário Litúrgico 1, p. 73). E nas celebrações da palavra a louvação apresentada como alternativa no 1º domingo (p. .desta revista).
7. No momento dos avisos lembrar que no próximo domingo é dia nacional de coleta pela sustentação da evangelização da Igreja.
8. Bênção própria do Advento com imposição das mãos sobre o povo (Missal Romano, p. 519). |