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Consejo Latinoamericano de Iglesias - Conselho Latino-americano de Igrejas


Pe Jose Bortolini

JESUS E OS MARGINALIZADOS

I. INTRODUÇÃO GERAL

Jesus quebrou o rígido código do puro/impuro e foi morar entre os marginalizados. Esse mesmo Jesus é o eixo em torno do qual os que crêem nele se reúnem para celebrar sua fé. Ele não marginaliza ninguém, nem discrimina. E os que se reúnem em torno dele para celebrar, o que fazem? como agem?
Na celebração das comunidades devem estar presentes todos os marginalizados e banidos da sociedade. Só assim nossas celebrações serão verdadeira comunhão com a Palavra e com o Corpo de Jesus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Lv 13,1-2.44-46): O marginalizado
O capítulo 13 do Levítico trata de doenças da pele a serem diagnosticadas pelos sacerdotes. Entre essas doenças de pele está a lepra. Não há, no livro do Levítico, nenhuma preocupação com a cura dessas doenças. Simplesmente traçam-se normas higiênicas. A preocupação fundamental diz respeito à preservação da pureza da comunidade.
Algum tempo depois, os rabinos de Israel passaram a considerar o leproso como um vivo-morto, pois a lepra constituía a mais grave forma de impureza ritual. Por serem os sacerdotes os responsáveis pelo diagnóstico sobre a pureza ou impureza de uma pessoa, deduz-se facilmente que a lepra estava intimamente ligada com a impureza ritual. O aspecto religioso era mais importante do que o aspecto médico-sanitário. O leproso era uma espécie de excomungado, banido da sociedade. Essa pessoa não tinha acesso a Deus. Quem fechava ou abria a porta do acesso a Deus eram os sacerdotes, mediante o diagnóstico puro/impuro.
O complicado e misterioso sacrifício previsto para as pessoas que eventualmente sarassem da lepra (cf. Lv 14,2-32) demonstra que ela era vista como sinal do pecado contra Deus. É a partir disso que o leproso se torna símbolo da maior marginalização possível: castigado por Deus por causa do pecado (marginalização religiosa), era declarado impuro pelo sacerdote e banido da comunidade (marginalização social): "O homem atingido por esse mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos soltos e a barba coberta, gritando: 'Impuro! Impuro!'. Deve ficar isolado e morar fora do acampamento" (vv. 45-46).
O modo como o leproso deve se portar demonstra que ele se tornou perigosa fonte de contaminação: roupas rasgadas, cabelo solto, lenço sobre a barba (acreditava-se que a saliva poderia transmitir a doença). Um verdadeiro espantalho vivo, devia ser reconhecido de longe. Pior ainda, devia viver gritando a todos sua marginalidade e periculosidade.
Podemos nos escandalizar com isso tudo. Mas seria pura hipocrisia. Em nossa sociedade há igual discriminação e marginalização, não só em relação aos portadores de hanseníase, mas sobretudo em relação aos aidéticos e doentes de modo geral. Escandalizar-se seria simplesmente acobertar nossa hipocrisia.

2. Evangelho (Mc 1,40-45): Jesus cura o marginalizado
Pouco a pouco o Evangelho de Marcos vai mostrando quem é Jesus. O episódio de hoje é o terceiro milagre recordado em vista desse objetivo.
Já vimos, na I leitura, a situação de marginalidade em que se encontrava o leproso. Essa situação era mais grave no tempo de Jesus, pois tudo girava em torno do puro/impuro. Quem controlava esse rígido código de pureza eram os sacerdotes. Cabia a eles declarar o que podia ou não podia ter acesso a Deus. Deus estaria sob o controle dos sacerdotes e do código de pureza.
O leproso certamente sabia disso. Sabia também que sua vida - e sua libertação da marginalidade - não dependiam do Templo e dos sacerdotes, pois estes só constatavam a cura ou a permanência da doença em seu corpo. Diante disso, o leproso toma uma decisão radical: não vai ao sacerdote, e sim a Jesus. Ajoelha-se diante dele e pede: "Se quiseres, podes curar-me" (v. 40). Reconhece que o poder da cura que o tira da marginalidade não vem da religião dos sacerdotes, e sim de Jesus. Notemos outro aspecto importante: ao invés de ficar à distância e gritar sua marginalização (cf. I leitura), aproxima-se e manifesta sua adesão a Jesus enquanto fonte de libertação e vida: "Se quiseres, podes curar-me". Viola a lei para ser curado.
Jesus quer curar o leproso de sua marginalização, devolvendo-lhe a vida (naquele tempo, curar um leproso era sinônimo de ressuscitar um morto). Mas a ação de Jesus é precedida por uma reação. De acordo com a maioria das traduções (e do Lecionário também), a reação de Jesus se traduz em compaixão (v. 41a). Algumas traduções, porém, em vez de ler "compaixão", lêem "ira" (Bíblia Sagrada - Edição Pastoral). Jesus teria ficado furioso. Não certamente contra o leproso, mas contra o código de pureza que, em nome de Deus, marginaliza as pessoas, considerando-as como mortas. É contra esse sistema religioso que Jesus se revolta. E o transgride também.
De fato, acreditava-se que a lepra fosse contagiosa. Jesus quebra o código de pureza, tocando o leproso (v. 41b; cf. Lv 5,3). Com isso, de acordo com o sistema religioso vigente, torna-se impuro: torna-se leproso e fonte de contaminação. (Note-se que, de acordo com Lv 5,5-6, além de ficar impuro Jesus deveria oferecer um sacrifício!). Torna-se marginalizado e não poderá mais entrar publicamente numa cidade: deverá ficar fora, em lugares desertos (cf. v. 45a), como os marginalizados. O Filho de Deus foi morar com os marginalizados. Aqui o Evangelho de Marcos mostra quem é Jesus: é aquele que rompe os esquemas fechados de uma religião elitista e segregadora, indo habitar entre os banidos do convívio social.
Curado o leproso, Jesus o expulsa. É esse o sentido da expressão "o mandou logo embora". A expressão é forte e, ao mesmo tempo, estranha. Mas não é estranha se a lermos na ótica da ira de Jesus contra o código de pureza que marginaliza as pessoas: ele não quer que elas continuem vítimas de um sistema social e religioso que rouba a vida.
Jesus dá uma ordem ao curado: "Não conte isso a ninguém! Vá, mostre-se ao sacerdote e ofereça o sacrifício que Moisés mandou, como prova para eles!" (v. 44). Tudo leva a crer que a tarefa da pessoa curada consiste não em divulgar o milagre, mas em colaborar para que o código de pureza seja abolido. De fato, ele deverá se mostrar ao sacerdote para que este constate sua cura. Sinal de que a cura não depende do código de pureza, nem da religião do Templo. A expressão "como prova para eles" tem este sentido: o sacrifício serve como testemunho contra o sistema que o declarava um punido por Deus e banido do convívio social. O sacrifício tem, pois, caráter de denúncia e de abolição do código de pureza.
Não sabemos se a pessoa curada teve a coragem de testemunhar contra o sistema religioso que o mantinha na marginalidade. Marcos diz que o curado "foi e começou a contar e a divulgar muito o fato" (v. 45a). A reação a esse anúncio é evidente: Jesus não pode mais entrar numa cidade, pois, segundo o código de pureza, está contaminado e é fonte de contaminação. Todavia, de toda parte o povo vai procurá-lo (v. 45b), sinal de que está aberto um novo acesso a Deus. Deus, em seu Filho, pode ser encontrado fora, na clandestinidade, entre os que o sistema religioso e social discriminou.

3. II leitura (1Cor 10,31-11,1): Buscar a glória de Deus
Os versículos lidos como segunda leitura deste domingo são a conclusão de uma longa reflexão sobre as carnes oferecidas aos ídolos (caps. 8-10). Em Corinto, quase toda a carne vendida nos açougues havia sido oferecida nos templos dos deuses pagãos. Os "fortes" da comunidade afirmavam que os ídolos não existem. Portanto, não havia problema em consumir tais carnes. Não era necessário averiguar sua origem. Paulo está de acordo. Nisso a comunidade cristã se afastava da mentalidade estreita do judaísmo.
Todavia, se pessoas da comunidade fossem convidadas a participar de uma refeição na casa de um pagão, e este lhes dissesse: "Esta carne foi oferecida aos ídolos", o que fazer? Paulo se preocupa com os "fracos", ou seja, aquelas pessoas que não têm fé esclarecida. Elas poderiam estar sendo induzidas à idolatria. Nesse ponto Paulo se afasta da opinião dos "fortes": é melhor evitar para não perder o irmão "fraco" na fé. Isso não significa podar a liberdade do "forte", e sim entender e viver a liberdade responsavelmente.
A orientação básica de Paulo é esta: "Quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, tudo façam para a glória de Deus!" (v. 31). Em outras palavras, Deus transparece, se manifesta e se torna presente em todos os gestos e ações da comunidade. Portanto, a ação de cada pessoa deveria ser ação responsável. Sabemos que Deus jamais pode ser confundido com os ídolos. Todavia, nossas ações podem manipulá-lo e transformar-se em fonte de idolatria.
A ação da comunidade tem a ver com todos: os judeus - que em tudo fazem distinção entre puro e impuro - estão de olho no modo como os cristãos agem; os pagãos também. A própria comunidade (Igreja de Deus), dividida entre "fortes" e "fracos", corre o risco de perder sua identidade de fermento na grande cidade. O que fazer? Paulo recomenda que os cristãos de Corinto "não sejam motivo de escândalo, nem para os judeus, nem para os pagãos, nem para a Igreja de Deus!" (v. 32). Estaria Paulo aprovando o código de pureza dos judeus? Não. Prova disso é o fato de considerar todos - judeus e pagãos - como chamados a uma vocação única, a da comunhão com o Deus vivo e verdadeiro. E isso se torna possível mediante a ação da comunidade: "Façam como eu, que em tudo procuro agradar a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de todos, para que sejam salvos!" (v. 33). O "interesse de todos" não é o capricho de cada um em particular. Se assim fosse, o cristão perderia sua identidade. O interesse de todos é o encontro de toda a humanidade com Deus, em Jesus Cristo. Essa é a glória de Deus. É isso que Paulo busca sem descanso. E é a isso que a comunidade é chamada: "Sejam meus imitadores, como eu também o sou de Cristo" (11,1).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

. A I leitura e o evangelho falam, respectivamente, da marginalização causada pela lepra e da ação de Jesus em favor dos marginalizados. A situação de muitas pessoas, hoje, é mais dramática que a dos leprosos da Bíblia. Quem são essas pessoas? Quem as marginalizou? Por quê? O código de pureza continua presente em nossas comunidades? De acordo com o evangelho de hoje, onde encontramos Jesus?
. A II leitura ajuda a refletir sobre o tema da liberdade: O que é? Como se manifesta? É possível liberdade sem solidariedade? E o que dizer da maioria do povo que não tem o que comer? Não seria anacrônico falar de carne num país em que ela não chega à mesa da maioria?

 

 
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