--> Consejo Latinoamericano de Iglesias

 

Que tipo de messias é Jesus?
Pe Jose Bortolini

I. INTRODUÇÃO GERAL
Celebrar a Eucaristia é fazer memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ele é o Messias, mestre, profeta e revelador do projeto de Deus. Seu messianismo é marcado pelo sofrimento, morte e ressurreição, com os quais destrói a sociedade injusta que devora vidas humanas. Jesus é o Messias que chama as pessoas ao compromisso com seu projeto. Ser discípulo dele é fazer as mesmas coisas que ele fez para libertar o mundo da ganância que mata. Por isso, celebrar não é só fazer memória das ações libertadoras do Messias, mas atualizá-las na prática concreta, pois a fé sem as obras é morta. À medida que celebramos, vamos crescendo na consciência de que o projeto de Deus nos chama ao compromisso. Celebrar a fé é encher-se de força para enfrentar tudo o que impeça a vida e a liberdade do ser humano.


II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1.I leitura (Is 50,5-9a): Missão do servo sofredor
Estamos diante de um texto do Segundo Isaías (Is 40-55). A perícope é chamada de "terceiro canto do servo de Javé". Os cantos estão assim distribuídos: 1º canto: 42,1-9; 2º canto: 49,1-6; 3º canto: 50,4-11; 4º canto: 52,13-53,12.
Ao lermos qualquer um desses cantos surge logo a mesma pergunta feita pelo eunuco a Filipe: "De quem o profeta está falando: de si mesmo ou de outro?" (At 8,34). A resposta não é fácil. Até o momento, as opiniões dos estudiosos podem ser sintetizadas em quatro tipos de interpretação de quem seja o servo sofredor: a. Interpretação coletiva: tratar-se-ia do povo de Israel; b. Interpretação individual: o servo sofredor seria uma pessoa anônima; c. Interpretação mista: ele seria ora Israel como um todo, ora um grupo de pessoas, ora uma pessoa só, como, por exemplo, o próprio profeta; d. Interpretação messiânica: os cantos falariam de um messias do futuro ideal. Segundo os autores do Novo Testamento, esse futuro ideal encontrou perfeita realização em Jesus.
O nosso texto - parte do terceiro canto - pertence a uma seção maior, que abrange os capítulos 49-55, e cujo tema central é a restauração e glorificação de Jerusalém, a cidade-esposa de Javé. Os exilados - usando linguagem de contexto matrimonial - se queixam de que Deus tenha repudiado sua esposa (Jerusalém) e vendido seus filhos como escravos. Podemos perguntar: o exílio é o repúdio de Javé ou é resultado da culpa do povo (infidelidade da esposa)? O povo vai ter de reaprender com a dor. A resposta de Javé (50,1-3) precede imediatamente o terceiro canto do servo sofredor. Embora não se saiba quem seja esse servo, podemos, pelo contexto que o antecede, perceber claramente qual seja sua missão: a de mostrar, à custa das ofensas e da própria condenação, que o amor de Javé é perene.
Os vv. 4-7 mostram o que Javé faz para o servo em vista do bem do povo, e a responsabilidade do servo, plenamente obediente e fiel: O Senhor Javé (a expressão é repetida quatro vezes: vv. 4.5.7.9) dá ao servo uma língua de discípulo, para que possa levar conforto ao povo; abre-lhe os ouvidos para que aprenda, como discípulo, a transmitir o que ouviu, e lhe dá proteção. Em outras palavras, prepara-o e capacita-o para a missão. O servo, por sua vez, para não trair o conteúdo da mensagem, dá as costas aos que o torturam, isto é, não oferece resistência; toma a iniciativa de oferecer a face aos que lhe arrancam os fios da barba (ter a barba arrancada é sinal de grande humilhação; o servo não liga para a perda da honradez); não esconde o rosto à ofensa maior: injúrias e escarros. O rosto manifesta os sentimentos e desejos de uma pessoa. Torná-lo duro como pedra (v. 7) é não levar em conta qualquer espécie de ofensa, em vista da opção assumida.
Nos vv. 8-9 a situação do servo se agrava. Sua mensagem atingiu as estruturas de poder opressoras. Além da difamação, perseguição e tortura, o servo será conduzido ao tribunal. O contexto desses versículos é o de um tribunal montado para eliminar, por meio de acusações falsas, aquele que procurava reerguer o povo desesperançado. Mesmo assim, o servo tem absoluta convicção de que a mentira não prevalecerá, porque seu advogado de defesa é Javé.
Para nós, hoje, quem é esse servo sofredor? O critério para discernir parece ser este: a vida do povo. Todos os que lutam pela vida do povo - e por causa dessa luta correm sérios riscos - são esse servo de Javé.
A liturgia escolheu esse texto para relacioná-lo com o primeiro anúncio da paixão no Evangelho de Marcos e para salientar o messianismo de Jesus. Ele é o Messias porque dá a vida pelo povo, enfrentando um tribunal iníquo que o levou à morte. Mas a vitória da justiça não tardou em se manifestar, pois o Pai ressuscitou a Jesus de entre os mortos, tornando-o assim fonte de vida para todos os que assumem como própria a tarefa de serem, hoje, "servos de Javé".

2. Evangelho (Mc 8,27-35): Jesus é o Messias

Já salientamos, nos domingos anteriores, qual o objetivo do Evangelho de Marcos: sendo o primeiro texto de catequese da comunidade primitiva, tinha como finalidade principal responder à pergunta "Quem é Jesus?" Descobrindo, ao longo do texto, quem ele é, os que iniciavam sua caminhada de fé eram levados a se confrontar com ele, percebendo assim o que significa ser cristão. É a segunda e fundamental pergunta que atravessa todo o Evangelho de Marcos.
O Evangelho de Marcos consta de duas partes, quase iguais em tamanho. A primeira parte termina em 8,30, com a solene declaração de Pedro: "Tu és o Messias" (8,29). De fato, logo a seguir (8,31), temos novo começo: "Jesus começou a ensiná-los". A finalidade da primeira parte do evangelho era a de levar ao reconhecimento de que Jesus é o Messias (cf. 1,1). E a finalidade da segunda parte é explicitar que tipo de Messias é Jesus. Se a primeira parte desse evangelho começava no deserto, a segunda é o início do "caminho para Jerusalém", o lugar do grande confronto com o poder econômico, político, religioso e ideológico centrado no Templo. A partir do momento em que os discípulos, na pessoa de Pedro, reconhecem que Jesus é o Messias, inicia nova etapa, na qual o Mestre se dedica quase que exclusivamente aos discípulos, mostrando-lhes o caráter de seu messianismo e provocando-os a um compromisso maior com ele e com sua causa. É na segunda parte do evangelho que encontramos os três anúncios da paixão. Daqui em diante, Jesus insistirá muito para que seus discípulos renunciem a si próprios, tomem a própria cruz e o sigam.

a. Chegar a uma síntese de quem é Jesus (vv. 27-30)

Passando pelos povoados de Cesaréia de Filipe (v. 27), Jesus está com seus discípulos a caminho de Jerusalém, onde acontecerá o desfecho final, onde realizará plenamente seu messianismo (cf. 15,39: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus"). A pergunta feita aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?" (v. 27) tem a função de levar seus seguidores a uma síntese daquilo que ele é. A resposta dos discípulos denota que as pessoas não chegaram a descobrir a identidade de Jesus: ele acaba sendo comparado a João Batista, a Elias e a algum dos profetas (v. 28). João Batista e Elias são personagens clássicas que preparam caminhos. Jesus não é visto como coroa de um processo, mas como simples "precursor". Da opinião do povo passa-se à convicção dos discípulos: "E vocês, quem dizem que eu sou?" (v. 29). A resposta de Pedro, representando os discípulos, é a grande profissão de fé que encerra a primeira parte do Evangelho de Marcos: "Tu és o Messias" (v. 29), ou seja, é a coroa, o ponto alto, a realização das expectativas, o anunciado pelos "precursores". A palavra Messias (Christós, em grego), sintetiza o que Jesus é e faz: mestre, profeta e revelador, com plenos poderes, ungido pelo Espírito de Deus (cf. 1,10). A palavra Messias suscitava grande expectativa política. Pedro parece reunir todas as esperanças populares na chegada de um líder político restaurador da realeza em Israel. Será que Pedro "enxergou" algo novo em Jesus, ou continua "cego" como o cego da cena anterior? (Cf. evangelho do domingo passado.)
Assim encerra-se a primeira parte do Evangelho de Marcos. Contudo, é preciso ainda entender que tipo de Messias é Jesus. Por isso ele recomenda silêncio aos discípulos (v. 30). Seu messianismo ainda não se realizou. Estará realizado na cruz e na ressurreição. A partir daí seus seguidores terão a tarefa de anunciar quem ele é, retornando à Galiléia e fazendo as mesmas coisas que ele fez. Aí está a síntese do anúncio de que ele é o Messias: anúncio que se baseia na mesma prática libertadora de Jesus.

b. Que tipo de Messias é Jesus? (vv. 31-33)

O messianismo de Jesus é marcado pelo conflito com os poderes que geram a morte. Ele tem consciência de que deve sofrer muito. Este verbo (dei, em grego) denota uma necessidade que provoca à ação. Não se trata de um fatalismo ao qual Jesus e seus seguidores devam se submeter cegamente. Pelo contrário, é a consciência de que o enfrentamento com os poderes que geram a morte é inevitável. A decisão de Jesus (e a de seus seguidores) é a mesma dos profetas e de João Batista. Ele vai enfrentar as estruturas de morte. E as enfrentará na qualidade de "Filho do Homem", ou seja, na sua fragilidade humana, sem recursos extraordinários vindos do alto ou de fora. Portanto, de modo contrastante com os planos de Pedro, que continua "cego".
O v. 31 mostra quem são os adversários de Jesus: anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei. São todos membros do Sinédrio, o supremo tribunal daquele tempo. Os anciãos eram aristocratas leigos, latifundiários, donos do dinheiro. Formavam o núcleo central do partido dos saduceus. Os sumos sacerdotes eram a aristocracia sacerdotal, detentores dos mais elevados graus da hierarquia sacerdotal, cujo primado era o sumo sacerdócio. Também eles pertenciam ao partido dos saduceus. Eram donos do poder político. Os doutores da Lei, também eles membros do Sinédrio, em sua maioria pertenciam ao partido dos fariseus. Eram "os mestres da verdade", os donos do poder ideológico. Detinham, em parte, o poder judiciário.
Em síntese, Jesus irá se defrontar com as classes dirigentes, com os donos do dinheiro, do poder e da verdade. Em suas mãos ele "deve ser morto" (v. 31) porque o ensinamento e a prática de Jesus contrastam frontalmente com o projeto do Sinédrio. Jesus tem consciência de que será morto, e fala disso abertamente (em grego, parresia, v. 32a). A parresia de Jesus recorda a coragem e a sorte do servo de Javé (cf. I leitura) e o fim trágico dos profetas, segundo o ensinamento do Deuteronômio. Contudo, as instituições de morte não terão a última palavra. Depois de três dias ele ressuscitará (v. 31b).
Pedro, que em nome dos discípulos acabara de confessar o messianismo de Jesus, não está de acordo. Não admite o sofrimento, rejeição e morte para o Messias: "Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo" (v. 32b). Vale a pena salientar a atitude de Pedro. Trata-se de uma repreensão violenta. Marcos o demonstra empregando o verbo epitiman. É o mesmo verbo com o qual Jesus repreende os demônios e espíritos impuros, expulsando-os (cf. 1,25; Mt 8,26; 17,18). Pedro está querendo "exorcizar" o messianismo de Jesus!
Também a repreensão de Jesus é severa, chamando a Pedro de Satanás, por não pensar como Deus, e sim como os homens (v. 33). Pedro (e os discípulos), ao rejeitar o Messias que enfrenta as estruturas de morte para suprimi-las, torna-se adversário (Satanás) do projeto de Deus (cf. 4,15). Jesus ordena que ele fique no seu lugar, isto é, que se coloque atrás do Mestre (segundo outras traduções, "que vá para longe") para que, seguindo-o, se encontre como discípulo. Aqui ressoa forte a segunda pergunta de Marcos: "Quem é o discípulo que Jesus procura?" A tentação é fazer com que o Messias se torne segundo nossa imagem e semelhança, e não tornarmo-nos à imagem e semelhança dele.

c. O que significa ser discípulo de Jesus? (vv. 34-35)

O v. 34 impõe três condições para ser discípulo do Messias que enfrenta as estruturas de morte: Renunciar a si mesmo, tomar a cruz e seguir Jesus. Renunciar a si mesmo significa renunciar a toda ambição pessoal. Em outras palavras, não ser como os membros do Sinédrio. É ser pobre, rompendo definitivamente com a sociedade que vai matar Jesus. Tomar a cruz é aceitar ser perseguido e, se for necessário, ser condenado à morte pela sociedade que vai matar o profeta e o justo. Seguir a Jesus é aceitar ser banido, marginalizado, ir com ele até o fim, enfrentando todas as hostilidades da sociedade injusta que levou Jesus à morte. Concretamente, isso significa "perder a vida". Mas Jesus garante: quem perde assim a vida irá encontrá-la (v. 35), pois ele ressuscitou e é o Senhor da vida.

3. II leitura (Tg 2,14-18): Atos que comprovam a fé

A fé é o tema do segundo capítulo da carta de Tiago (cf. o comentário à II leitura do domingo passado). Partindo, provavelmente, da má interpretação do que Paulo afirmou em Rm 3,28 e Gl 2,16, alguns membros de comunidades cristãs chegaram a afirmar ser possível salvar-se mediante certo tipo de fé que dispense as pessoas das conseqüências que a mesma fé acarreta. Essa concepção combinava perfeitamente com os interesses e ambições dos ricos opressores dos pobres (cf. 2,6-7): cometiam suas injustiças e podiam continuar a ser cristãos de corpo e alma. No fundo, o que defendiam era uma espécie de ateísmo prático: tinham fé num deus que os isentava da justiça, fraternidade e solidariedade. Por isso, ao ver pessoas nuas e famintas, diziam: "Vão em paz, aqueçam-se, comam e bebam" (vv. 15-16).
Tiago mostra-lhes o engano: "O que adianta se alguém disser que tem fé, mas não tem obras? Poderá a fé salvá-lo?" (v. 14). O que adianta afirmar "Eu creio" se essa profissão de fé não se traduz em prática? (Cf., acima, o item "c" do evangelho).
O texto emprega a imagem do cadáver: sem espírito, o corpo está morto e não reage. Assim acontece com a fé: sem as obras, estará morta em si mesma (cf. v. 17). Portanto, as ações de justiça são a alma da fé, o princípio vital que move à ação. Sem elas não é possível alguém afirmar ser cristão.
Os ateus práticos voltam à carga, afirmando que uns possuem a fé, outros as obras. Com isso pretendem desmoralizar o trabalho em favor da justiça social e da solidariedade que decorrem da fé em Jesus Cristo. Será que quem luta pela justiça não tem fé? Será que tem fé quem não luta pela justiça? Para o autor da carta, essa dicotomia não é possível nem demonstrável: quem age em favor da justiça pode comprovar, por sua prática, que é movido pela fé, ao passo que os outros não: "Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu lhe mostrarei a fé pelas minhas obras" (v. 18). As boas intenções não são suficientes para que alguém possa se declarar cristão, mesmo que acredite "de corpo inteiro" em todas as verdades da fé!

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

. A I leitura e o evangelho falam dos conflitos que o servo de Javé e Jesus enfrentaram para realizar sua missão. Quais são os conflitos que envolvem hoje os cristãos? Quem são os servos de Javé em nossos dias? O que significa ser discípulo do Messias? Quais são os "Satanás" que impedem o avanço do Reino de Deus?
. A comunidade cristã se reúne para celebrar a fé. Seria interessante fazer um levantamento das principais obras de justiça, solidariedade e fraternidade já realizadas, como gestos que comprovam a fé a ser celebrada. Além disso, é oportuno refletir sobre "fé política". Como traduzi-la no momento político em que vivemos?

25º DOMINGO COMUM (24 de setembro)
O MESSIAS SERVIDOR
E SEUS DISCÍPULOS

I. INTRODUÇÃO GERAL

O messianismo de Jesus se traduz em serviço até a doação da própria vida. Celebrar a Eucaristia é fazer memória da ação do Cristo, procurando vivenciá-la em nossa prática cristã. Por isso, ser cristão, discípulo de Jesus, é tomar posição dentro dos conflitos sociais, promovendo o direito e a justiça (I leitura); é colocar-se a serviço de todos, particularmente dos marginalizados, sem ambicionar títulos, postos ou honrarias; é colocar como centro de atenção e dedicação os carentes, cientes de neles estar acolhendo o Messias servidor (evangelho). Quem age dessa forma é sábio segundo a sabedoria que vem do alto, pois a raiz de todos os males é a ganância (II leitura).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 2,12a.17-20): Os injustos não suportam a prática do justo

O cap. 2 do livro da Sabedoria apresenta o discurso dos injustos. O texto revela os conflitos existentes na comunidade judaica de Alexandria (Egito) no século I a.C. Quem são os injustos e o que fazem? Deixemos que o próprio texto os apresente a partir de suas ações: eles oprimem o justo empobrecido, não poupam a viúva, nem respeitam o velho (2,10). Fazem isso porque manipularam a Lei, que protegia essas pessoas. Pela força e violência impuseram a injustiça como norma que regula as relações sociais (v. 11). Eles e sua injustiça tornaram-se a lei. Quem pode se opor?
A oposição é feita pelo justo que os incomoda, critica o que fazem, censura-lhes as transgressões da Lei, acusando-os de falta de educação e de bom-senso (v. 12). O justo, portanto, é a pedra no sapato dos injustos (como, no passado, o profeta encarnava a denúncia contra a arbitrariedade e impunidade dos poderosos opressores). Mas não se trata unicamente de crítica. O justo se lhes opõe sobretudo por um comportamento diferente (v. 15). Rompe com eles, a ponto de considerá-los impuros (v. 16). Não quer ter nada em comum com eles. E para sua defesa chama em causa o próprio Deus, garantindo que a bem-aventurança pertence aos justos, que têm Deus do seu lado (v. 16). O capítulo 2 da Sabedoria, portanto, mostra o conflito aberto entre a prática da justiça e a injustiça que se tornou norma regedora das relações sociais. O texto dá a impressão de que o justo está sozinho contra os injustos (como acontece em muitos salmos), o que aumenta a dramaticidade, fortalecendo a arrogância dos injustos.
Uma sociedade baseada na mentira e na injustiça não suporta que haja pessoas que a critiquem. Por isso os injustos vão ao ataque contra os defensores da justiça: armam contra o justo ciladas mortais (v. 12a). Mediante difamação, procuram desmoralizá-lo, mostrando-o como alguém estranho, esquisito e excêntrico (hoje em dia, além da difamação, os que lutam pela justiça são acusados de baderneiros, inimigos da ordem, subversivos, agitadores etc.).
O conflito entre injustos e justo aumenta, passando pela tortura, para chegar à morte sem apelação, sem que haja alguém disposto a defender-lhe a causa (v. 20).
A eliminação de pessoas que lutam pela justiça levanta uma questão importante: Onde Deus se posiciona dentro desse conflito? Na ótica dos injustos, Deus não existe ou, se existe, não se intromete nessas questões. E parece ser este o grande drama de quantos sonham com uma sociedade justa e lutam por ela: Por que Deus não intervém? Os ímpios tripudiam em cima disso: "De fato, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá e o livrará dos seus inimigos" (v. 18). Tornando-se eles mesmos a lei, crêem que o mundo inteiro esteja à sua disposição, sem que haja um socorro para o justo (v. 20). Matando-o, acreditam ter matado o próprio Deus!
Porém, na ótica do livro da Sabedoria a perspectiva é diferente: "Deus não fez a morte, nem tem prazer em destruir os viventes. Tudo criou para que subsista; as criaturas do mundo são todas saudáveis: nelas não há veneno de morte, e a região dos mortos não reina sobre a terra. Porque a justiça é imortal" (1,13-15).
O tema do justo perseguido e conduzido à morte, presente nesta leitura, serve de ponto de partida para entendermos o evangelho deste domingo: "O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará" (Mc 9,31b; cf. evangelho).


2. Evangelho (Mc 9,30-37): Jesus, o Messias servidor
O Evangelho de Marcos compõe-se de duas partes. O início da segunda parte se encontra em 8,31, onde temos novo início. O ponto alto da primeira parte é a declaração de Pedro que, representando os demais discípulos, reconhece Jesus como o Messias (8,29). Na segunda parte, Jesus se dedica mais intensamente à instrução dos discípulos, mostrando-lhes aos poucos, em palavras e atos, em que consiste seu messianismo. A segunda parte culmina com a declaração do centurião: "Verdadeiramente este homem era filho de Deus" (15,39).

a. O Messias vai ser morto e ressuscitar (vv. 30-32)

Jesus está a caminho de Jerusalém, atravessando a Galiléia, lugar onde desenvolveu sua atividade libertadora (v. 30). O próprio evangelista explica o motivo por que ele não queria ser notado pelo povo: estava ensinando a seus discípulos (v. 31). O conteúdo desse ensinamento é o que se costuma chamar de segundo anúncio da paixão.
Marcos registrou em seu evangelho três anúncios da paixão de Jesus. Isso denota a importância da catequese sobre o ser cristão (o Evangelho de Mc foi, provavelmente, o primeiro texto de catequese das comunidades primitivas): o Mestre tem consciência dos conflitos que deverá enfrentar para realizar seu messianismo. Aquele que pretende segui-lo deverá tomar consciência e posicionar-se corajosamente.
Jesus afirma que "o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão" (v. 31). Como o justo nas mãos dos injustos (cf. I leitura), ele será condenado à morte. A expressão passiva "ser entregue" pode ser entendida de dois modos: o primeiro reflete uma teologia tradicional e hoje abandonada por quase todos; o segundo depende de uma nova compreensão de tudo o que Jesus disse e fez. 1. Sendo esse evangelho um texto de catequese, era compreensível que os catecúmenos se perguntassem: "Era de fato necessário que Jesus, para realizar seu messianismo, tivesse de passar pela cruz? Por que um Messias crucificado?" Marcos mostra que a paixão de Jesus está dentro do plano do Pai. É ele quem "entrega" seu Filho para salvar a humanidade. Deus entrega o Justo para salvar os pecadores. Porém a morte não terá a última palavra sobre o destino de Jesus: "três dias após sua morte, ele ressuscitará" (v. 31). Essa visão esbarra num imagem estranha de Deus. 2. Jesus será denunciado e traído por um de seus discípulos, e será morto por aqueles que sua prática de vida incomodou. Judas, um de seus discípulos, se torna traidor do projeto de Jesus, colaborando com o sistema de morte. Marcos não menciona aqui quem será responsável pela morte de Jesus. Para o discípulo não restam mais dúvidas. Para quem lê o Evangelho de Marcos com atenção também não, pois desde 3,6 já se decretara a morte dele (cf. também o primeiro anúncio da paixão, 8,31-33).

b. Medo do compromisso (v. 32)

Em cada um dos três anúncios da paixão encontramos uma reação oposta por parte dos discípulos. No primeiro anúncio (8,31-33) é Pedro quem se opõe terminantemente, apresentando condições (evangelho do 24º domingo comum). No segundo (9,30-32) os discípulos não compreendem e têm medo de fazer perguntas; têm medo do compromisso. No terceiro (10,32-34 29º domingo comum) a reação é de susto e, a seguir, os filhos de Zebedeu ambicionam postos de honra. A reação negativa dos discípulos serve de motivo para que Marcos insira aí um ensinamento de Jesus, contrastando com a atitude dos discípulos.
No texto que nos interessa, "os discípulos não compreendiam suas palavras e tinham medo de perguntar" (v. 32). O tema da incompreensão dos discípulos é uma constante no Evangelho de Marcos. Associado ao medo de fazer perguntas, denota que eles, acima de tudo, não querem compreender o messianismo de Jesus porque temem um compromisso maior (compare com 4,12).

c. O maior é aquele que serve (vv. 33-35)

A cena situa Jesus e seus discípulos em casa (v. 33). Pelo caminho houve uma discussão sobre quem seria o maior dentro do grupo (v. 34). Isso denota que os discípulos ainda imaginam a comunidade dividida em categorias e classes, onde uns são privilegiados em detrimento de outros. O silêncio dos discípulos diante da pergunta do Mestre prepara a "aula particular" de Jesus que, sentado, ensina como Mestre que traz a novidade. O ensinamento de Jesus mostra que o maior é o último em importância: "Se alguém quer ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos" (v. 35). A lição tem como ponto de referência a própria ação do Mestre (cf. Fl 2,7-8: "Ele assumiu a condição de servo... humilhou-se e foi obediente até a morte e morte de cruz!").

d. Ser o maior é acolher os pequenos (vv. 36-37)

A cena seguinte é marcada por uma criança no centro do grupo. É o próprio Jesus quem a coloca aí, abraçando-a (v. 36). Criança é sinônimo de pessoa necessitada e dependente. Jesus a coloca como centro de atenção dos discípulos. E para ela tem um gesto de carinho e de acolhida: o abraço (notar que no Evangelho de Marcos Jesus abraça só crianças; cf. 10,16). Portanto, com esse gesto Jesus está mostrando o que é ser seu discípulo, o que significa ser o maior dentro da comunidade: maior é aquele que acolhe os carentes, marginalizados, oprimidos, injustiçados e por eles se interessa, dedicando-lhes tempo e vida. E acolher essa gente é acolher Jesus e o Pai, que o enviou (v. 37).
O episódio pode ter outra conotação. É que a palavra grega paidion - normalmente traduzida por "criança" - pode significar também o menor que trabalha (como tantos menores trabalhadores do nosso país) e está a serviço. Essa hipótese é confirmada também pelo aramaico, em que talya pode significar tanto criança quanto servo. Nesse sentido, esse menor que está a serviço lembra o próprio Jesus, que se identifica com ele, abraçando-o. Jesus é o menor de todos, pois se fez servo em sentido pleno: até dar sua vida. Ser discípulo dele é acolhê-lo como o Messias servidor que enfrenta a morte para comunicar vida para todos. Mas o caminho do discípulo não termina aí. Há de passar, também ele, pelo serviço até o fim, até a cruz, pois a diaconia do Mestre se prolonga nas ações da comunidade cristã.


3. II leitura (Tg 3,16-4,3): A verdadeira sabedoria se expressa pela conduta
O trecho da carta de Tiago que lemos como segunda leitura deste domingo nos apresenta uma comunidade gravemente dividida. Dentro dela há grandes conflitos, a ponto de seus membros se matarem uns aos outros (4,2). A carta já revelara a opressão dos ricos sobre os pobres. Agora tem-se a impressão de que há outros focos de conflito, não menos graves que os anteriores.
Os versículos escolhidos para este dia relacionam-se estreitamente com o que antecede. A tônica desse trecho é a sabedoria cristã, que não depende de erudição acadêmica, mas do bom-senso com que as pessoas se relacionam comunitariamente. De fato, tem-se a impressão de que Tiago esteja recriminando os falsos mestres: amparados por sua "sabedoria", cometiam as maiores injustiças dentro da comunidade, podendo ser comparados com os injustos da I leitura.
Tiago distingue dois tipos de sabedoria: a que é dada por Deus e se traduz no bom-senso, e a que se aprende nas escolas. Uma é boa e conduz a relações fraternas e justas; a outra se perverteu, e serve de suporte para que sejam cometidas injustiças.
O Autor descreve a "sabedoria que vem do alto" com sete qualidades: pura, pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e bons frutos, sem parcialidade, sem fingimento (v. 17).Temos aí o retrato da pessoa sábia: não é quem estudou, mas quem possui bom-senso nas relações entre as pessoas. Sábia é a pessoa autêntica e leal, que promove a paz, é indulgente, procura conciliar, bondosa, imparcial e transparente, sem duas caras. Quem semeia discórdia na comunidade não é pessoa sábia, pois está semeando vento para colher tempestade (cf. v. 18).
Nos primeiros versículos do cap. 4 Tiago ajuda a comunidade a descobrir as raízes das divisões comunitárias. Por que são assim desunidos? Onde está a causa disso tudo? (4,1). A ganância é a fonte de todos os males da comunidade. Por causa dela as pessoas matam e se entregam à luta e à guerra. A ganância gera a cobiça e esta, por sua vez, mata para possuir, sem se saciar (cf. v. 2).
Isso tudo acontecia dentro de comunidades cristãs às quais a carta se dirige. Note-se que são comunidades que rezam (v. 3). Mas Deus não as atende porque os pedidos são interesseiros, feitos "com a finalidade de esbanjarem nos seus prazeres". Deus não freqüenta comunidades insensatas, nem as atende, porque sua prática nega a sinceridade de suas preces.


III. PISTAS PARA REFLEXÃO
.Comparar nossa sociedade com a sociedade de Alexandria do I séc. a.C. (I leitura). Lá como cá há perseguição aos que lutam pela justiça. Parece ser uma luta desigual. De que lado está Deus? Como e onde descobri-lo hoje nas lutas do povo pela justiça?
. Jesus é o Messias servidor. Seus discípulos freqüentemente se perdem atrás de cargos, títulos e honrarias (evangelho). Quem nossa comunidade deveria pôr, hoje, no centro da celebração? A quem deveríamos dar hoje nosso abraço para nos comprometermos como discípulos de Jesus?
. Por que há divisões em nossa comunidade? Onde está a raiz de tudo? O que significa ser sábio em nossos dias? (II leitura).