MATEUS 10.40-42
Ângela Lenke
JEREMIAS 28.5-9
ROMANOS 6.12-23
1 Introdução
Entre o texto de Jeremias e de Romanos temos o texto que aponta o fi o
principal de nossa refl exão. Jeremias, um profeta fi el e corajoso para trazer o
povo de Deus exilado na Babilônia para junto de Deus, revela que é um profeta
que não dá falsas esperanças, aponta para o pecado e a volta a Jerusalém por causa
da misericórdia de Deus.
Romanos 6 traz a mensagem muito clara de que estamos sob a graça de
Deus; portanto o pecado precisa ser abandonado. No passado, fomos servos e escravos
do pecado, mas agora é preciso andar como verdadeiro discípulo de Jesus,
que segue a verdadeira justiça e não a justiça do pecado. O antigo pecado estámorto pela obra de Cristo. Mateus 10.40-42 é a mensagem carinhosa e confortante de Jesus para
aqueles que servem a ele como Senhor e Salvador. Ele é o profeta principal.
2 Exegese
V. 40 – “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe
aquele que me enviou.” A boa-nova desse versículo é que receber Jesus Cristo
signifi ca receber Deus e a salvação que ele oferece. Receber Jesus Cristo é
o mais importante. Ele vem em primeiro lugar, porque, recebendo-o, recebe-se
Deus. Quem cumpre a tarefa do fazer conhecido o nome de Jesus Cristo são os
discípulos; assim encoraja seus amados discípulos, afi rmando quão nobre é a sua
vocação. O fato de receber os discípulos revela a intimidade de Jesus com seus
discípulos. Jesus os encoraja, mostrando-lhes que quem os recebe tem a salvação.
Assim, Jesus mostra aos discípulos quão elevada posição ocupam. O verdadeiro
discípulo sustém as relações com Deus e aponta que a cruz que levam é fonte de
bênção, apesar das perseguições, abdicações e sofrimentos (2Tm 1.7-9a).
V. 41 – “Quem recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa
de profeta; quem recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa
de justo.” A fi gura do profeta, desde o Antigo Testamento, é respeitada. Para nós ministros, não é novidade que no Antigo Testamento o profeta era o elo
entre o povo e Deus. Não apenas transmitia a mensagem de Deus para o presente,
mas com autoridade anunciava o futuro, julgava as ações do povo em forma de
denúncia. No Novo Testamento, o profeta tem o ministério mais elevado após os
apóstolos. Jesus classifi cava João Batista como o maior dos profetas, sendo que
João Batista nem fez milagres e suas profecias foram poucas. A profecia é dom,
em que a autoridade e a orientação vêm diretamente do Espírito Santo. Os profetas
eram instrumentos especiais de anúncio e denúncia.
o texto, Jesus declara que receber um profeta signifi ca receber a mensagem
de Deus e deixar-se corrigir por sua palavra (2Tm 3.16s). Naturalmente,
os apóstolos eram profetas; entretanto, outros também exerciam papel profético.Receber um profeta signifi ca receber os benefícios vinculados ao profeta. Os
escritos judaicos registram: “Aquele que recebe em sua casa um homem sábio
ou presbítero é como se tivesse recebido o shekinah (a presença de Deus)” [...]
“Aquele que fala contra o pastor fi el é como se falasse contra o próprio Deus”
(CHAMPLIN, p. 370).
Provavelmente, Jesus usa a expressão “Quem recebe um justo, no caráterde justo, receberá o galardão de justo”, para que as pessoas não tenham somente o
cuidado em receber ministros ou profetas, mas todas as pessoas de bem, independentemente
de seu serviço, classe social ou profi ssão. Assim, Jesus inclui todo
servo e discípulo fi el de seu reino.
O galardão prometido a quem recebe profetas ou justos refere-se às bênçãos
neste mundo, mas principalmente ao mundo vindouro.
V. 42 – “E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um desses
pequeninos, na qualidade de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum
perderá a sua recompensa.” Considerando a região seca e quente de Israel, erauma atitude hospitaleira quando um judeu dava um copo de água fria em vez de
água normal ou quente. Isso envolvia todo um cuidado com a água. Quem era
considerado importante recebia água fria para saciar sua sede.
Jesus chama seus discípulos de “pequeninos”, expressão usada pelos rabinos
para com seus alunos. Ele sabia da fraqueza e do medo de seus discípulos. É
uma forma carinhosa, simpática e misericordiosa de chamar assim a quem se quer
bem. “Todo aquele que lhes mostrasse misericórdia, que lhes prestasse algum
serviço, ainda que pequeno, ajudando-os no caminho e aliviando-lhes a sede,
não deixaria de ser notado por Deus e ser abençoado física e espiritualmente”
(CHAMPLIN, p. 371).
Nota-se, nesse texto de Mateus 10.40-42, uma escala descendente, segundo Champlin:
1. Receber um profeta; 2. Receber uma pessoa justa; 3. Receber um “pequenino”.
Entretanto, analisando o texto, a escala seria:
1. Receber Jesus Cristo; 2. Receber um profeta; 3. Receber uma pessoa justa; 4. Receber um “pequenino”/discípulo.
O galardão (= a recompensa) será dado àqueles que receberem e servirem
a Jesus Cristo, porque é em seu nome que os discípulos agem e, recebendo a ele,
recebe-se o próprio Deus.
3 Meditação
“Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que
me enviou” (Mt 10.40). Todos nós que somos os fi éis discípulos e testemunhas
de Jesus Cristo são englobados nessa expressão de proteção e encorajamento de
Jesus Cristo. Jesus sabia que muitos não receberiam seus discípulos, que muitos
iriam apontar dedos acusando-os (Mc 14.66s). Nos primeiros séculos da fé
cristã, não foi diferente. Muitos cristãos não foram recebidos, muitos morreram.
Os anos passaram e, ainda hoje, é um desafi o, especialmente nas cidades, ser
recebido para evangelizar, para ter um pouco de atenção das pessoas que são ounão cristãs. Devemos levar em consideração que essa palavra de Jesus também
pode significar que é necessário recebê-lo em nosso coração e em nosso convívio
familiar.
uem receber um profeta, uma pessoa justa ou algum “pequenino” discípulotem a promessa da recompensa. “Quem recebe um profeta na qualidade de
profeta receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo na qualidade de
justo receberá a recompensa de justo” (Mt 10.41). Temos aí algo muito delicado
a tratar enquanto Igreja Evangélica de Confi ssão Luterana. O ser humano aspira
por poder, saber e ter. A competição é ensinada desde cedo e parece ser tratada
como normalidade. As crianças são educadas a fazer para poder receber. A teologia
da prosperidade vinga mundo afora. As pessoas estão carentes e acham que
tudo se resume numa troca. Acontece que Deus não faz trocas, não negocia. E
muitos ainda pensam que receber alguém renderá um benefício no futuro. Deus
salvou-nos por graça, e receber alguém em seu nome é resultado da gratidão. O
galardão, ou seja, a recompensa é andar diante de Deus com a consciência e o
coração limpos e certo de que está praticando seu discipulado. A recompensa será
como eu receber e tratar quem vem em nome de Deus.
Como reconhecer e receber um enviado de Deus? Será que essa não é a
pergunta de milhões de pessoas? Sempre houve profetas, mas entre eles houve
profetas falsos. O texto de Jeremias 28. 5-9 esclarece que a veracidade da profecia
é comprovada com o tempo: “O profeta que profetizar paz, só ao cumprir-se a
sua palavra, será conhecido como profeta, de fato, enviado do Senhor” (Jr 28.9).
Jesus nos alerta: “Acautelai-vos dos falsos profetas” (Mt 7.15); “...levantar-se-ão
muitos falsos profetas” (24.11); “Surgirão falsos cristãos e falsos profetas” (Mc
13.22). Também o apóstolo Paulo orienta: “...tais sãos falsos apóstolos, obreiros...”.
O verdadeiro profeta e cristão que deseja ser recebido e precisa entrar
nos lares e nas comunidades cristãs é aquele que ensina o puro e reto evangelho,
para o qual basta somente a Escritura, somente a graça, somente Jesus Cristo e
somente a fé.
Muitas pessoas já me disseram que não abrem as portas de suas casas por
ausa da insegurança, especialmente nas cidades. Cada ovelha deveria conhecer
seu pastor. Cada ovelha precisa receber o alimento que sua igreja oferece para
que outros profetas (e podem ser falsos) não os afastem com outras ovelhas para
outros pastos. Enquanto isso, há também pessoas tão frias e materialistas, que já
deixaram seu coração e sua fé esfriarem, que nem ouvem ou fazem de conta que
não ouvem quando Jesus bate à porta e deseja ser recebido em seu coração e em
suas casas. Onde está a insegurança? Parece que até queremos estar seguros de que
mandamos quando Jesus pode ou não entrar em nossa vida e na vida das outras
pessoas, esquecendo que Deus veio ao nosso encontro e nos alcançou por graça.
Havemos de esperar outra recompensa? Havemos de servir para receber
recompensa? A Escritura nos diz: “... mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna
em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23b). Não receber um dos “pequeninos”
de Jesus é desobedecer à sua ordem, o que implica pecado, e pecado é tentar viver
escondido de Deus, como fez Adão. E a Escritura adverte: “... o pecado não terá
domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14).Somos alcançados pela graça de Cristo, que morreu por nós. Então, como
fi cam nossas ações? O cristão sabe que “a fé é ativa no amor” (Gl 5.6). Por isso
nossas ações sempre precisam ser fruto de nossa fé em Jesus Cristo, que nos
ensinou como servir através dos diferentes dons. Todo cristão é chamado para
servir como resposta de sua alegria em saber que foi salvo gratuitamente através
de Cristo. Um gesto pequeno, como dar um copo de água, feito sem a intenção de
receber recompensa, pelo contrário, feito agindo em nome de discípulo de Jesus
Cristo, “Ele que vê tudo” saberá dar a recompensa. Enquanto isso, não precisamos
fi car ansiosos. Façamos tudo, em palavra e em ação, com moderação (Fp 4.5;
2Tm 1.7), e em nome de Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3.17).
“E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um desses pequeninos,na qualidade de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá
a sua recompensa” (Mt 10.42).
Ainda hoje temos realidades de seca, como da Palestina, e mesmo que
moremos em área privilegiada nem sempre temos coragem e disposição para dar
um copo d’água a alguém que vem de fora. Cada pessoa na comunidade é chamadaa servir e a dar do que tem. A água é o elemento básico, mas na comunidade
nem sempre temos pessoas dispostas a dar um pouco do que possuem em prol do
reino de Deus, do anúncio do evangelho. A vida perde sua dignidade na frente de
nossos olhos, sem que compartilhemos o que temos e sentimos.
É necessário que nos perguntemos que recompensa os pais e as mães têm
recebido dos fi lhos em sua velhice? Que recompensa têm recebido as crianças
amáveis, que são curiosas por natureza como um dia fomos, que nascem sem
saber se terão carinho, cuidado, proteção, alimento e educação? Que recompensa
tem recebido a pessoa honesta que vota, que paga os impostos, que conduz
sua família com fi delidade? Se olharmos a situação de cada pessoa/cidadão, com
certeza podemos concluir que falhamos, que não conseguimos por nossas forças
e capacidades controlar as carências e a corrupção, saciar a miséria e aliviar o
sofrimento de tantas pessoas e da criação de Deus. Assim chegamos à conclusão
de que somos, sim, instrumentos de justiça e misericórdia neste mundo, mas a
verdadeira recompensa é a vida eterna.
4 Imagens para a prédica
* Um dos textos que ajudará a ilustrar essa pregação é a parábola que Jesus
conta em Mateus 25.31- 46. Esse texto aparece só no Evangelho de Mateus,
assim como o evangelho indicado para o dia: Mateus 10.40-42.
* O livro Um olhar para o Vale 3, organizado por Osvino Toillier, tem uma
boa refl exão que poderá ajudar na mensagem do culto (veja p. 27).
5 Subsídios litúrgicos
Confi ssão de pecados:
Querido e misericordioso Deus, confessamos que deixamos a desejar em
receber tua palavra e os que o Senhor envia para nos anunciar o evangelho. Deixamos
a desejar quando, no dia-a-dia, esperamos recompensa. Somos fracos ao
tentar enganar as outras pessoas, querendo sempre vantagens para nós mesmos.
Pecamos quando não servimos em amor, quando negamos ajuda e quando não
amamos quem o Senhor confi ou aos nossos cuidados e para nossa companhia.
Pecamos quando não recebemos nossos familiares e irmãos da tua igreja. Falhamos
quando fechamos nosso coração para ti, quando ousamos o poder e aautossufi ciência. Ajuda-nos, Senhor! Tem misericórdia de nós e perdoa os nossos
pecados. Amém.
Bênção:
O Senhor derrame sobre ti a sua paz.
O Senhor te dê sensibilidade para perceber os dons ofertados a ti.
O Senhor te ensine a amar sem esperar recompensa.
O Senhor te ensine a servir com justiça e misericórdia.
O Senhor te acalme quando estiveres eufórico, achando que tudo depende
de ti.
O Senhor te ofereça segurança e fé.
O Senhor te carregue quando estiveres cansado.
O Senhor seja tua fortaleza e porto seguro nas horas de dor, dúvida e sofrimento.
O Senhor seja a fonte de alegria da tua vida e a razão para servi-lo.
O Senhor seja contigo em todos os teus caminhos, para todo o sempre.
Assim te abençoe o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo. Amém.
Bibliografi a
CAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. V. 1. São Paulo: Ed. Hagnos, 2002.
CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. V. 4. São Paulo: Ed. Hagnos, 2002.
TOILLIER, Osvino (org.). Um Olhar para o Vale: 100 Mensagens de Fé,
Esperança e Amor. 3.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004.
