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I. INTRODUÇÃO GERAL

Mais do que nunca, hoje somos convidados a refletir sobre a força da Palavra de Deus. Sabemos que o projeto do Pai é liberdade e vida para todos. E a Palavra é a ferramenta mais importante para chegarmos à realização desse projeto. Ela tem poder de libertar dos mecanismos de opressão, conduzindo as comunidades para fora, porque é a Palavra que mostra quem é Deus (I leitura). Ela, manifestada plenamente em Jesus, provoca as pessoas à decisão: a favor ou contra. Posicionando-se a favor, as pessoas vencem os riscos e superam os conflitos, fazendo crescer e frutificar o Reino (evangelho), que é tensão constante em direção ao mundo novo (II leitura).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 55,10-11): A Palavra que liberta e dá vida
A tônica do Segundo Isaías (Is 40-55) é o sentido de esperança que incute nos exilados em Babilônia, preparando as pessoas para o dia da libertação e do retorno à pátria. É por isso que o Segundo Isaías é também chamado de "livro da consolação de Israel". A tarefa desse profeta anônimo é suscitar esperança e confiança nos oprimidos e exilados.

Os dois versículos da liturgia de hoje são o final do Segundo Isaías. Por meio do profeta Deus garante que a libertação irá acontecer em breve, pois a Palavra de Javé não falha. Essa Palavra é comparada à chuva e à neve que, antes de evaporar, fornecem condições de vida à terra, pondo em movimento o ciclo da vegetação e da vida.

A imagem é muito eloqüente, sobretudo se levarmos em conta as condições climáticas de Israel. Durante o período da seca (junho-outubro) tudo se torna árido e a maior parte da vegetação morre por falta de água. Ao iniciar o período das chuvas, tudo renasce e volta à vida.

Na concepção dos semitas daquele tempo, a água tem uma força capaz de fecundar a terra (o texto diz, literalmente, que a água "engravida" o solo). Ela é princípio de vida, desencadeando o ciclo dos vegetais e das colheitas que proporcionam alimento e vida (v. 10). O Segundo Isaías utilizou uma imagem arcaica do ciclo de fecundação da natureza dos cultos cananeus, onde a chuva era considerada o elemento masculino (esperma) da divindade, capaz de fecundar a terra, o elemento feminino.

Para esse profeta anônimo, a verdadeira força capaz de gerar vida para um povo estéril e exilado é a Palavra de Javé. Essa Palavra é muito mais que um som vocálico, pois manifesta a própria essência de Deus: ele fala libertando. De fato, a Palavra (dabar, em hebraico) na mentalidade semita é bem mais que a pronúncia de sons; esse termo significa o que está por detrás, ou seja, o coração, a força, a essência de quem fala. A Palavra de Javé, portanto, é a própria essência de Deus que age nos acontecimentos, transformando tudo em libertação e vida. Ele é capaz de, mediante sua Palavra, criar o mundo, pondo ordem no caos (cf. Gn 1). Muito mais agora, quando o povo vive uma situação de morte (exílio), bem pior que a terra árida, sua Palavra fecundará novamente a vida desse povo, resgatando-o da situação de não-vida em que se encontra.

A Palavra de Javé realizou o que anunciava. Mais uma vez demonstrou que Javé é o Deus libertador pois, passado algum tempo, o povo voltou à terra e à vida. Contudo, a libertação do exílio era apenas um germe que anunciava e preparava a plenitude dos tempos: "A Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio do dom da fidelidade" (Jo 1,14).

2. Evangelho (Mt 13,1-23): Ouvir e compreender a Palavra em meio aos conflitos
O cap. 13 de Mateus é o início do discurso do terceiro livrinho, cujo tema é o mistério do Reino. Lendo essa parte de Mt sentimos que, por trás de tudo, está o tema do conflito entre Jesus (o mestre da justiça) e as lideranças político-religiosas do tempo (responsáveis pela injustiça que gera a morte do povo). É sob essa ótica que devemos ler a parábola do semeador. Além disso, é preciso ter presente a situação de crise vivida pelas comunidades da Síria e do norte da Palestina (de onde surgiu o evangelho de Mt) da época em que esse evangelho foi escrito: situação de conflito externo com o judaísmo ortodoxo e situação de desânimo dentro das comunidades que, desalentadas pela difícil expansão da Palavra, tendem ao relaxamento.

Mateus situa as parábolas do cap. 13 no mesmo contexto da polêmica do cap. 12, usando a expressão "Naquele dia" (13,1). Jesus sai de casa e vai sentar-se junto ao mar. Sendo cercado pelas multidões, começa a falar em parábolas, que revelam o que é o Reino de Deus. Depois dessa breve introdução, o texto de hoje pode ser dividido em três blocos:

a. A semente do Reino da justiça vai vingar, apesar das dificuldades (vv. 3b-9)
A insistência da parábola, dita do semeador, é posta, de fato, na semente. A parábola tem dois níveis de compreensão: o primeiro se refere à prática de Jesus: como irá instaurar o Reino de Deus diante de tanta rejeição? Como evitar o fracasso? O segundo nível está relacionado com as crises das comunidades siro-palestinenses, berço do evangelho de Mateus. Elas se perguntavam: se o Reino de Deus está no nosso meio, como explicar os fracassos e conflitos?

A parábola da semente quer responder a essas questões. Em primeiro lugar, é bom recordar o óbvio: a semente possui em si todos os germes de vida. Assim é a Palavra de Jesus. Assim é sua prática de justiça: leva à vida, aos frutos. Jesus é o semeador generoso que não esconde a semente (Palavra). Apesar do aparente fracasso, diante de tanta rejeição, o sucesso da colheita será garantido. Há forças contrárias que abafam o poder de vida da semente (pássaros, terreno pedregoso, espinhos), mas Jesus é como o experiente lavrador: sabe que, ao semear, um pouco se perde. Mas isso não conta diante do sucesso da colheita. As possíveis perdas são compensadas no produto abundante (na Palestina daquele tempo, o normal de uma colheita não superava a proporção de dez por um. Na parábola, essa proporção é incrivelmente maior). Além disso, a parábola revela uma característica das terras na Palestina: o terreno não é completamente cultivável. E o lavrador tinha que levar isso em conta. Mais ainda: na Palestina, semeava-se antes de lavrar a terra. Era compreensível, portanto, que o lavrador já desse por perdida parte da semente.

Às comunidades siro-palestinenses Mateus responde afirmando que o aparente fracasso é evitado semeando. As resistências existem, os conflitos se manifestam, mas a semente do Reino está destinada a produzir frutos. Com a justiça do Reino acontece o mesmo que aconteceu com o semeador: o sucesso da colheita virá passando pelo risco do insucesso e do fracasso. Tal é o desafio que Jesus lança aos cristãos: "Quem tem ouvidos, ouça!" (v. 9).

b. "Vocês são felizes" (vv. 10-17)
Entre a parábola e sua explicação há um diálogo de Jesus com os discípulos. A pergunta dos discípulos: "Por que usas parábolas para falar com eles?" (v. 10) revela a preocupação das primeiras comunidades cristãs e prepara a revelação definitiva de Jesus e seu projeto. A resposta de Jesus (vv. 11-15) denota que não há cisão entre o que ele diz e faz. E só há uma forma de compreender os mistérios do Reino (= a prática de Jesus): tornando-se seu discípulo. Só quem o aceita como o Messias é que reconhece em sua prática o projeto de Deus se realizando. A ação de Jesus provoca o julgamento de Deus: quem se posiciona a favor dele vai percebendo Deus agindo na história ("ao que tem será dado ainda mais, será dado em abundância", v. 12a); quem o rejeita vai perdendo aos poucos não só a percepção do Deus que age nos acontecimentos bons ou ruins, como também a própria capacidade de um compromisso maior ("do homem que não tem, será tirado até o pouco que tem", v. 12b).

Os vv. 14-15 citam Is 6,9-10 e confirmam o que foi dito até agora. Quem não adere a Jesus e sua prática se torna insensível, porque não tem o senso das coisas que tem Jesus. Essa insensibilidade no ouvir, ver e compreender tem sua raiz mais profunda na insensibilidade do coração, sede da consciência e das opções de vida. Ao endurecimento do coração (= rejeição de Jesus) segue-se o fechar os olhos e ouvidos, culminando na incompreensão. Só uma grande sensibilidade em relação à prática de Jesus será capaz de reverter esse processo de rejeição. E essa sensibilidade não descarta a possibilidade do risco e do fracasso.

O v. 16 proclama a bem-aventurança dos que, desde agora, vêem e entendem, ou seja, fizeram o discernimento e superaram a crise, o risco e o fracasso. Estes são mais felizes do que os profetas e justos que ansiaram por este momento (v. 17). Profetas e justos são duas dimensões do povo de Deus, e ambas fazem pensar num único tema: a justiça. De fato, a busca da justiça foi a mais importante causa dos profetas. Em Jesus essa causa chegou ao ponto mais alto. E são felizes os que, descobrindo nele a realização do projeto do Pai, se comprometem fielmente com a causa da justiça.

c. Compreender a Palavra nos conflitos (vv. 18-23)
A explicação da parábola desloca a atenção da semente para o tipo de terreno. Com grande probabilidade, essa explicação é uma adaptação pastoral da parábola à crise das comunidades siro-palestinenses, ameaçadas de desânimo. Se até agora o foco de atenção se concentrava nos conflitos externos às comunidades, a partir daqui procura-se olhar para dentro. Em outras palavras, Mateus pergunta às comunidades: "E vocês, como acolhem a Palavra de Jesus? Será que vocês ainda mantêm seu compromisso com a justiça do Reino? Que tipo de terreno são vocês? Quais os obstáculos que vocês põem à Palavra?"

O primeiro obstáculo é a superficialidade ou a insensibilidade (estrada de chão batido, onde a semente não nasce). A opção por Jesus não foi suficientemente forte a ponto de "amolecer" a insensibilidade; não atingiu a profundidade, ficou só na superfície. O Maligno rouba e leva embora (v. 19).

O segundo obstáculo são as perseguições (vv. 20-21). Diante delas surge facilmente o desânimo. Não se trata, todavia, de qualquer tipo de perseguição. São as perseguições "por causa da Palavra". É o testemunho que provoca conflito e rejeição, exatamente como aconteceu com Jesus.

O terceiro obstáculo é caracterizado como "as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza" (v. 22). Isso denota que o cristão vive num contexto concreto: em meio a estruturas políticas e econômicas que fascinam e seduzem. Elas têm poder de anestesiar (sufocar), de tornar estéril e ineficaz o poder da Palavra.

O tipo de cristão ideal é identificado com o terreno bom (v. 23). Ele compreende a Palavra; e porque assim age é terra boa. É a única alternativa para o ser cristão. Será que ele compreende a Palavra porque é bom terreno, ou é bom terreno enquanto vai compreendendo a Palavra e a faz frutificar? Cuidado, portanto, para não cair no determinismo. Devemos ser bons para acolher a Palavra, ou começamos a ser bons quando a acolhemos e a pomos em prática?

3. II leitura (Rm 8,18-23): Rumo ao mundo novo
O capítulo 8 de Romanos explica o que é a vida no Espírito. Para isso, Paulo apresenta os dois princípios que orientam a vida do cristão: o Espírito que comunica a vida (vv. 1-13) e o fato de sermos filhos de Deus (vv. 14-30). Os versículos da liturgia de hoje pertencem ao segundo princípio orientador da vida do cristão.

Paulo corrige uma distorção de forte impacto sobre a comunidade. Eles se deixavam guiar pela idéia de que somos todos devedores do fatalismo, vítimas do destino. Paulo afirma que, por causa da morte-ressurreição de Jesus e da efusão do Espírito Santo, todos poderão ter acesso ao projeto de Deus, que é liberdade e vida. Não somos, portanto, escravos do fatalismo. Desde já possuímos os primeiros frutos do Espírito (v. 23a). Abre-se, pois, para os cristãos, uma perspectiva nova: a da vida no Espírito de Jesus, que levará à plenitude a sua obra.

Mas os cristãos de Roma viviam tempos de crise e sofrimento. E se perguntavam: Se Jesus é o Salvador, por que temos de sofrer? Por que a libertação não se concretiza para nós? Paulo lhes mostra que ser cristão é viver em tensão para o futuro da humanidade e do universo em Deus. Essa tensão se manifesta agora, nos sofrimentos da comunidade, como anseio de libertação (v. 18). Manifesta-se também na própria criação, que aguarda a revelação dos filhos de Deus (v. 19).

A tensão para o mundo novo, para o projeto de Deus, é descrita por Paulo com a imagem do parto. A criação e os filhos de Deus sentem constantemente as dores do parto. A natureza e a humanidade estão envolvidas nesse processo de dar à luz o mundo novo, o projeto de Deus. Portanto, pensa Paulo, o sofrimento presente não é estéril quando entendido como parto do mundo novo. A filiação divina e a vida no Espírito não dispensam o cristão de viver em contínua tensão pela vida, pela transformação e libertação definitivas; pelo contrário, ser filho de Deus e possuir os primeiros frutos do Espírito é gerar e dar à luz constantemente o mundo novo.

O que possuímos desde já são as primícias (primeiros frutos) do Espírito. Essas primícias prometem boa colheita e garantem que os frutos do Espírito são da melhor qualidade. Contudo, não se chega lá sem esforço, nem o Espírito gera o mundo novo sem a nossa participação. A libertação dos filhos de Deus passa pelo esforço (dores de parto) dos que lutam por um mundo novo e libertado.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

. A Palavra é fonte de vida e libertação. Por ser Palavra de Deus, tem força para fazer pessoas e comunidades saírem de todas as formas de escravidão e exílio, conduzindo à liberdade e vida (I leitura).

. A Palavra suscita conflitos porque revela a prática de Jesus, que fala libertando. A Palavra provoca confrontos: os que não são a favor da vida para todos a rejeitam, sufocam e tentam eliminar os que amam e vivem a Palavra (evangelho).

. Ser filho de Deus não é fugir dos confrontos, conflitos, sofrimentos e perseguições. Os obstáculos que o projeto de Deus encontra são como as dores do parto: se por um lado seria confortável evitá-las, por outro são certeza de que a vida está se manifestando e nada poderá interromper seu curso (II leitura).

Fuente: Revista Vida Pastoral - Pe. José Bortolini

 




 
 
 

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