
La Red de Liturgia es una iniciativa latinoamericana que nace en 1991 de la mano del pastor brasileño Ernesto Barros Cardoso, como una manera de crear lazos firmes entre las personas que deseaban compartir sus experiencias en este terreno de la vida eclesial.
18º DOM. COMUM (31 de julho)
O BANQUETE DA VIDA
I. INTRODUÇÃO GERAL
Deus destinou os bens da criação para todos. Mas uns poucos se apoderaram deles, conservando os demais sob férrea dependência, incapazes até de ter acesso aos bens básicos da vida. O banquete da vida se tornou privilégio de poucos, que vivem às custas do sangue dos pobres explorados.
Deus subverte essa situação, convidando os pobres explorados a sair da dependência e a saborear o banquete da vida, na liberdade e fraternidade, onde o comércio é substituído pela partilha dos bens da criação. Dessa forma inicia o novo êxodo do povo de Deus em direção ao mundo novo. Jesus deu a esse mundo novo sua forma definitiva, convidando as pessoas a lutar para que ele se concretize no meio de nós.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 55,1-3): Venham ao banquete da vida!
O texto pertence ao Segundo Isaías (Is 40-55). O povo de Deus está exilado na Babilônia. Baseados no v. 1 podemos descobrir a situação do povo ao qual esse profeta anônimo se dirige. É uma situação de carência absoluta (sede), de plena dependência econômica (sem dinheiro), de total ausência dos bens básicos. É um povo que passa fome, que luta pela sobrevivência, sem condições de satisfazer as necessidades básicas. Enquanto isso, as elites vão estrangulando a população, mantendo e aumentando a dependência.
Um profeta anônimo, que nós chamamos de Segundo Isaías, sai às ruas e, imitando os vendedores ambulantes de água, cereais, vinho e leite, convoca o povo faminto, apresentando-lhe a grande novidade: Venham matar a sede, comprar sem ter dinheiro, comer sem pagar, beber vinho e leite à vontade! É o convite para os pobres ao banquete da vida e da abundância. É o convite a se desfazer do jugo da dependência e submissão, a experimentar a gratuidade da libertação do fardo econômico dos poderosos exploradores. Continuar na dependência é gastar dinheiro com aquilo que não alimenta e desperdiçar o salário com alimento que não mata a fome (v. 2a).
Quem é que oferece esse banquete da vida e abundância, banquete gratuito, reservado aos pobres, sedentos, famintos e explorados? É Javé que, por meio do profeta, suscita a memória da Aliança selada com Davi, o rei que favoreceu a vida em abundância para o povo (v. 3b). Javé vai renovar os bons tempos de fartura porque seu pacto com o povo é uma Aliança eterna. Essa Aliança levará o povo de volta a seu país, “terra onde corre leite e mel”, restabelecendo-o no seu chão, em paz e segurança. O banquete, portanto, é bem mais do que simples refeição abundante de um só dia, depois do qual o povo irá amargar novamente a fome, sede e exílio. É o banquete da vida em liberdade, da terra repartida, da moradia garantida, da saúde, da paz e bem-estar.
Com qual convicção o Segundo Isaías afirma isso? Ele chega à coragem de proclamar essa boa notícia baseado em duas experiências: a do povo que sofre e clama, e a experiência de Javé, o Deus da Aliança, o Deus libertador, que não tapa os ouvidos aos clamores do povo por vida e liberdade. Convidando o povo a escutar e prestar atenção (isto é, a fazer memória do Deus que liberta e salva), o profeta tem certeza de que a libertação não tardará, que a vida irá renascer: “Prestem muita atenção, e então vocês poderão comer bem, saborear pratos deliciosos e bem preparados! Escutem e venham a mim! Queiram ouvir-me, e vocês terão a vida!” (v. 2b).
2. Evangelho (Mt 14,13-21): O banquete da vida
Mateus 13,53 a 18,35 constitui o quarto livrinho desse evangelho, com a parte narrativa (13,53-17,27) e o discurso (cap. 18). O tema central da parte narrativa, de onde foi tirado o texto deste domingo, é este: o seguimento do Mestre da justiça. A impropriamente chamada primeira “multiplicação dos pães” é, pois, uma catequese sobre o seguimento de Jesus, o Mestre da justiça que, com sua prática (e a nossa), faz acontecer o Reino.
O texto de hoje começa dizendo que “quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barca para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Essa informação de Mateus é importante porque associa, por contraste, o que virá ao que precedeu. É bom, portanto, que nos detenhamos um pouco no episódio anterior (14,1-12). Herodes celebra um banquete com seus oficiais, no dia de seu aniversário. É o banquete dos poderosos (Herodes personifica o poder tirano) que buscam ter vida matando a esperança do povo, João Batista (cf. v. 5: “o povo considerava João Batista um profeta”). O banquete de Herodes com seus oficiais demonstra o que os poderosos entendem por vida, e como garantem para si vida em abundância. Por isso, a corte de Herodes é o lugar onde se decreta, por pressões, jogos de interesse, caprichos e convenções, a morte das esperanças populares. O banquete de Herodes é um banquete de morte.
Diante disso Jesus se retira a um lugar deserto. A menção do deserto evoca a idéia do êxodo, onde nasceu e se forjou a sociedade alternativa (compare com 3,1 e 4,1-11). A partir do deserto Jesus irá inaugurar o mundo novo, dando vida ao povo, em vez de sufocá-la e eliminá-la. O povo, vendo Jesus partir de barco, sai das cidades e o segue por terra (v. 13b). Essa alusão à saída das cidades completa a idéia do êxodo: o povo quer se livrar das cidades onde impera o domínio de Herodes e de seu sistema explorador.
Ao se encontrar com o povo, Jesus reage compadecendo-se (= sofrer com quem sofre). Essa reação contrasta com a de Herodes que mata João Batista, esperança do povo. Jesus não tira a vida, mas defende-a, curando os que estavam doentes (v. 14). Devolve, portanto, esperança e vida às massas.
Passada a hora da refeição, os discípulos sugerem que Jesus despeça o povo, a fim de que possa ir aos povoados comprar comida (v. 15). Comprar significa voltar àquela sociedade que explorava o povo com suas leis econômicas, conservando-o na miséria e dependência. Jesus quer quebrar esse sistema de dependência. Ao “comprar” contrapõe o “dar”: “Eles não precisam ir embora. Vocês mesmos lhes dêem de comer” (v. 16). Aqui se concentra uma das idéias revolucionárias do ser cristão: encontrar formas alternativas capazes de quebrar os mecanismos de dependência das estruturas iníquas que mantêm o povo submisso e algemado.
A reação dos discípulos parece ser de impotência: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17; o v. 21 ajuda a salientar a desproporção: havia ali mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças).
Jesus recolhe toda a provisão (v. 18) e ordena que o povo sente no chão para comer (v. 19a). Sentar para a refeição era gesto de pessoas livres. A partir desse momento o povo não será mais um povo dependente e submisso. Jesus pega os cinco pães e os dois peixes, ergue os olhos ao céu e pronuncia a bênção (v. 19b). Ele assume a função do pai de família, iniciando assim a oração de agradecimento. Forma-se, nesse campo aberto, uma grande e única família, cujos membros, sem exceção, estão com fome. De fato, a fome não faz diferença de raça, cultura etc.
Como pai da grande família, Jesus agradece a Deus o pão. Com esse gesto reconhece que o pão é dom de Deus para todos, desvinculando-o da submissão àqueles que detêm o poder e o monopólio sobre os bens de primeira necessidade. O alimento entra, assim, na esfera da gratuidade. Deus o concede gratuitamente, e partilhá-lo é prolongar a gratuidade e generosidade divinas. Com isso o pão é libertado do egoísmo humano, deixando de ser objeto de lucro e exploração para se tornar gesto de partilha e fraternidade, gesto gratuito. A gratuidade vem de Deus, por Jesus, e se prolonga na ação de partilha dos discípulos, que põem tudo à disposição (v. 19c). Se uma pessoa da minha família passa necessidade e tem fome, será que poderei continuar indiferente?
O texto afirma que todos comeram e ficaram satisfeitos (v. 20a). Cumpre-se, assim, a bem-aventurança: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (5,6). Mais ainda: as sobras, doze cestos (número simbólico que recorda as doze tribos de Israel, isto é, todo o povo), estão a indicar que o verdadeiro milagre é a partilha, capaz de saciar um povo inteiro. O amor traduzido na partilha de tudo garante a abundância dos bens capaz de suprimir as desigualdades de uma sociedade injusta e gananciosa.
Podemos, então, entender melhor por que Jesus rejeitou a tentação de resolver a questão da fome com um passe de mágica, um milagre (cf. a tentação de Jesus em Mt 4,3). A solução para o problema da fome não está num milagre (econômico ou religioso), pois Jesus rejeitou essa tentação. O verdadeiro milagre é o da distribuição e partilha dos bens da criação. Esse “milagre” não é difícil nem impossível, pois os pobres e Jesus já o estão realizando!
O texto de hoje é também uma tênue referência eucarística (v. 19) enquanto gesto gratuito de Deus, enquanto refeição de um povo livre, capaz de saciar a todos. Lida dentro do contexto de hoje, reveste-se da força do alimento libertador. Cabe perguntar-nos se não é hora de redescobri-la como memorial de libertação para a nova sociedade, baseada na solidariedade e partilha, e não como mero rito.
3. II leitura (Rm 8,35.37-39): Nada nos poderá separar do amor de Cristo
Há vários domingos temos como II leitura o cap. 8 de Romanos. Nele Paulo apresentou os dois princípios básicos que orientam o ser cristão: o Espírito que comunica vida (vv. 1-13) e a filiação divina do cristão (vv. 14-30). Os demais versículos (31-39) são um hino ao amor de Deus manifestado na morte-ressurreição de Jesus e no fato de, mediante o Evangelho e o batismo, adotar-nos como filhos seus. Os versículos de hoje pertencem a esse hino. Eles nos comunicam a certeza de que o amor de Deus em relação a nós é indestrutível, e preparam o cristão ao testemunho desse amor em meio à sociedade que hostiliza os que se comprometem com Jesus.
O texto de hoje se abre com uma pergunta corajosa: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35a). Segue-se uma série de obstáculos ou, se quisermos, de conseqüências que o cristão enfrenta para viver o projeto de Deus. Esses obstáculos são modos de repressão da sociedade injusta que perseguiu Paulo e os cristãos: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada (v. 35b). Nota-se aí um crescendo que vai da tribulação ao perigo fatal: a morte pela espada. Talvez seja possível detectar as etapas desse processo. As três primeiras (tribulação, angústia, perseguição) marcaram grande parte das viagens de Paulo. O anúncio do Evangelho acarretou-lhe sistematicamente perseguições por causa da Palavra. As duas seguintes (fome, nudez) revelam a situação de Paulo nas constantes prisões que enfrentou. As duas últimas (perigo, espada) apontam para a consciência do fim trágico: cedo ou tarde seu sangue será derramado.
Paulo escreve aos romanos durante a terceira viagem (por volta do ano 56), em Corinto, quando já se considerava prisioneiro do Senhor (2Cor 11,23-28 traz um elenco bem mais amplo dos perigos que enfrentou).
Possuir o Espírito e ser filho de Deus acarreta uma luta constante contra as forças que tentam sufocar o projeto de Deus. Ser cristão é estar em pleno campo de batalha, mas com consciência e atitude de vitorioso: “Em tudo isso somos mais que vencedores (literalmente supervencedores), graças àquele que nos amou” (v. 37). Não se trata de aguardar uma vitória futura e distante, mas ser já vencedor em meio aos conflitos presentes e futuros. A razão disso é o amor de Deus que, em Cristo morto e ressuscitado, venceu definitivamente o poder hostil e injusto. A luta dos cristãos é uma supervitória!
Os vv. 38-39 continuam descrevendo a consciência do cristão diante das forças hostis. A certeza de Paulo é que nada nos poderá separar do amor de Deus: vida-morte são dois extremos, e isso mostra que o amor tem força para vencer a morte e renovar a vida para sempre; anjos e soberanias são categorias superiores; nenhuma “força superior” é capaz de vencer a força do amor; presente e futuro são categorias temporais: não conseguirão anular esse amor; forças, altura e profundidade são energias cósmicas misteriosas e hostis à pessoa: não poderão resistir diante do amor. Paulo conclui: nada e ninguém (= nenhuma criatura) poderá nos separar do amor de Deus que está presente em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39b).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Deus tem uma proposta de liberdade e vida para os oprimidos de todos os tempos (I leitura e evangelho), convidando-os a sair do exílio e da dependência dos que vivem à custa de explorar o povo. Essa proposta de vida nasce e cresce na partilha dos bens da criação. Quando partilhamos esses bens (terra, moradia, saúde, educação, comida) é possível saciar a todos e ainda sobrar.
Quem toma consciência disso e age para esse fim torna-se profeta da esperança (I leitura) e missionário do mundo novo, enfrentando com consciência de vitorioso os obstáculos (II leitura).
A Eucaristia, nesse sentido, é o memorial da vida nova inaugurada por Jesus. Celebrá-la é tomar consciência disso, fazendo tudo o que for possível para construir uma sociedade justa, fraterna e igualitária. Cabe, portanto, uma pergunta: Qual a boa notícia que anunciamos aos milhares de pobres que freqüentam nossas celebrações? Como fazer para não frustrar suas esperanças?