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II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 22,19-23): O exercício do poder em vista do bem comum
Em Isaías há um único oráculo contra uma pessoa (22,15-23). Essa pessoa é Sobna, provavelmente um estrangeiro que chegara ao cargo mais elevado após o do rei: o de administrador do palácio real, no tempo de Ezequias, rei de Judá. O administrador do palácio era uma espécie de primeiro-ministro, função que correspondia à do vizir egípcio (a de José, administrador do palácio do faraó, cf. Gn 41,40). Tinha o encargo de "abrir e fechar" as portas da casa do rei. Era, portanto, cargo de confiança e administração.
Num tempo em que a população de Jerusalém passa por momentos de crise, Sobna se ocupa em construir para si um túmulo de luxo, cavado na rocha (v. 16). Esse fato serviu para que Isaías se enfurecesse e, em nome de Javé, decretasse a perda do cargo (v. 19), prevendo que Sobna iria morrer sem sepultura e sem memória (vv. 17-18). De fato, os túmulos tinham (e ainda têm) a função de perpetuar a memória de seus inquilinos, relembrando, com sua suntuosidade e luxo, a importância de quem aí está enterrado.
Para Isaías, a memória do administrador presunçoso e megalômano não deve subsistir. Nem pode perpetuar-se no poder e no abuso, visto que o poder, quando tem um só beneficiado, é um poder iníquo. Por isso Sobna é substituído por Eliacim, filho de Helcias (v. 20), que recebe as insígnias (túnica e cinto, v. 21a). A forma como isso se realiza mostra claramente que é Deus quem delega o exercício de funções e cargos, a fim de que o investido seja "um pai para os habitantes de Jerusalém" (v. 21b), e não um tirano ou déspota. O exercício do poder é, portanto, delegação para o bem comum. Quando perde essa característica torna-se tirania, e o próprio Deus decreta a ilegitimidade desse poder. Isto é mais que desobediência civil, é decretação da inexistência de tal poder. Grave advertência para todos nós que, mediante o voto, periodicamente escolhemos os que administram a coisa pública. Nessa escolha, temos discernimento profético como Isaías?
O novo empossado terá plenos poderes (vv. 22-23) e seu poder reviverá os bons tempos da administração de Davi. Será um poder firme, como um prego que se crava num lugar seguro, porque tem o respaldo e a delegação de Javé.
O Novo Testamento aplica esse poder ao Messias (Ap 3,7). O evangelho de hoje se inspira na metáfora das chaves para mostrar que Jesus delega a Pedro e à comunidade cristã a função de administrar para que a sociedade e a humanidade toda encontrem formas de ação que impeçam o poder da morte. Isto porque o projeto de Deus é vida para todos. E a única memória que merece ser recordada é a do bem que supera o mal.
2. Evangelho (Mt 16,13-20): A missão de quem reconhece Jesus
O trecho de hoje tem apresentado algumas dificuldades de ordem literária (isto é: a questão do "primado" remonta a Jesus ou à comunidade primitiva?), de ordem exegética (ligada à interpretação da metáfora pedra-chaves e ao binômio ligar-desligar ) e de ordem teológica (a eclesiologia do trecho, a eclesiologia de Cristo e a eclesiologia de Paulo: "Ninguém pode colocar um alicerce diferente daquele que já foi posto: Jesus Cristo", cf. 1Cor 3,11). Deixando à margem essas questões, conduziremos nossa reflexão na ótica da função de quem reconhece Jesus enquanto o Messias, o Filho do Deus vivo.
O texto de hoje pertence a uma seção maior, que provavelmente se prolonga até o v. 28. É dentro desse contexto que Pedro recebe a revelação de que Jesus é o Messias. Contudo, o que Pedro vê em Jesus não é fruto de mera especulação, pois o messianismo de Jesus passa pela rejeição e morte. Pedro, pedra sobre a qual Jesus edificará a sua Igreja, torna-se pedra de tropeço (Satanás), porque não pensa as coisas de Deus; ao contrário, está agarrado à mentalidade da sociedade estabelecida que levará Jesus à morte (vv. 21-23). A seguir, Jesus mostra as conseqüências para quem reconhece que ele é o Messias (vv. 24-28). Em síntese, o reconhecimento de Jesus-Messias conduz ao testemunho e à cruz. O processo de Pedro é um processo de conversão que o leva a identificar sua vida com a do Mestre.
a. Quem é Jesus? (vv. 13-16)
Jesus e os discípulos estão no território de Cesaréia de Filipe, região habitada por gentios. Esse lugar recorda o início da atividade de Jesus e seu objetivo primeiro (cf. 4,12-17). Jesus leva seus discípulos para longe do centro do poder político, econômico e ideológico (a "justiça" que exclui do Reino; cf. 5,20). Cesaréia de Filipe é uma espécie de "periferia". É a partir dessa realidade que os discípulos são estimulados a dar uma resposta plena de quem é Jesus. O episódio tem dois momentos. No primeiro, Jesus pergunta aos discípulos o que as pessoas dizem a respeito dele (v. 13). A resposta revela a diversidade de opiniões, todas insuficientes para responder à pergunta: "Quem é Jesus?" Ele é visto como simples precursor dos tempos messiânicos. Percebe-se que circula na sociedade uma imagem distorcida de Jesus, exatamente por causa de sua humanidade. Ele se apresenta como "Filho do Homem", título que o situa no chão da vida de todos os mortais: ele é carne e osso como qualquer de nós. E justamente por isso é que começam as distorções: "Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas" (v. 14).
No segundo momento, Jesus interpela diretamente os discípulos que haviam visto sua luta para implantar a justiça do Reino: "Para vocês, quem sou eu?" (v. 15). A resposta de Pedro mostra quem é Jesus: o Messias (Cristo), o Filho do Deus vivo (v. 16). Essa resposta é um dos pontos altos do evangelho de Mateus, cuja preocupação é a de apresentar Jesus enquanto o Emanuel (= Deus conosco) e o Salvador (Jesus = Deus salva; cf. 1,25). Jesus é a realização das expectativas messiânicas, o portador da justiça que cria sociedade e história novas.
b. A comunidade nasce do reconhecimento de quem é Jesus (vv. 17-18)
Reconhecer Jesus, assim, é ser bem-aventurado, porque através dele o cristão mergulha no projeto de Deus realizado em Jesus (v. 17). Ninguém chega a entender "quem é Jesus" a não ser mediante o compromisso com suas propostas, que são as mesmas do Pai: a justiça que faz surgir o Reino em nosso meio.
O reconhecimento de Jesus não é fruto de especulação ou de teorias sobre ele, e sim de vivência do seu projeto (prática da justiça). É a partir de pessoas que o confessam, como Pedro, que nasce a comunidade (v. 18a). Essa confissão é forte como a rocha. Porém não é fácil confessar. Jesus mostra que a comunidade cresce e adquire corpo em meio aos conflitos (as portas do inferno, ou "o poder da morte"), onde forças hostis procuram derrubar o projeto de Deus.
Jesus confia grande responsabilidade de liderança a quem o confessa como Messias. Qual é a função dessa liderança? Em primeiro lugar, conservar, em meio aos conflitos que a fé provoca, a firme convicção de que o projeto de Deus irá triunfar (o poder da morte não vai vencer). Em segundo lugar, mediante o contínuo processo de conversão-confissão, testemunhar que a salvação e a vida provêm de Deus. O aspecto da conversão está bem demonstrado nos vv. 21-23, onde Jesus mostra como realiza seu messianismo, através do sofrimento, rejeição e morte; e Pedro, antes pedra de edificação, se torna Satanás, pois propõe um messianismo alternativo, já rejeitado por Jesus no episódio das tentações (cf. 4,1-11, especialmente os vv. 5-6). A conversão de Pedro (e dos cristãos) é a conversão ao Cristo que luta pela justiça do Reino e por isso sofre, é rejeitado e morre. Confessar é aderir a ele, com todas as conseqüências que a prática da justiça acarreta. Simão Pedro — e com ele a maioria das pessoas — gostaria que Jesus fosse do jeito que ele quer. O Mestre não é do jeito que nós imaginamos. Mais ainda, pelo fato se ser o Mestre, quer que nós sejamos do jeito que ele é.
c. O projeto de Deus continua na comunidade (vv. 19-20)
Jesus realiza o projeto de Deus (é o Messias) num contexto de conflitos e violência, passando pela morte e vencendo-a. Seu messianismo é uma luta constante em favor da justiça do Reino e contra as injustiças que promovem a morte. E o cristianismo, o que é? É o prolongamento da ação de Cristo que promove a justiça e a torna possível. O poder de Jesus é um poder que comunica vida. Sua prática o demonstra. Seu nome o comprova. Ora, ele quer como seus colaboradores aqueles que estão dispostos a confessá-lo, pois a partir desse testemunho é que nasce a comunidade de Cristo (construirei a minha Igreja). Jesus faz suas testemunhas participarem do seu poder de vida (darei as chaves do Reino do Céu).
Os projetos de morte têm poder, mas é um poder relativo. A comunidade de testemunhas do Cristo, por seu lado, também possui poder, que é o mesmo do Cristo. Quando o testemunho cristão é pleno, é o próprio Jesus quem age na comunidade, permitindo-lhe ligar e desligar. Contudo, a comunidade não é proprietária do poder de Jesus. É ele quem construirá e dará do que é seu. A comunidade administra esse poder a partir do testemunho que vive e anuncia. Assim agindo, demonstra quem é a favor e quem é contra Jesus.
O texto fala de Pedro e de sua liderança na comunidade. Qual é a função dessa liderança? É ser o ponto de união da comunidade que Cristo edificou com sua vida, morte e ressurreição. É organizá-la para que seja a continuadora do projeto de Deus. É ser aquele que — a partir da prática do Mestre — leva a comunidade ao discernimento e aceitação daquilo que promove a vida, e da rejeição de tudo o que patrocina e provoca a morte.
O trecho termina com a proibição aos discípulos de divulgarem que Jesus é o Messias (v. 20; a formulação completa está na confissão de Pedro, v. 16). Por que Jesus proíbe? Por duas razões: 1. Seu messianismo poderia ser erroneamente entendido, como se fosse algo de nacionalista e violento. De fato, no tempo de Jesus não havia consenso sobre o perfil do Messias. A maioria acreditava num Messias tradicional, ligado às elites e comprometido com elas. Mas no meio do povo sempre existiu um perfil diferente, "popular" do Messias: alguém ligado com as causas populares, com a libertação e a vida do povo (cf. I leitura Is 22,19-23 ). 2. Não se tem acesso à compreensão do messianismo de Jesus se não houver um compromisso sério no seguimento e na identificação com seu projeto. Inútil querer saber quem é Jesus por meio de sentenças decoradas. Sabe-se quem ele é por revelação do Pai (dom) e pelo esforço contínuo de conformação a seu ideal de vida (compromisso com a prática da justiça).
3. II leitura (Rm 11,33-36): O amor de Deus é para todos
Nos capítulos 9-11 da carta aos Romanos Paulo tenta compreender, à luz do projeto de Deus, por que parte de Israel rejeitou o Evangelho. E tira algumas conclusões: 1. Embora parte de Israel não tenha aceito o Cristo, Deus não rejeitou aquele que foi, ao longo do Antigo Testamento, o povo eleito. A fidelidade de Deus permanece inalterada. 2. O chamado dos gentios à fé serve para estimular o ciúme de Israel (11,11). Ele é a raiz; os gentios, antes desobedientes, são enxertados na árvore do povo de Deus. 3. Deus tem diante de si a desobediência de Israel e a dos gentios: a ambas ele cobrirá com sua misericórdia e amor (v. 32).
O texto que lemos hoje é um hino de louvor ao projeto de Deus que envolve amorosamente a todos. Sua riqueza, sabedoria e ciência são abismais, a ponto de seu projeto ser insondável e seus caminhos impenetráveis (v. 33), pois a misericórdia divina supera infinitamente nossa capacidade de compreensão.
Paulo encontra em Is 40,13.18 uma comprovação bíblica para confirmar o que está dizendo (vv. 34-35). Mas a perplexidade diante da incapacidade de sondar os pensamentos de Deus se transforma em hino de louvor, em base à seguinte constatação: o Senhor nos salva não porque atingimos a plenitude do seu conhecimento, e sim porque sua misericórdia supera os limites dos nossos esforços. O projeto de Deus é salvar gratuitamente a todos, em Cristo.
O v. 36 ressalta o senhorio absoluto do Criador (tudo vem dele), que dá graciosamente vida e salvação a todos (tudo existe por ele), encaminhando a humanidade à comunhão com Deus (tudo existe para ele). A atitude fundamental do cristão é a do reconhecimento e louvor (a ele a glória pelos séculos). O Amém é assinatura de quem crê, espera e louva a misericórdia divina.
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