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(4 de setembro)
A DIFÍCIL ARTE DE SER JUSTO
Pe. José Bortolini


I. INTRODUÇÃO GERAL

Os seguidores de Jesus se reúnem para celebrar juntos a memória daquele que nos amou até às extremas conseqüências do amor: Jesus Cristo morto e ressuscitado, presente onde dois ou três se reúnem em seu nome. Os que se reúnem em nome dele buscam criar e expressar relações onde a única dívida a ser paga é a do amor, pois “amar é obedecer à Lei com perfeição” (II leitura). À luz da Palavra de Deus, os seguidores de Jesus aprendem a praticar a justiça do Reino na comunidade, fazendo de tudo para salvar o irmão (evangelho), pois a luta pela justiça é a carteira de identidade do profeta (I leitura).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ez 33,7-9): A luta pela justiça é questão de vida ou morte
Os três versículos lidos na liturgia deste domingo fazem parte de uma unidade maior dentro do livro de Ezequiel (caps. 33-39), cujo tema central é a ressurreição do povo que sofre. De fato, Israel está no exílio e é lá que Ezequiel se encontra com a missão de sustentar a esperança de seus compatriotas.
O início do cap. 33 marca nova etapa na vida do profeta, a quem Deus estabeleceu como sentinela para a casa de Israel (v. 7a). Trata-se de imagem bastante conhecida: a sentinela devia ficar no alto da muralha da cidade e vigiar, olhando ao redor e para o horizonte, a fim de alertar e prevenir a população diante dos possíveis perigos. Mas Ezequiel não é sentinela no sentido real do termo, pois nessa época o povo estava exilado na Babilônia. Ele não é o vigia que se posiciona sobre a muralha da cidade e espia o horizonte; ao contrário, seu lugar é no meio do povo e é daí que ele perscruta o horizonte da história, tornando-se, dessa forma, anunciador da restauração do povo exilado.
Qual é a função do profeta? Sua tarefa é ser “a boca de Deus”, alguém que alerta em nome de Deus (v. 7b). Seu papel é fortalecer a luta pela justiça e denunciar os responsáveis pela injustiça. É deste último aspecto que falam os vv. 8-9: o profeta não pode calar diante dos responsáveis pela injustiça: “Se para o injusto eu digo: ‘Injusto, é certo que você vai morrer', se você não avisa o injusto para que mude de comportamento, o injusto morrerá por causa de sua própria culpa, mas é a você que eu pedirei contas do sangue dele” (v. 8). A responsabilidade do profeta, portanto, está associada à causa da justiça, pois só esta será capaz de devolver liberdade e vida ao povo. Em nação onde não há justiça também não pode haver liberdade e vida.
A luta pela justiça é questão de vida ou morte. O profeta não tem escolha: para salvar a vida terá que denunciar, caso contrário não acontecerá a restauração do povo. Contudo, ele não será responsável pela ruína do injusto quando este, depois de ter sido desmascarado, não voltar atrás da sua conduta: “Se você prevenir o injusto para que ele mude de comportamento, e ele não mudar, ele morrerá por causa de sua própria culpa, mas você terá salva a sua própria vida” (v. 9). Disso tudo aprendemos que ser responsável pela própria vida é ser responsável pela vida dos outros, lutando a favor da justiça e contra as injustiças.

2. Evangelho (Mt 18,15-20): A justiça do Reino na comunidade
O tema que domina o evangelho de Mateus é o da justiça do Reino como chave que cria sociedade e história novas. É assim que o Reino vai acontecendo. Nesse evangelho Jesus é apresentado como o Mestre que traz para dentro de nossa sociedade e história ensinamento e prática centrados na justiça que gera relações novas e, conseqüentemente, constrói um mundo novo (Reino). Todo o evangelho de Mateus é dominado pelas primeiras palavras que marcam o programa de Jesus: “Devemos cumprir toda a justiça” (3,15) e também o programa dos seus seguidores: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do céu” (5,20); “em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e sua justiça…” (6,33a).
O capítulo 18 de Mateus — ao qual pertence o texto de hoje — não foge à regra, procurando mostrar aos seguidores de Jesus como viver a justiça do Reino dentro da comunidade, sobretudo em situações difíceis, como no caso de alguém cometer uma falta considerada grave. Isso nos ajuda a colocar os pés no chão: nossas comunidades não são feitas de pessoas perfeitas, e nem sempre a atitude que tomamos diante dos erros dos outros é a mais adequada. Qual o espírito que nos deverá orientar nessas ocasiões?

a. Fazer de tudo para ganhar o irmão (vv. 15-18)
O trecho de hoje é próprio de Mateus, e deve ser lido à luz da parábola que o precede, ou seja, a do pastor que vai procurar a ovelha que se perdeu, deixando as noventa e nove nas montanhas (vv. 12-14). E assim chegamos ao caso concreto: alguém da comunidade cometeu falta grave contra seu irmão. Como reagir: fazendo-se de vítima? “Pôr a boca no mundo” e denunciar o erro? A primeira atitude — talvez a mais difícil — é a de perdoar e ir à procura de quem errou na qualidade de quem já perdoou, a fim de mostrar ao outro o erro e convidá-lo novamente a se reintegrar na comunidade: “Se o seu irmão pecar, vá e mostre o seu erro, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele lhe der ouvidos, você ganhou o seu irmão” (v. 13). Mas há um detalhe: ganhar para quem? Para si? Não. O irmão não precisa ser ganho para si, mas para a comunidade. Por que não ganhá-lo para si? Porque quem ofendeu a um membro da comunidade rompeu, de certa forma, com a comunidade enquanto um todo.
Suponhamos que isso não dê resultados. Tudo perdido? Não. A justiça do Reino não se cansa, como o pastor que procura a ovelha perdida, e tenta outra forma de aproximar quem errou: “Se ele não lhe der ouvidos, tome consigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas” (v. 16). À primeira vista tem-se a impressão de que estaríamos fazendo um cerco em torno de quem errou. Mas isso pode ser visto sob a ótica da justiça do Reino que tem como princípio fazer de tudo para que o irmão não se perca.
E se isso não der certo? Aí toda a comunidade — que até agora não tomou conhecimento do erro — é chamada a se pronunciar: “Caso não der ouvidos, comunique à Igreja” (v. 17a). E se também isso não der certo? Somente aí, isto é, depois de esgotados todos os recursos, depois de ter dado a quem errou a chance de ouvir o parecer de toda a comunidade (e depois que a comunidade inteira ouviu o que o outro tem a dizer) é que a pessoa, por decisão de todos, é excluída: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos” (v. 17b). Mesmo nesse caso a comunidade deve manter-se em atitude prudente pois, em outros lugares, Jesus se declarou “amigo dos cobradores de impostos” (cf. 11,19). Trata-se de exclusão da comunidade a fim de que a pessoa se arrependa e volte a ela.
Disso tudo deduzimos que, antes de condenar ou excluir alguém, é preciso ter aprendido o que é a justiça do Reino. E ter consciência de que os passos aconselhados por Jesus não são normas rígidas, e sim um modo de agir que tempera de justiça as relações entre pessoas. Em outras palavras, é preciso ser criativos no esforço de recuperar quem erra e se afasta da comunidade. E o espírito que anima essa tarefa não é o da exclusão, mas da busca para reintegrar.
Em Mt 16,18 Jesus confiara a Pedro a tarefa de ligar e desligar. Aqui, no v. 18, essa missão é confiada à comunidade como um todo. Sinal de que Pedro, em 16,18, é figura representativa de toda a comunidade dos seguidores de Jesus. Ligar e desligar são termos jurídicos e atribuições da comunidade inteira: “Tudo o que vocês ligarem na terra será ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra será desligado no céu” (v. 18). Aqui também cabe um questionamento sobre o que é mais importante para a comunidade, se a faculdade de excluir pessoas ou a capacidade de integrá-las. Claro está que, de acordo com o cap. 18 de Mateus — que está na linha do “perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (6,12) — a comunidade é chamada a exercer mais a misericórdia do que a aplicação do rigor da lei.

b. Em comunidade, na oração e em nome de Jesus (vv. 19-20)
Os vv. 19-20 são normalmente vistos como tema à parte. De acordo com alguns estudiosos, todavia, eles continuam e ampliam o significado dos versículos anteriores. Tomar decisão de incluir ou excluir pessoas da comunidade não é tarefa fácil, como pretendiam e faziam os chefes de sinagoga daquele tempo. De fato, sutilmente ressoa aqui a advertência de Jesus: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (5,20). O que fazer, então? Jesus dá algumas indicações, que passam pela necessidade de as pessoas se reunirem em nome dele, a fim de, mediante a oração, chegar a um consenso: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa (isto é, sobre qualquer tipo de litígio) que queiram pedir, isto lhes será concedido por meu Pai que está no céu. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (vv. 19-20).

3. II leitura (Rm 13,8-10): Tarefa sem limites
Rm 12,1-15,13 trata do modo como os seguidores de Jesus agem na sociedade. Os três versículos de hoje são marcados pelo tema do amor enquanto cumprimento da Lei (vv. 8b.10b). O amor é a raiz de tudo o que deve ser feito e o modo pelo qual tudo deve ser feito. Paulo sintetiza isso com uma frase lapidar: “Não tenham nenhuma dívida para com ninguém, a não ser a de se amarem uns aos outros” (v. 8a). Diante disso a gente se pergunta: essa dívida que contraímos com nosso próximo é pagável ou impagável? Temos crédito ou débito? A resposta a essa questão fica mais clara à luz do tema central da carta aos Romanos. E o tema central é este: a humanidade toda tinha, em relação a Deus, uma dívida que jamais poderia saldar, pois o ser humano não reunia condições para se salvar ou se justificar por força própria ou em vista de seus méritos. Diante disso, Deus intervém com a grande novidade: ele anistia a humanidade inteira, salvando-a em Cristo Jesus, morto e ressuscitado. Para a humanidade não resta senão um gesto capaz de responder a esse amor inesperado e extraordinário, ou seja, acreditar em Jesus e procurar responder, com a mesma intensidade, ao amor que ele manifestou.
Paulo sabe disso e mostra em que consiste amar a Deus e a seu Filho Jesus: “Quem ama o próximo cumpriu a Lei. De fato, os mandamentos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e todos os outros, estão resumidos nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (vv. 8b-9). Note-se que, em todo esse trecho, não se menciona Deus. Tem-se a impressão de que esteja faltando algo, mas não está, porque não há muitas formas de amarmos a Deus; aliás, há uma só, que é amando o próximo, cada pessoa, do jeito que ela é, pois sabemos que ninguém escolhe o próximo para amá-lo. Ele simplesmente se apresenta como dom de Deus e também como desafio à nossa capacidade de amar. Nesse sentido, todos somos devedores de uma dívida impagável, a não ser que sejamos capazes de gestos gratuitos como os de Jesus, que se entregou totalmente por amor.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

• A luta pela justiça é questão de vida ou morte. Foi o que aprendemos de Ezequiel, profeta que sentiu de perto os anseios de sua gente e intuiu caminhos que conduzissem à restauração do povo. Quais são os maiores anseios do povo hoje?
• A justiça do Reino na comunidade. O evangelho nos pergunta se fazemos tudo o que é possível para recuperar as pessoas que erram. Pergunta-nos também o que é mais importante: a aplicação rigorosa da lei ou o exercício da misericórdia? O que é mais fácil para as comunidades: excluir pessoas ou integrá-las? Quando é que nos alegramos mais: ao excluir pessoas da comunidade ou ao reintegrá-las?
• Tarefa sem limites. Paulo nos alerta sobre a dívida impagável que temos com nosso próximo.
 
 
 
 





 




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