PRÉDICA:
MATEUS 18.15-20
EZEQUIEL 33.7-11
ROMANOS 13.8-14
Paulo P. Weirich
1 Introdução
Este domingo gira em torno da pergunta dos discípulos: “Quem é o maior no reino dos céus?” Uma pergunta que ainda está no ar. No reino dos seres humanos, essa pergunta tem muitas respostas. Mas o princípio é comum: Alguém deve ser maior. Com isso a humanidade escreve sua história, e os indivíduos escrevem suas biografias. Infelizmente, esse princípio pressupõe interesse pessoal, comparações, confrontos, sistemas de retribuição e retaliações.
Nesse contexto, Jesus ensina que o reino dos céus implica não permitir que alguém venha a tornar-se “menor”. O que fazer para que ninguém se torne pequenino no reino dos céus?
1.1 – Ezequiel 33.7-11
Tomamos conhecimento de catástrofes que acontecem diariamente. Casas soterradas, enchentes, epidemias, crimes e guerras. A contagem não termina. O homem procura afi rmar-se diante da natureza no esforço de dominar seus segredos. Entretanto, diante da catástrofe, o homem fi ca reduzido a uma sensação incômoda de insignifi cância e fragilidade diante da natureza descontrolada. Mas a tragédia mais incômoda é a tragédia diária das mortes no trânsito e dos traumas daí resultantes, tragédia com forte ingrediente não de fragilidade do ser humano, mas da presunção de domínio sobre a máquina a qualquer custo e consequência. Não é simples comparecer diante de uma comunidade para, diante desses fatos, anunciar que essa é a linguagem de Deus para dizer a todos: “Certamente morrerás”. É mais agradável deixar passar e falar de esperanças e possibilidades para a humanidade; falar de projetos e engajamentos por um mundo melhor; acreditar que o ser humano pode mudar tendências em sua natureza desde que seja modifi cado o ambiente.
O profeta não deve repetir os slogans com os quais a humanidade constrói suas ilusões. Deus quer que as pessoas reconheçam nos acontecimentos a sua presença, tanto quando Deus salva como quando Deus sinaliza nos fatos do dia a presença e a vinda de seu juízo: “Por que haveis de morrer, casa de Israel?”. O juízo de Deus é real e mostra-se diariamente nas calamidades e tragédias, pelas quais Deus anuncia que é melhor buscar refúgio ali onde há real refúgio, ou seja, na graça e no perdão de Deus. Somente então a vida faz sentido.
1.2 – Romanos 13.8-14
É o extremo desafio na vida cristã: A ninguém fiqueis devendo coisa alguma. Então se fala do amor que Deus restabeleceu para o mundo na obra vicária que realizou pela humanidade. É o amor que pressupõe o perdão e vive do perdão. Para que Deus efetivamente ame o pecador, Deus necessita executar seu juízo contra o pecador. O juízo que se abateu sobre o Filho de Deus não cancelou o juízo fi nal de Deus. Desse juízo estamos nos aproximando a cada dia que passa. Ignorá-lo é impossível para a igreja. Os sinais aí estão, uns atestando o quanto o ser humano está distante da obra de Deus, outros atestando que Deus na natureza anuncia o juízo que está por vir.
Em que situação ficamos? Revestidos do amor que nos foi confi rmado na pessoa de Jesus Cristo. Ele nos ama através das pessoas que nos aceitam e nos amam como somos. As pessoas são sinais de um novo reino, para o qual fomos resgatados. O amor é o sinal do reino que desfrutamos quando nos damos conta de que somos amados por Deus nas pessoas que ele envia ao nosso encontro e que decidem estar ao nosso lado.
2 Exegese
Já dividindo o espólio? Vejo como muito feliz a relação estabelecida pelos textos deste domingo. O evangelho trata de como o juízo e o amor de Deus estão presentes nas relações das pessoas que conhecem Jesus.
2.1 – Contexto
A perícope de Mateus 18.15-20 deve ser compreendida no contexto em que surgiu. O evangelista Mateus relata como Jesus fala de sua trajetória pessoal no enfrentamento da morte. Até que ponto os discípulos compreenderam o significado do que se dizia, isso fi ca em aberto. Entretanto, perceberam que alguma coisa
grandiosa se aproximava e que o enfrentamento deveria ser mortal. E com isso “se entristeceram grandemente” (17.23). A isso Mateus adere a questão de pagar ou não impostos a uma potência estrangeira e opressora. Estará Mateus dando a entender que os discípulos estavam antevendo algum efrentamento social político?
A narrativa não esclarece. Mas, sintomaticamente, logo após a narrativa de Mateus, continua: Naquela hora; naquele contexto, talvez, aproximaram-se de Jesus os discípulos com uma questão: “Quem é o maior no reino dos céus?” (18.1).
A pergunta não é inócua. Ela revela a compreensão de uma estrutura nas relações entre as pessoas. O ser humano tem como princípio que as pessoas se distinguem umas das outras pelo fato de umas serem maiores e outras, por consequência, restarem menores. Os discípulos não perguntam por critérios de avaliação. Também não pedem por justiça e igualdade. Eles querem saber o que torna alguém merecedor de governar sobre os demais. Será que a narrativa de Mateus quer dar a entender que os discípulos já estavam procurando dividir qualquer possível espólio de poder e infl uência que a anunciada morte de Jesus poderia acarretar? Já estavam procurando um substituto?
Jesus parece não responder à pergunta. Parece não se dar conta da importância que o problema adquire no estabelecimento e manutenção das relações entre as pessoas. É fundamental que alguém tenha a responsabilidade de definir e decidir sobre o que é certo ou errado, quem merece ou quem não merece a honra de fazer parte de um grupo. Alguém precisa decidir quando alguém se torna indigno de participação no grupo. Não é de honra e dignidade que se faz a pessoa e o ambiente em que está inserida?
3 Meditação
Jesus então acolhe a pretensão dos discípulos e lhes oferece seu espólio: “Aqueles que pecaram contra ele”. Esse é o espólio que o reino de Jesus ajuntou para ser dividido entre aqueles que pretendem conduzir as coisas do seu reino depois de sua morte. Irmãos e irmãs estarão pecando contra irmãos e irmãs. Jesus ecoa algo que Moisés havia dito: “Não aborrecerás o teu irmão no teu íntimo” (Lv 19.17a). Esse texto faz parte da quinta seção do livro, que se debruça especialmente sobre a relação das pessoas entre si. O objetivo dessas admoestações era que o amor estivesse presente e refl etido no trato com as pessoas no dia-a-dia. Especialmente focando as relações do ponto de vista de uma vida que refl ete o culto a Deus, ou em outras palavras, a piedade daqueles que são crentes e pretendem ser vistos como povo de Deus (Lv 11.45). Portanto não se limita a leis e regras de convívio na sociedade mais ampla, das relações civis. Esse versículo leva o povo a olhar para dentro de si próprio, para o íntimo de cada um. Esse olhar para dentro de si próprio Jesus aponta para os discípulos, em especial no Sermão do Monte (Mt 5.32,33,38 etc.): “Ouvistes... Eu, porém, vos digo...”
Jesus retoma os ensinamentos da piedade que Deus apontou no passado para seu povo e também como essa piedade fora interpretada por Moisés quando essa piedade não era exercida. Jesus mostra que, para o Israel da Nova Aliança, nada seria diferente. Haveria pessoas que cairiam da fé, agiriam contrariamente aos preceitos do reino e desafi ariam e colocariam em risco a harmonia entre aqueles que estavam sob a aliança. Dos fi éis da Nova Aliança Deus esperaria o mesmo que Deus pedira dos féis da Antiga: “Olhem para dentro, para o próprio íntimo” (Lv 19.17).
Falar com o irmão em falta não é meramente uma prescrição de um comportamento, mas deve brotar de uma disposição íntima em relação ao faltoso. “Não aborrecerás o teu irmão no teu íntimo”, isto é, a falta do irmão contra ti provoca ressentimento, mágoa e rancor. Não basta falar com ele. Mas falar precisa ser o antídoto do aborrecer ou guardar a mágoa para si, no íntimo. Mas falar também não é aquele falar que serve ao propósito superfi cial de “botar em pratos limpos”. Se o teu irmão pecar contra ti, ele se tornou alguém indigno, pois ofendeu Deus, que de todos espera que o amor guie as vidas daqueles que dizem que desejam obedecê-lo. A ofensa, na verdade, atinge Deus e não somente as pessoas. Guardar ressentimentos impede que você se aproxime dele e impede que a vontade de ajudá-lo se desenvolva. A questão não se limita ao plano horizontal das relações humanas. Ambos, ofendido e ofensor, estão na presença de Deus. Guardar ressentimentos ou tratar com indiferença aquele que errou manifesta a pecaminosidade de ambos.
Essa é uma conversa que acontece na presença de Deus e não pode visar outros propósitos senão aqueles que Deus preparou. A missão de Cristo é a reconciliação com Deus (2Co 5.18-21). Por isso “ganhar o irmão” tem em vista a ligação que Deus estabeleceu com ele e da qual ele pode estar se afastando. Quais são os sentimentos, frustrações, desejos, ansiedade e mesmo ambições que o levam a ofender-te? Ou então, será alguma coisa em ti que pode ter causado a ele fazer de ti objeto de ofensa para ele? Nenhuma ofensa ou agressão nasce no vácuo. Cada gesto tem um contexto. Podemos julgar unilateralmente? Pode o erro estar somente de um lado? Como o ambiente contribuiu para tal desfecho?
Cristãos têm somente um recurso e um objetivo para manter relações construtivas entre si: o perdão. Aquele que erra é um pequenino ou, na comparação de Jesus, uma criança que não pode ser abandonada à própria sorte. Na verdade, cada um é o pequenino que está sendo amparado pela graça de Deus e pelo amor dos que o cercam. O que mantém alguém de pé, aquilo que nos faz parecer grandes, é aquilo que as pessoas ao nosso redor nos atribuem: honra, dignidade, méritos. São dons maiores do que a nossa capacidade pessoal. Se as pessoas ao nosso redor começarem a não atribuir a nós nome e dignidade, nada somos. Por essa razão, se alguém ao nosso redor faz por ferir a sua própria dignidade, Jesus pede que corramos em socorro para resguardar a dignidade daquele que quer ferir nossa dignidade. Precisamos uns dos outros.
O tesouro do reino de Jesus, ao qual os discípulos aspiravam, a merecida dignidade era, na verdade, a imerecida graça do perdão. Jesus não possui outro reino e nem outro tesouro. Ele desceu abaixo da humanidade, abaixo da indignidade do ser humano, em busca do perdão de Deus para todos. O juízo de Deus abateu-se sobre ele, porque ele se comprometeu com nosso pecar e da profundidade da condenação eterna trouxe junto com o perdão a vida que vivemos na harmonia que Deus estabelece entre as pessoas. A harmonia preserva-se e somente é possível ali onde as faltas são perdoadas e ocultas. Vai, “entre ti e ele só”. A dignidade que carregamos e que as pessoas reconhecem em nós é obra de Deus vem nosso favor. Sendo isso verdade, como alguém se negaria a cobrir de dignidade aquele que nos ofendeu?
Quantas vezes? Sempre. É interessante o fechamento desse ciclo de intervenções junto ao faltoso. Como coadunar essas três intervenções com a expressão “até setenta vezes sete”? Na verdade, ao fi m e ao cabo, são três formas de se apresentar ao faltoso. Em outras palavras, é necessário saber se a indisposição do faltoso é de natureza privada, individual, contra uma pessoa da igreja, ou se a atitude é de natureza mais profunda, que revela uma indisposição contra os princípios que marcam a vida da igreja como um todo. Talvez então a conta seria três vezes setenta vezes sete. Talvez essa conta se aproxime melhor para servir de metáfora para que seres humanos visualizem e comecem a fazer ideia da dimensão da infi nita misericórdia e compaixão de Deus sobre cada ser humano. O convite de Paulo aos Romanos busca essa dimensão da dimensão de amor que recebemose que de tão plenamente dado a nós nunca faltará se quisermos utilizá-lo. O amor que devemos ao próximo é uma dívida impagável.
4 Subsídio litúrgico
Coleta do dia:
Onipotente Deus, que te compadeceste de nossa indignidade e nos cobriste com a tua santidade, nos te imploramos, dá-nos o teu Espírito para que entre nós possamos, em humildade diante de Ti, também cobrir as faltas uns dos outros e nos estimular a servir em amor para que o teu reino venha também a nós. Amém.
