QUANTAS VEZES DEVO PERDOAR O MEU IRMÃO?
TEXTO BASE: Mateus 18.21-35
Será que Jesus, alguma vez, se negou de a atender qualquer pessoa que tenha vindo a ele com um coração arrependido e com fé?
Claro que não! Nunca! Não importa que pecado esta pessoa tivesse cometido. Essa é a nossa resposta. Nós sabemos isso porque "a Bíblia nos diz". Mas, quantas vezes nos esquecemos do nosso próximo? Uma coisa é Jesus perdoar alguém que tenha cometido um crime; alguém que tenha caído em adultério...; outra coisa bem diferente, é nós perdoarmos a nosso próximo que cai, constantemente, no mesmo pecado.
LER: Mateus 18.21-35
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"Quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?" Esta foi a pergunta de Pedro. Ele era alguém que conhecia muito bem a Bíblia (as Sagradas Escrituras que eram compostas pela Lei e pelos Profetas); ele também conhecia a tradição judaica. Ele sabia que devia perdoar o seu semelhante. Ele sabia qual era o seu dever. Mas, qual é o limite? Deve haver um momento em que eu deva dizer: basta! Um momento onde eu deva dizer: vê se te enxerga cara...
Ser cristão não é sinônimo de "engolir sapo" a vida inteira... Só porque eu sou um cristão não significa que eu deva agüentar desaforo a vida inteira sem dizer nada... Mas, qual é a hora de dizer basta?
Pedro pensava que deveria perdoar até sete vezes. Isto é, ele achava que sete vezes seria o suficiente, e que Jesus, provavelmente, diria algo como:
- Sim, Pedro, sete (7) vezes já é o bastante.
Podemos imaginar que esta pergunta que Pedro dirige a Jesus não tenha sido apenas teoria, isto é, "para o caso de...":
- imagine aquele Pedro, sangüíneo do jeito que era, tendo que conviver com um irmão não muito "querido", com um irmão difícil; tendo algumas divergências com este irmão;
- imagine aquele pescador rude fazendo a conta: "agora foi a quarta vez que este ou aquele cara me ofendeu; agora foi a quinta, a sexta, a sétima vez: Agora basta!";
Pedro deve ter passado por diversas situações de conflito com alguns irmãos - talvez, em muitos destes conflitos, Pedro já teve a vontade de dizer: basta! Chega!
Por outro lado, se nós encostamos o ouvido à pergunta de Pedro, descobriremos um pouco de orgulho espiritual escondido por entre as palavras:
... Um homem que perdoou sete vezes! Não são todos que fazem isso! Jesus só poderia confirmar o que Pedro achava:
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Pedro, você já fez mais do que devia;
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Abandone este caso. Deixe que este seu irmão se vire sozinho;
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não ligue mais para ele;
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vira as costa para ele;
·
ele não merece outra coisa;
Mas, para a surpresa de Pedro, a resposta de Jesus é bem outra. Ele diz:
·
Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Pedro deve ter pensado naquela hora:
à o Senhor não pode estar falando sério! Eu não sou palhaço dos outros...
Mas, tendo em vista que Pedro era um bom conhecedor das escrituras, ele deve ter se lembrado daquela passagem do Antigo Testamento que diz: "E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque êle me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete" (Gênesis 4.23-24). Talvez Pedro tenha notado que nesta questão de perdoar só há 2 caminhos a seguir:
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ou seguimos o caminho de Caim;
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ou seguimos o caminho de Jesus.
O caminho de Caim paga o mal com o mal. Paga o mal com juros e correção monetária: Sete por um. E se isto não basta, é capaz de ir além: Setenta vezes sete, se for preciso!
De primeira vista até parece que tem um restinho de justiça no caminho de Caim. Ele tem um código penal: Dente por dente, olho por olho. Ele só reforça um pouquinho a dose:
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Sete dentes por um dente;
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Sete homens por um homem;
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Uma cidade inteira deve ser incendiada, por um homem;
Cada um deve saber, já de antemão, o que vai lhe acontecer se "brincar" com Lameque, descendente de Caim.
Por sua vez, o caminho de Jesus é totalmente oposto do caminho de Caim. Caim mata o seu irmão; Jesus salva o seu irmão. E esta salvação não deve ser limitada por leizinhas, como:
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hoje eu te perdôo, mas, se você voltar a repetir o mesmo erro, se você voltar a fazer a mesma coisa... não prometo nada;
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desta vez passa, mas na próxima...
A salvação que Jesus nos oferece, não é uma salvação condicional, não é uma salvação a prestações. Não! O evangelho é uma realidade que nos faz mudar de atitude em relação aos nossos semelhantes (pai, mãe, irmãos, parentes, colegas de trabalho, amigos, vizinhos, irmãos em Cristo...).
A partir do momento que somos transformados pelo evangelho, nós:
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deixamos de contar os erros;
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deixamos de lançar os débitos;
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deixamos de guardar rancor, sempre com a idéia: Hoje eu perdôo, mas vai chegar o dia em que a última gota de água vai cair no balde, e então este irá transbordar.
Amados! O evangelho muda o coração humano. O evangelho transforma um coração vingativo, num coração cheio de amor, de misericórdia, num coração pronto a perdoar.
Jesus multiplica os dois números 7 e 10 => que simbolizam a perfeição - e acrescenta um outro sete. O que Jesus diz com a afirmação: "não sete vezes, mas setenta vezes sete" é: a perfeição vezes a perfeição mais a perfeição. Jesus indica a idéia de infinito. A misericórdia de Deus é tão grande que não pode ser medida; e, porque a misericórdia de Deus é tão grande, você, Pedro, deve também mostrar misericórdia a seu irmão.
Que bom que Deus também não nos perdoa apenas sete vezes. Que bom que o amor de Deus é sem limite. Para explicar este amor misericordioso de Deus, que deve se refletir no seu povo, Jesus conta a seguinte parábola (história):
Um rei reuniu seus oficiais, no dia marcado para o acerto de contas. Um deles devia ao rei a soma de 10.000 talentos. O talento era, naqueles dias, a moeda mais forte. Comparando, vemos que o valor que Herodes o grande arrecadava de impostos anualmente em todo o seu reino era 900 talentos (cf. 1 RS 10.14). Dois talento-ouro comprava um monte - no qual foi edificado uma cidade (Samaria - cf. 1 Rs 16.24). Um talento-prata comprava 10 vacas leiteiras.
Tendo estes valores em mente, está claro que o ministro das finanças devia a seu senhor uma quantia muito grande. O texto bíblico não nos revela o que ele havia feito com todo este dinheiro. Certo é que ele devia 10.000 talentos, e tinha que pagar. Também é certo que ele jamais conseguiria todo aquele dinheiro no prazo determinado.
Quando teve de prestar contas ao seu senhor - e não dispondo do dinheiro para pagar a dívida, ele ouviu o veredito:
- você, sua mulher, seus filhos e tudo o que você possui, será vendido para pagar a tua dívida.
Este preço era alto demais para ele. Tendo ouvido o veredito, ele caiu de joelhos aos pés do rei e pediu por paciência. No desespero ele promete pagar tudo: "sê paciente comigo e tudo te pagarei".
Que promessa boba, aquela. Como é que ele poderá arrumar dinheiro para pagar o equivalente a 100.000 cabeças de gado ou terra suficiente para construir 5.000 cidades?
Este servo implorou por misericórdia, e não por perdão. Prometeu restituição, mesmo sabendo que conseguiria pagar apenas uma pequena parte da dívida e não mais. O rei fez uma coisa que ninguém tinha previsto. Vendo o estado que este servo seu se encontrava, ele se compadeceu dele e perdoou a sua dívida. Aquele homem tinha se dirigido à presença do rei com um enorme fardo, com um enorme peso sobre os ombros e agora, pode voltar aliviado. A dívida foi perdoada.
É isto mesmo meus queridos, a dívida não foi adiada, mas perdoada. A partir de agora ele está livre daquele peso; ele não precisa mais se preocupar com aquela dívida; creio que a partir daquele instante até dormir se tornou mais fácil. Inacreditável! Quanta alegria! Quanta bondade!
Descendo as escadas do palácio real, este ministro das finanças absolvido, encontrou um conservo, um colega seu, dos bem pequenos, que lhe devia a importância de 100 denários. Um denário correspondia ao salário de um trabalhador simples - por um dia de serviço. Com este dinheiro era possível comprar apenas um pão. O valor que este homem lhe devia correspondia, então a 100 pães. Realmente, era muito pouco. Bastava alguns dias de trabalho e a soma seria conseguida. Mas este ministro das finanças que havia acabado de receber um presente de 100.000 cabeças de gado age de forma desumana com o seu conservo. Ele agarrou o seu colega pelo pescoço e o sufocou exigindo pagamento imediato:
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Paga-me o que me deves.
Este pobre homem, apavorado, atirou-se aos pés do ministro das finanças e pediu:
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Sê paciente comigo e te pagarei.
Ele não precisava dizer: Pagarei tudo, porque o total era pequeno. Estava claro que ele pagaria tudo. Mas o ministro das fianças se recusou. Lançou o homem na prisão, esperando que alguém o pusesse em liberdade sob fiança, e pagasse a dívida.
É interessante como nesta história a grande compaixão foi jogada fora. O homem perdoado não transformou o grande presente recebido em troco miúdo. Ele não foi gastando a misericórdia que o rei lhe fizera. O seu coração continuou duro como uma pedra. Parece que o gesto do rei não serviu para nada - pois ele não aprendeu a pensar e agir como o rei. Continuou agindo como um homenzinho calculador e mesquinho - para o qual o ser humano é um simples número na contabilidade.
Como é o homem! Este ministro das finanças, teve a oportunidade para mudar de vida, mas não mudou. E, por continuar vivendo naquela servidão, da qual o rei o quis salvar, ele volta a carregar o velho fardo; ele volta a carregar a montanha de sua dívida. Outras pessoas viram o que aconteceu e não conseguiram manter silêncio. Não demorou muito para que o rei também ficasse sabendo. Este, ao ouvir a história, ficou muito zangado. Chamou o servo e o repreendeu: "servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste, não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" Após repreendê-lo, o rei o entregou aos carcereiros para que o torturassem até que a dívida fosse paga.
Quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Meus queridos! Uma pessoa que não foi agraciada com o grande perdão de Deus em Jesus Cristo não é capaz de perdoar nem sequer uma vez, quanto mais sete. Mesmo que viesse a perdoar, esta pessoa estaria enganando, pois perdoar é doar, é dar. E só pode dar, quem tem:
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o homem que não se converteu a Deus;
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o homem que não caiu a seus pés, rogando perdão;
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o homem que não experimentou a libertação em Jesus, libertação essa que se encontra resumida nas palavras: "os teus pecados estão perdoados ", é incapaz de perdoar.
Por outro lado, aquele que experimentou o perdão de Deus, o homem, de cujas costas Deus, por amor de seu filho, tirou o fardo da culpa, o fardo do pecado, este sim tem condições de perdoar. Este sim, tem condições de tratar seus irmãos assim como ele foi tratado pelo seu Senhor. Quando ele perdoa, ele não está dando do que é seu. Ele está dando do que é de Deus.
Meus amigos! O cristão que não sabe perdoar; aquele cristão que diz: "perdoar sim, esquecer nunca" - não vive em Cristo. O cristão que assim age, vive em Caim. Vocês ainda estão lembrados de Caim, cuja descendência inventou a vingança com juros e correção monetária. Só existe dois caminhos. Num deles você tem que trilhar:
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ou trilhamos o caminho de Jesus;
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ou trilhamos o caminho de Caim.
Não há meio termo. Conheço muitos "cristãos" que tem medo de orar o Pai Nosso, em especial a quinta prece que diz o seguinte: "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores". A impressão que temos é, que é perigoso orar assim. Isto parece um convite dirigido a Deus para nos tratar assim como nós tratamos os nossos semelhantes. Logo, se não perdoamos, estamos pedindo a Deus para não sermos perdoados.
Se olharmos para o nosso texto veremos que o Cristão é aquele servo que devia as 100.000 cabeças de gado e que foi perdoado pelo rei. Na vida dele (do cristão) ouve o grande perdão inicial, quando Cristo tomou conta da vida dele.
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Foi feito aquela faxina geral: nesta faxina todo o seu passado foi aniquilado, não ficou nada.
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Naquele dia a montanha da culpa, do pecado, foi tirada de suas costas.
A oração: "perdoa as minhas dividas, como eu perdôo os meus devedores" é apenas uma conseqüência lógica do grande perdão inicial. É a contabilidade do dia a dia. Se esta contabilidade da gratidão não mais funcionar, então não se trata de um simples erro, de um simples engano, mas uma coisa fundamental está errada. Significa que o cristão saiu da comunhão com o seu Senhor. Significa que o cristão saiu da esfera do perdão e entrou na esfera da lei, do código chamado: "paga-me o que me deves". E este código é duro. Ele não perdoa nada.
Para concluir: Todo aquele que recebeu o perdão em Jesus Cristo deve estar pronto também a perdoar quem quer que esteja em débito com ele, e deve fazê-lo de todo o coração.Amém!
P. Volmar Saueressig |