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24º DOM. COMUM (11 de setembro)
HÁ LIMITE PARA O PERDÃO?


I. INTRODUÇÃO GERAL

As comunidades se reúnem para celebrar a fé e a certeza de que pertencem ao Senhor: “Ninguém de nós vive para si mesmo e ninguém de nós morre para si mesmo. Pois se vivemos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos” (II leitura). A vitória de Cristo sobre a morte é a grande lição que aprenderemos no dia de hoje. Sua morte nos perdoou os pecados, uma dívida impagável que tínhamos com Deus. Dessa certeza nasce nosso compromisso de perdoar sempre e totalmente, exatamente como pedimos no Pai-nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Eclo 27,33-28,9; grego: 27,30-28,7):
Perdoar para ser perdoado
O livro do Eclesiástico surgiu no início do segundo século a.C., tempo em que a Judéia estava sob o domínio dos selêucidas. Estes, a fim de unificar o império, estabeleceram na região o imperialismo cultural e religioso: religião e costumes gregos deviam ser adotados pelos povos dominados. Para isso utilizavam artifícios e promessas, a fim de convencer o povo à submissão (cf. 1Mc 2,17-18). Dentro desse contexto surge o livro que, mais tarde, recebeu o nome de Eclesiástico. O objetivo da obra é preservar a identidade do povo, conservar suas raízes e manter a fé que o caracterizou como povo de Deus. Eclesiástico é, portanto, um livro de resistência, capaz de reavivar a memória histórica de um povo, desmascarando a linguagem e ideologia dos opressores.
Os versículos escolhidos para a liturgia deste domingo têm sabor sapiencial, ou seja, são resultado de longas experiências que ajudam a entender melhor o sentido da vida e das relações das pessoas entre si e com Deus. Constituem passo importante na vida do povo de Deus, pois conseguem superar a lei do olho por olho e dente por dente, a lei do talião (cf. Ex 21,23-25; Lv 24,19-20; Dt 19,21). Nesse sentido, esses versículos sintonizam perfeitamente com a bem-aventurança da misericórdia (cf. Mt 5,7) e com o que Jesus nos ensina no Pai-nosso (cf. Lc 11,4).
O autor do Eclesiástico chegou à conclusão de que “o rancor e a raiva são coisas detestáveis” (27,33), pois geram um tipo de reação que conduz à vingança. Quando as relações humanas são temperadas por esses sentimentos, o que pode Deus fazer senão retribuir a cada um de acordo com o que deseja e faz a seu próximo? De fato, “quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos pecados” (28,1). O que fazer, então? Em primeiro lugar, tomar consciência de que a religião é a síntese das relações humanas vitais. O ódio para com as pessoas é ruptura com Deus, e ele dará a cada um de nós segundo a medida de nossos sentimentos em relação aos outros. Mexer com as pessoas, portanto, é mexer com Deus. Essa é uma das grandes conclusões a que chegou o autor do Eclesiástico.
A melhor coisa a ser feita, portanto, é perdoar as injustiças que os outros cometeram contra nós, a fim de que Deus perdoe as nossas (v. 2), pois se alguém “não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos próprios pecados?” (v. 4).
O autor conclui dando alguns conselhos. Acima de tudo, pensar no fim, na destruição e na morte que nivelam a todos (vv. 6-7). Aí cessam rancor e raiva. Teria valido a pena viver assim? A seguir, aconselha a pensar nos mandamentos, síntese de um projeto onde todos podem usufruir da vida fundada na liberdade e no respeito mútuos (v. 8). Finalmente, convida a pensar na aliança com o Altíssimo, a fim de não levar em conta a falta alheia (v. 9). Esse dado é o mais importante de todos, pois Deus se aliou a um povo não porque esse fosse perfeito e fiel. Pelo contrário, Javé se aliou a um povo que clamava por causa da opressão sofrida. Ser aliado dele, portanto, é acima de tudo aprender a ter compaixão e ajudar as pessoas a se libertarem de todos os males, entre os quais estão o ódio, a raiva e a vingança. Pensar na aliança é, pois, aprender a ser misericordioso e bom à semelhança da bondade e misericórdia divinas.

2. Evangelho (Mt 18,21-35): Há limite para o perdão?
Como dissemos no comentário ao evangelho do domingo passado, o tema que domina o evangelho de Mateus é o da justiça do Reino como chave que cria sociedade e história novas. Esse evangelista apresenta Jesus como o Mestre que traz para dentro de nossa sociedade e história ensinamento e prática centrados na justiça que gera relações novas e, conseqüentemente, constrói um mundo novo. Todo o evangelho de Mateus é dominado pelas primeiras palavras que marcam o programa de Jesus: “Devemos cumprir toda a justiça” (3,15) e também o programa dos seus seguidores: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (5,20).
O capítulo 18 de Mateus — ao qual pertence o texto de hoje — não foge à regra, procurando mostrar aos seguidores de Jesus como viver a justiça do Reino dentro da comunidade, sobretudo em situações difíceis como, por exemplo, na questão do perdão. A pergunta de Pedro a Jesus demonstra que se trata de questão delicada: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (v. 21).
A parábola que vem a seguir (vv. 23-34) é a resposta de Jesus. Ele mostra a seus seguidores que, para entrar no Reino do Céu, é preciso superar a justiça dos doutores da Lei e dos fariseus (cf. 5,20). De fato, a casuística dos rabinos tinha chegado a um consenso sobre o número de vezes em que devemos perdoar quem nos ofendeu: era suficiente perdoar quatro vezes o mesmo erro. Pedro, ao fazer a pergunta, demonstra boa vontade em superar as barreiras da justiça humana codificada em quantidades numéricas. Ele imagina que sete vezes seja o limite máximo. E depois disso, o que viria: indiferença? ódio? vingança? O Mestre da justiça vai mostrar que não se trata de números quantitativos. O perdão é questão de qualidade. Se não for total e contínuo não é perdão. Com isso amplia-se o que foi dito em Mt 6,12: “Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. A resposta de Jesus a Pedro mostra que somente o perdão pode salvar uma comunidade da ruína: “Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (v. 22), ou seja, sempre. O Mestre da justiça ensina, dessa forma, a acabar com a indiferença, ódio e vingança que geraram uma sociedade brutal e ambígua. De fato, por trás dessa afirmação de Jesus se esconde uma grande novidade que elimina o progresso da violência acenado em Gn 4,23b-24: “Por uma ferida, eu matarei um homem, e por uma cicatriz eu matarei um jovem. Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete”.

a. Por que não há limite para o perdão? (vv. 23-34)
A parábola é própria de Mateus e contém três cenas sucessivas bem ligadas entre si. É uma comparação que ajuda a entender o que é a justiça do Reino. Na primeira cena (vv. 23-27) encontramo-nos diante de um rei (que faz a gente se lembrar de Deus) que resolveu acertar as contas com seus empregados. Isso nos recorda que todos teremos de acertar as contas com Deus. A parábola vai logo ao que é mais importante, apresentando em primeiro lugar um empregado que devia dez mil talentos. Estranhamente, o texto não dirá, em seguida, quanto os outros estariam devendo. É sinal de que cada pessoa deverá perguntar-se: A quanto chega a minha dívida com Deus? No seu conjunto, a parábola dá a entender que esse empregado que devia dez mil talentos somos todos e cada um de nós.
A parábola mexe com quantidades. Um talento de ouro pesava mais de 30 quilos. Ora, o empregado que somos nós tem uma dívida de dez mil talentos. É fácil fazer as contas. Maior é o susto quando chegamos aos resultados concretos: dez mil talentos é uma soma que ninguém conseguirá pagar: “Ele não tinha com que pagar” (v. 25a). Estava irremediavelmente perdido. A primeira reação do rei mostra como funciona uma sociedade baseada na justiça dos doutores da Lei e dos fariseus: “O patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida” (v. 25b). Conseguiria saldar a dívida? Não.
O empregado reage com presunção: “Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo!” O pedido é feito de joelhos (v. 26). Vem então a reação inesperada do rei, e é justamente aí que descobrimos por trás dele o rosto de Deus: “Diante disso, o patrão teve compaixão (literalmente entranhas de misericórdia), soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida” (v. 27). Nossa dívida para com Deus, impagável, é inesperadamente perdoada, superando nossas expectativas e pretensões.
A segunda cena (vv. 28-31) põe frente a frente aquele que foi perdoado e um de seus companheiros. Nesse caso, a dívida é irrisória se comparada com os dez mil talentos: trata-se de cem moedas de prata, pouco mais de três salários mínimos. Como reagimos diante das bagatelas que devemos uns aos outros? Reagimos com violência: “Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague o que você me deve' ” (v. 28b). O companheiro que devia cem moedas de prata reage de uma forma que já conhecemos, pois é o mesmo modo como o “grande devedor” reagiu diante do rei: ajoelha-se e suplica: “Dá-me um prazo e eu te pagarei!” (v. 29). Sua pretensão não é inconcebível, pois de fato tem condições de pagar. Mas acontece que, ao ver alguém ajoelhado diante de nós, temos a sensação de ser todo-poderosos, esquecendo-nos de que também já ajoelhamos um dia, pedindo tempo e paciência.
A reação do empregado não é marcada pelas entranhas de misericórdia: “Ele não quis saber disso; saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia” (v. 30). E a gente se pergunta: como poderia pagar se foi posto na prisão? Além de não sermos capazes de perdoar, impedimos que os outros andem e tenham liberdade, exatamente ao contrário do que Deus faz conosco!
Na terceira cena (vv. 31-34) retornam as personagens da primeira. E o patrão, numa palavra, nos desmascara no que somos e fazemos: “Empregado miserável, eu lhe perdoei toda a sua dívida porque você me suplicou. Não devia você também ter compaixão (= entranhas de misericórdia) do seu companheiro como eu tive compaixão de você?” (vv. 32b-33). Note-se que só se fala de perdão na relação patrão-servo. Com isso chegamos a esta constatação: o primeiro e talvez único perdão é o que Deus nos concede gratuitamente. O resto é simplesmente misericórdia e gratuidade nas relações entre pessoas perdoadas. Não havendo misericórdia, também não haverá perdão por parte de Deus: “O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida” (v. 34). Agora já sabemos que essa dívida não pode ser paga. E então, como ficamos?

b. A solução é ser misericordioso (v. 35)
O v. 35 é, ao mesmo tempo, a conclusão da parábola e a amarra de todo o capítulo 18 de Mateus, que trata da justiça do Reino na comunidade dos que seguem a Jesus: “É assim que o meu Pai que está no céu fará com vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

3. II leitura (Rm 14,7-9): Pertencemos ao Senhor
Durante vários domingos do Tempo Comum, a II leitura nos apresentou os trechos mais importantes da carta aos Romanos. Os versículos de hoje fazem parte das orientações de Paulo à comunidade, procurando ajudá-la a traduzir na vida a fé professada em Jesus Cristo.
Acontece que a comunidade tinha problemas de convivência fraterna, pois estava dividida entre fortes e fracos, à semelhança da comunidade de Corinto. Os fortes eram pessoas esclarecidas que, diante de certas questões, como a de comer as carnes oferecidas aos ídolos, não se deixavam levar pelos escrúpulos. Os fracos eram exatamente o contrário dos fortes e, diante da questão, preferiam viver como vegetarianos. Havia outros motivos de divisão, como a questão de seguir tal ou tal calendário religioso. Críticas, julgamentos precipitados e desprezo vinham de ambas as partes.
Paulo quer ajudar a comunidade. Para ele, o importante é que ambas as partes acreditam em Deus e, quando estão à mesa, todos dão graças a Deus pelo alimento, quer sejam vegetarianos, quer não. Se ambas as partes crêem no mesmo Deus e o louvam, é sinal de que os motivos que dividem não são mais fortes do que a razão unificadora da comunidade. Diante disso, Paulo toma uma decisão: cada qual fique com sua convicção (14,5), pois a questão do puro e do impuro não existe mais. O importante nisso tudo é a capacidade de as pessoas se acolherem umas às outras, saberem se unir no importante e se respeitarem na diversidade.
Os três versículos lidos na liturgia deste domingo se inserem dentro desse contexto e justificam por que Paulo chegou à conclusão de que cada qual deve ficar com a própria convicção. Salientam que os cristãos não pertencem a si próprios mas, em qualquer situação da vida, pertencem sempre e totalmente ao Senhor Jesus: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e ninguém morre para si mesmo. Pois se vivemos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (vv. 7-8). A dimensão da totalidade de nossa vida é expressa no texto pelas polaridades viver-morrer. É provável que a expressão “quer vivamos, quer morramos” seja uma expressão idiomática. Traduzida em outros termos soaria assim: “Qualquer coisa que façamos” (independentemente de nos abstermos ou não das carnes oferecidas aos ídolos e também de calendários especiais), tenhamos consciência de que pertencemos ao Senhor. E por que somos dele? “Porque Cristo morreu e recobrou a vida, para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (v. 9). Nossa vida, portanto, está nas mãos de Deus de forma tão profunda que nem sempre compreendemos plenamente. O mesmo se diga do amor total que ele tem por nós. Um místico da Idade Média entendeu isso de maneira perfeita: “O amigo dizia ao Amado: — ‘Tu és tudo, e estás por toda parte, e em tudo, e com tudo. Quero-te totalmente, a fim de que tudo tenha e seja em mim'. — ‘Não podes ter-me totalmente se não fores meu', respondeu o Amado. — ‘Toma-me todo, e que eu também te tenha totalmente', retrucou o amigo. O Amado disse-lhe: — ‘E o que restará então a teu filho, a teu irmão e a teu pai?' — ‘Tu és um todo tal, que podes ser tudo para quem se entrega totalmente a ti', disse o amigo” (Raimundo Lúlio).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

• A I leitura e o evangelho nos garantem que somente o perdão pode salvar uma comunidade da ruína, e esse perdão precisa ser contínuo e total. Se pomos limites, já não seremos capazes de perdoar, nem teremos “entranhas de misericórdia”. Por isso seria interessante dinamizar, nas celebrações, o Ato Penitencial para que traduza a reconciliação de Deus com a humanidade e das pessoas entre si.
• A II leitura pode ajudar as comunidades no discernimento do que as une e daquilo que separa as pessoas. Por que as críticas e os julgamentos apressados? Aquele que nos reúne e une em comunidade é infinitamente superior às questões que nos separam.

 

Fonte: Pe. José Bortolini

 
 
 





 




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