
La Red de Liturgia es una iniciativa latinoamericana que nace en 1991 de la mano del pastor brasileño Ernesto Barros Cardoso, como una manera de crear lazos firmes entre las personas que deseaban compartir sus experiencias en este terreno de la vida eclesial.
NOSSA MISSÃO: PRODUZIR FRUTOS DE JUSTIÇA E DIREITO
I. INTRODUÇÃO GERAL
Nós somos parte do povo de Deus e nos reunimos para celebrar a fé. A celebração é o espaço onde pedimos e agradecemos. Agradecemos porque recebemos e pedimos porque precisamos. À semelhança da comunidade de Filipos, somos convidados a fazer das celebrações um espaço onde aprendemos a ser ternos apesar dos conflitos e a discernir o bem que está sendo feito (II leitura). Nelas descobrimos que a caminhada é longa, mas Jesus é nossa sustentação nas lutas pela justiça e direito, síntese da nossa missão (evangelho). Se não tomarmos a sério esse compromisso (I leitura), não poderemos afirmar que somos parte do povo ao qual Deus confiou seu Reino.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 5,1-7): Um povo que não produz frutos de justiça e direito
Este é um dos poemas mais bonitos de todo o Antigo Testamento. Nele o amigo do esposo (isto é, o profeta) canta as decepções e a não-correspondência por parte de quem se esperava uma resposta de amor.
Lido no plano real, o poema lembra a vida na roça e fala da frustração do agricultor diante do insucesso no cultivo de parreiras. O agricultor pensou e agiu do melhor modo possível: escolheu um terreno numa fértil encosta, pois ela é o lugar mais adequado para o cultivo de videiras; tirou as pedras e escolheu cepas da melhor qualidade; levantou ao redor da plantação um muro de pedras (cf. v. 5), para que os animais não entrassem nela e causassem dano (ainda hoje, na Palestina, podem ser vistas parreiras se espalhando pelo chão; daí a necessidade de cerca); ergueu no centro do parreiral uma torre de vigia, a fim de que seus frutos não fossem roubados, e até cavou um lagar para pisar as uvas. Agora é só esperar que produza frutos; mas, surpreendentemente, o parreiral deu uvas azedas (v. 2).
O v. 3 põe os ouvintes na roda. Eles são chamados a ser árbitros entre o agricultor e a vinha: "O que poderia ainda ter feito por minha vinha e eu não o fiz? Eu contava com uvas gostosas, mas por que ela produziu uvas azedas?" (v. 4). A resposta dos que ouvem o poema, apesar de não ter sido registrada no texto, é evidente: os ouvintes reconhecem que tudo foi bem executado; agora aprovam o que o agricultor vai fazer: "Vou desmanchar a cerca protetora e ela será devastada, vou derrubar o seu muro e ela será calcada aos pés. Vou entregá-la à devastação: não será mais podada nem capinada, de modo que os espinhos e o mato a abafem. Vou proibir às nuvens que a molhem com chuva" (v. 6).
Este último elemento nos força a descer a um plano mais profundo, pois nenhum agricultor tem poder sobre as nuvens do céu. Para o povo da Bíblia, só Deus é que pode fazer isso (cf. Jó 38,34). Então o poema não é tanto um cântico de um agricultor desiludido com suas parreiras, quanto a frustração de Deus em relação à sua noiva, Israel: "Pois a vinha do Senhor Todo-poderoso é a casa de Israel, e os cidadãos de Judá são sua plantação querida" (v. 7a). Lido em profundidade, o poema mostra um Deus extremamente zeloso com seu povo, libertando-o da escravidão do Egito e plantando-o na Terra Prometida, aí instalando-o como povo livre e responsável pela construção de sociedade justa e fraterna, onde a justiça e o direito fossem as bases dessa nova sociedade. Deus não tinha mais nada a fazer, a não ser esperar (vv. 2.4.7) que desse frutos. Mas o que se constata é justamente o contrário: "Ele esperava que reinasse o direito, mas eis que domina a violação do direito; esperava pela justiça, mas só se ouvem os gritos dos injustiçados" (v. 7b).
Os interlocutores do profeta haviam concordado com o agricultor quando ele decidiu desmanchar a cerca protetora para que a vinha fosse devastada. Agora terão de concordar que a invasão assíria e a ruína do país serão conseqüência de uma série de injustiças e violações do direito. Quando a justiça e o direito (cercas que protegem o povo, sobretudo os pequenos) são pisados, é sinal de que o país está próximo da ruína.
2. Evangelho (Mt 21,33-43): Um povo que produza frutos de justiça e direito
Jesus está em Jerusalém e, mais exatamente, no Templo, centro do poder religioso, político, econômico e ideológico daquela época. É aí que ele conta três parábolas: a primeira já foi apresentada (cf. evangelho do domingo passado) e a terceira irá aparecer no próximo domingo. Trata-se de parábolas de confronto e de conflito entre o Mestre da Justiça e os promotores da sociedade injusta, representados pelos chefes dos sacerdotes (poder religioso-ideológico) e anciãos do povo (poder econômico). Na parábola de hoje eles são os vinhateiros. Não só não produzem frutos de justiça e direito, mas impedem que os mensageiros do proprietário (os profetas) suscitem no povo esses mesmos frutos.
A parábola de hoje se encontra também em Marcos e Lucas. Mateus, contudo, a trabalhou a seu modo, conferindo-lhe cores próprias. A primeira mudança substancial que ele introduziu está no fato de Jesus perguntar aos ouvintes (os chefes dos sacerdotes e anciãos do Sinédrio) o que o dono da vinha deveria fazer com aqueles empregados maus que mataram os empregados e o próprio filho do proprietário. E a resposta que dão é a sentença contra eles próprios. Outra mudança substancial é a conclusão da parábola: "O Reino de Deus será tirado de vocês e será entregue a um povo que produzirá seus frutos" (v. 43). Finalmente, é própria de Mateus a insistência sobre os frutos da vinha que representa o Reino de Deus. À luz do texto de Isaías (cf. I leitura) estamos em condições de saber quais são esses frutos: trata-se da justiça e do direito. Sem eles não é possível pertencer ao Reino de Deus (cf. Mt 5,20).
A parábola é uma rápida síntese da história. Deus, representado pelo proprietário da vinha, deu provas de extrema dedicação a seu povo, como o agricultor que cerca sua vinha, põe no centro uma torre de vigia e até cava um lagar para pisar as uvas (v. 33). A vinha tem todas as condições de dar frutos, e o lagar está aí para testemunhar que o processo só será concluído com a apresentação dos frutos. Transpondo a parábola para a vida, constatamos que Deus não quer nada para si. O que ele quer de seu povo são frutos de justiça e direito e isso, bem o sabemos, diz respeito às relações sociais.
A história é o tempo e o lugar onde Deus quer colher frutos de justiça e direito: "Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos" (v. 34). Mas o que tem acontecido ao longo da história do povo de Deus? A parábola mostra uma violência constante e crescente contra os que Deus enviou como seus mensageiros: uns foram espancados, outros mortos, outros ainda apedrejados (v. 35). Para o povo da Bíblia, o apedrejamento era a pior condenação. O proprietário não se cansa, e envia outros empregados, em número maior, mas eles os tratam da mesma forma (v. 36). Jesus traça um quadro totalmente negativo das lideranças do povo: ao amor sempre crescente de Deus corresponde violência sempre maior das lideranças. Alguns estudiosos vêem no primeiro grupo de empregados os profetas antes do exílio e, no segundo, os profetas posteriores ao cativeiro na Babilônia. Esse detalhe não é importante. O interessante é notar que Deus não se cansa de enviar mensageiros e defensores da justiça e do direito mas, tanto naquele tempo como hoje, as lideranças injustas limpam a praça, aumentando sempre mais a violência contra os profetas de Deus.
O v. 37 mostra que Deus esgota todas as possibilidades e arrisca tudo. Sua última tentativa é o envio do próprio filho (o texto subentende que seja o único), imaginando que seja respeitado, pois o filho (Jesus) é o representante legítimo do proprietário (v. 37). É a última tentativa e também a última oportunidade: "Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, tramaram: 'Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança'. Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram" (vv. 38-39).
Tentemos aprofundar esses dados. Em primeiro lugar, a morte de Jesus, o Filho de Deus, não é fruto do acaso. Pelo contrário, é resultado de trama bem montada pelas lideranças que defendem a injustiça e pisam o direito. Em segundo lugar, essas lideranças pretendem perpetuar-se na injustiça e violação do direito, pois querem tomar posse da herança do Filho, ou seja, tentam tornar-se, com essas armas, donos vitalícios do povo. Em terceiro lugar, estão dispostos a pôr para fora da vinha (isto é, eliminar sistematicamente) quantos pretendam seguir o caminho do Filho, que é o caminho da justiça e do direito. Jesus foi crucificado fora da cidade, como bandido e banido da sociedade.
Aqui cabe uma pergunta: esta parábola é uma criação da comunidade após a morte e ressurreição de Jesus? Não é fácil responder. Mas muitos estudiosos crêem que Jesus tenha de fato contado a parábola às lideranças, pois, a essas alturas, no olho do furacão (no Templo de Jerusalém) ele enfrenta as lideranças e desmascara seus planos de morte.
Jesus provoca as lideranças: "Quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?" (v. 40), e elas caem na arapuca: "Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo" (v. 41). Notemos que as lideranças emitem a sentença contra si próprias: são lideranças perversas que merecem a morte e a exclusão do povo que luta pela justiça e direito!
A conclusão da parábola é evidente. Jesus cita o Salmo 118,22s: "A pedra que os construtores rejeitaram (ou seja, ele próprio) tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos" (v. 42). Pedra angular era a que sustentava, no alto, o arco de entrada de toda construção. Sem ela o arco todo cai e não é possível construir coisa alguma. Jesus é essa pedra. Ele é a sustentação do novo povo de Deus, cuja função é produzir, na sociedade, frutos de justiça e direito (cf. v. 43).
3. II leitura (Fl 4,6-9): O sentido da celebração comunitária
Continuamos acompanhando, como segunda leitura, os trechos mais significativos da carta aos Filipenses (para uma visão de conjunto, cf. o comentário à II leitura do 25º Domingo Comum). Após ter mostrado que a comunidade vive conflitos que vêm de fora e também de dentro, Paulo passa à exortação. Para ele a celebração comunitária da eucaristia é momento importante para enxergar com clareza a caminhada e buscar juntos a paz.
O texto de hoje inicia recomendando que os filipenses não se angustiem com nada, mas, em qualquer situação, apresentem a Deus suas necessidades por meio da oração comunitária, no momento da súplica, com sentimentos de gratidão pelo que Deus tem feito às pessoas. Parece ser esse o sentido do v. 6. Fica claro, portanto, que Paulo está falando da celebração comunitária como espaço para a serenidade apesar dos conflitos. E acrescenta: "E a paz de Deus, que vai além de todo entendimento, guardará os seus corações e pensamentos em Cristo Jesus" (v. 7). Paulo não tem dúvidas disso. Ele próprio está cercado de conflitos (está na prisão). Apesar disso, consegue transmitir paz e serenidade, mostrando-nos que é possível conjugar luta e ternura numa sociedade conflituosa. Confirmação disso é o fato de a carta aos Filipenses transmitir alegria e paz de ponta a ponta. E, notemos, trata-se de carta de um presidiário. Se os conflitos brutalizam as pessoas, é sinal de que alguma coisa não está certa. Isso vale também para nós: deixamo-nos brutalizar pelos conflitos? Onde está a ternura? "Os da libertação - disse-me alguém que vê as coisas de fora - parecem pessoas revoltadas".
A seguir, Paulo apresenta uma série de coisas boas a serem aprendidas em comunidade: "Ocupem-se com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor" (v. 8). E conclui: "Pratiquem o que aprenderam e receberam de mim, ou que de mim viram e ouviram" (v. 9). A celebração comunitária, portanto, é o espaço onde nos reforçamos diante dos conflitos e nos abastecemos de ternura; é o lugar onde descobrimos muitas coisas boas e nos animamos na caminhada; onde reavivamos a catequese para a prática cristã. De fato, o v. 9 traz alguns verbos próprios da catequese primitiva: aprender, receber, ver, ouvir e praticar. Notemos, ainda, que Paulo não transmitiu aos filipenses uma catequese abstrata; pelo contrário, era acompanhada de ações em que as pessoas podiam constatar na vida do agente de pastoral o que ele estava transmitindo.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
. A primeira leitura e o evangelho apresentam o tema deste domingo: Deus ama seu povo de modo único e extraordinário. E a resposta positiva que devemos dar a esse amor consiste em ações de justiça e direito. Por isso, será interessante recordar as lutas dos que nos precederam, os mártires da caminhada. Jesus é a sustentação desse povo e de suas lutas. Como traduzimos em nossa vida as exigências do amor de Deus?
. A II leitura convida a celebrar melhor, a suplicar agradecendo, a descobrir e potenciar os valores humanos fundamentais, a nos enchermos de ternura apesar dos conflitos, a redescobrir uma catequese libertadora que nos ajude na caminhada da libertação.