Fuente: Pe. José Bortolini
O BANQUETE DA JUSTIÇA E SEUS CONVIDADOS
I. INTRODUÇÃO GERAL
Comunidade é espaço onde as pessoas se encontram para celebrar a fé e a vida. O horizonte de nossa caminhada é marcado pela fraternidade e plenitude da vida, onde Deus destruirá a morte para sempre (I leitura). A imagem do banquete, na I leitura e no evangelho, nos fala de amizade e partilha. E o próprio Deus marca aí sua presença para sempre.
Celebrar é comprometer-se com Deus e com as pessoas. E a única exigência que o Senhor nos faz é que sejamos gente comprometida com a justiça do Reino, que é liberdade e vida para todos. Quem não veste o traje da justiça do Reino jamais poderá considerar-se parte da comunidade-esposa do Cordeiro.
A Eucaristia é momento de grande catequese. Nela aprendemos que Deus é partilha de tudo com todos. Se confiarmos na solidariedade, tudo poderemos naquele que nos dá força (II leitura).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 25,6-10a): O banquete da fraternidade e da vida para sempre
Os caps. 24-27 formam aquilo que se costumou chamar "o grande apocalipse de Isaías". Ao ler esses textos somos convidados a olhar o horizonte da nossa história, reabastecendo-nos na esperança de um tempo onde tudo será marcado pela paz e fraternidade universais. Os versículos escolhidos como primeira leitura deste domingo trazem essa marca, formando uma espécie de confissão de esperança.
O profeta mostra o que vai acontecer sob a imagem de um grande banquete servido no monte Sião, colina sobre a qual está construída a cidade de Jerusalém. O povo de Deus fez dessa colina seu ponto de encontro e meta de suas romarias, pois aí estava o Templo, morada de Deus. Na visão do profeta, o monte Sião vai se tornar o lugar onde todos os povos vão se encontrar a fim de participar de magnífico banquete oferecido por Deus. Para o povo da Bíblia o banquete é sinal de amizade, partilha, proteção divina, bem-aventurança celeste e fraternidade. Quem oferece esse banquete é o próprio Deus, visto aqui como rei universal que reúne a seu redor toda a humanidade para a festa da vida e da fraternidade.
O profeta descreve o cardápio mais sofisticado daquele tempo (v. 6), querendo com isso mostrar que esse banquete é único. Deus é quem o prepara e o serve também.
Antigamente era costume, durante os banquetes, oferecer presentes aos convidados. O nosso texto fala disso também. E os presentes aí oferecidos são extraordinários: em primeiro lugar, Deus vai acabar com as lágrimas, o luto e a tristeza (v. 7), a fim de que as nações possam, na unidade da fraternidade, celebrar o banquete da vida. O presente mais importante é a destruição, para sempre, da morte (v. 8), pois essa era a maldição que pesava, desde o início, sobre a humanidade (cf. Gn 3,19: "Você comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó, e ao pó voltará").
Os vv. 9-10 são início de novo tema. Trata-se da presença de Deus no meio do seu povo, presença libertadora nos momentos de perigo, como no caso das ameaças dos moabitas. Disso tudo aprendemos que Deus tem a última palavra sobre a história, seu rumo e conclusão. O horizonte da nossa caminhada acena com a fraternidade e a paz de dimensões universais. É para lá que caminhamos, na esperança de que a fraternidade e a vida irão triunfar.
2. Evangelho (Mt 22,1-14): O banquete da justiça e seus convidados
Jesus está em Jerusalém e, mais exatamente, no Templo, centro do poder religioso, político, econômico e ideológico daquele tempo. É aí que ele conta três parábolas: a primeira e a segunda já foram apresentadas (cf. evangelho do 26º e 27º domingos). Trata-se de parábolas de confronto e de conflito entre Jesus, o Mestre da Justiça, e os promotores da sociedade injusta, representados pelos chefes dos sacerdotes (poder religioso-ideológico) e anciãos do povo (poder econômico).
Mateus juntou duas parábolas: a primeira (vv. 1-10) fala dos convidados à festa de casamento do filho do rei; a segunda (vv. 11-13) fala do traje de festa. O v. 14 ("Muitos são chamados e poucos são escolhidos") formava uma sentença à parte. Tudo isso foi harmonizado por Mateus, formando um único tema, cujo título pode ser este: o banquete da justiça e seus convidados. De fato, pudemos perceber, ao longo dos domingos do Tempo Comum deste ano, que o tema da justiça do Reino atravessa todo o evangelho de Mateus, tornando-se chave de leitura importante para a compreensão de toda a obra.
a. As elites não querem a justiça do Reino (vv. 1-10)
Jesus contou a parábola do casamento do filho do rei. É fácil perceber que o rei é Deus e que o filho do rei é Jesus. O casamento recorda a Aliança. Participar dele é comprometer-se com a prática da justiça. Os convidados que recusam o convite são as lideranças do povo (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo). Os empregados são os profetas ou mensageiros que, ao longo da caminhada do povo de Deus, desmascararam as injustiças dos líderes. Parece estranho que esse rei convide, em primeiro lugar, os que detêm o poder econômico e político (os chefes dos sacerdotes e anciãos formavam maioria no Sinédrio). É que as lideranças são as primeiras responsáveis por uma sociedade justa e fraterna.
Parece que na parábola não se fala da noiva. Teria sido esquecida? A resposta virá mais adiante.
O rei preparou a festa de casamento do filho. E mandou os empregados chamar os convidados para a festa, mas eles não quiseram ouvir. O rei mandou outros empregados, dizendo: "Digam aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Venham para a festa" (vv. 2-4). O estudioso J. Jeremias nos informa que naquele tempo "a pessoa convidada esperava que lhe fossem comunicados os nomes de outros convivas e que, independentemente do primeiro convite, algum emissário a chamasse no próprio dia do banquete".
Esta parábola se encontra também em Lucas (14,16-24) com algumas diferenças como, por exemplo, a delicadeza com que os convidados se desculpam, coisa muito própria das elites: sabem tapear com fineza e manipular as coisas a seu gosto. Os convidados segundo a parábola de Mateus são grosseiros e violentos, pois desprezam em bloco o convite: um foi para o campo, outro para seus negócios, e outros agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram (vv. 5-6). E aqui chegamos ao nó da questão. O banquete que Deus oferece é a possibilidade de uma sociedade baseada na justiça do Reino, tema fundamental do evangelho de Mateus. Em vez de se preocupar com a justiça do Reino, que é vida para todos, as elites se ocupam com suas posses e lucros desonestos. De fato, no tempo de Jesus os anciãos eram latifundiários e grandes comerciantes. Mas não é só isso o que eles fazem, pois chegam a torturar e matar os que denunciam suas injustiças.
A parábola é muito severa na sentença: "Indignado, o rei mandou suas tropas, que mataram aqueles assassinos e puseram fogo na cidade deles" (v. 7). As elites se excluíram do Reino de Deus e sua justiça.
b. Os marginalizados participam do banquete (vv. 8-10)
O Reino da justiça não fracassa por causa da recusa das elites em construir uma sociedade justa e fraterna, pois o rei envia os empregados às encruzilhadas dos caminhos. Eles convidam para a festa todos os que encontram, maus e bons, de modo que a sala fique cheia de convidados (vv. 8-10). A palavra grega diecsodous, traduzida por encruzilhadas dos caminhos, lembra o fim das ruas da cidade, onde começam as estradas da roça. Em linguagem mais apropriada ao nosso tempo, poderíamos afirmar que os empregados do rei se dirigem às periferias (aos excluídos) e convidam todas as pessoas que encontram, pois será com elas e a partir delas que o Reino de justiça irá transformar a sociedade.
c. Os empobrecidos precisam aprender a justiça do Reino (vv. 11-14)
Os vv. 11-13 são próprios de Mateus. Passando entre os convidados, o rei percebe que um deles não tem o traje de festa. Os que estudaram a sociedade do tempo de Jesus afirmam que não era necessária roupa especial para participar dos banquetes. O que significa, então, a roupa de festa? P. Bonnard garante que ela representa a justiça, exigência permanente ao longo do evangelho de Mateus (cf. 5,20: "Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu"). Desse modo é possível entender o sentido do v. 14: "Muitos são chamados e poucos são escolhidos", em outras palavras, "há mais chamados que escolhidos". Isso porque o compromisso com a justiça do Reino é a única resposta coerente que podemos dar ao chamado gratuito de Deus.
O traje de festa (literalmente traje de bodas) era o nome que se dava à roupa do noivo e, particularmente, ao vestido da noiva no dia do casamento. Para surpresa nossa, descobrimos então quem é a noiva do filho do rei: somos todos e cada um de nós, desde que vistamos a roupa da justiça. Isso fica mais claro se associarmos a parábola ao Apocalipse (19,8). Lá se diz que a noiva do Cordeiro já está pronta, pois se vestiu de linho puro resplandecente. E o autor do Apocalipse não deixa dúvidas: o linho resplandecente representa as ações de justiça das pessoas e das comunidades comprometidas com Jesus, que Mateus apresenta como o Mestre da Justiça.
3. II leitura (Fl 4,12-14.19-20): O banquete da solidariedade
Os filipenses, sabendo que Paulo está na cadeia, enviaram-lhe Epafrodito com doações, a fim de aliviar suas penas. Os versículos lidos na liturgia deste domingo são o agradecimento do Apóstolo à solidariedade manifestada.
Paulo não fica contente por ter ganho coisas, podendo assim ter vida melhor, pois não é movido pela ganância ou acúmulo de bens. Ele aprendeu o segredo de viver, ou seja, nem a pobreza nem a riqueza são capazes de mudar suas convicções, pois a força que o sustenta em todos os momentos da vida é Deus: "Tudo posso naquele que me dá força" (v. 13).
Paulo jamais aceitou coisa alguma das comunidades por onde passou anunciando o Evangelho (com exceção da igreja de Filipos). Isso porque tomou a decisão de não misturar pregação com sobrevivência, mesmo contando com as palavras de Jesus: "O operário tem direito ao seu alimento" (cf. Mt 10,10). Contudo, ele dá graças a Deus pelo gesto dos filipenses. Ele se alegra pela solidariedade e partilha, sinal de que a comunidade entendeu o que significa o Evangelho por ele anunciado. De fato, ao longo da carta aos Filipenses podemos perceber que Paulo se despojou de todas as prerrogativas, fez-se servidor, estando inclusive disposto a entregar a vida, à semelhança de Jesus, que se esvaziou, fazendo-se servo, obediente até a morte e morte numa cruz (cf. 2,6-11).
Paulo não tem como pagar, exatamente como os pobres de nossa sociedade. Quem vai pagar os filipenses, mas de forma diferente, é o próprio Deus: "O meu Deus lhes dará tudo o de que vocês precisam segundo a sua riqueza, em Cristo Jesus " (v. 19).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
. A I leitura aponta para o horizonte da nossa história. É para lá que caminhamos, ou seja, rumo a uma sociedade onde haja somente vida e fraternidade universais. Enquanto caminhamos, aprendemos, na solidariedade, a enxugar lágrimas, eliminando lutos e tristezas. Isso já está acontecendo em nossas comunidades?
. O evangelho, mais uma vez, é um convite a nos posicionar a favor da justiça do Reino, que é liberdade e vida para todos. A comunidade dos que seguem a Jesus só será esposa do Cordeiro quando vestir o traje da justiça. Quais são, pois, as condições exigidas para participar do banquete do Reino?
. Paulo nos ajuda a ser gratuitos. Nossas comunidades são solidárias com os empobrecidos? Em que consiste a solidariedade? Qual a diferença entre solidariedade e beneficência?
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Porque así como el pecado reinó para muerte, así también la gracia reinará por la justicia para vida eterna mediante Jesucristo, Señor nuestro.
Romanos 5.21
Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.
Romanos 5.21
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