Pe Jose Bortolini I. INTRODUÇÃO GERAL "Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos vossa vinda". Vivemos tempo de espera. Enquanto esperamos, celebramos já a nossa vitória com Cristo Jesus, até que ele se manifeste plenamente, até estarmos para sempre com o Senhor (II leitura, 1Ts 4,13-18 ). Enquanto isso não acontece, vamos buscando um sentido para nossa caminhada e para a vida, na certeza de que vale a pena madrugar ou ficar vigiando a fim de encontrar esse sentido (I leitura, Sb 6,12-16 ). Enquanto não chegar a hora de "ir ao encontro do noivo", vamos enchendo nossas lâmpadas com o óleo da justiça, a fim de que a morte, coroa de nossa vida, nos introduza na festa de casamento que não termina (evangelho, Mt 25,1-13 ). II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1. I leitura (Sb 6,12-16): A busca de um sentido para a vida O livro da Sabedoria foi escrito na segunda metade do séc. I a.C. É o mais recente dos livros do Antigo Testamento. Seu autor é um judeu piedoso de Alexandria, capital cultural do helenismo e grande concentração de judeus dispersos. A comunidade judaica de Alexandria sente o desejo de inculturar a fé dos antepassados, assimilando os valores da cultura grega, sem abandonar o núcleo central da fé judaica. Percebe-se, nesse livro, a abertura para o diálogo com a cultura grega. O autor fala da sabedoria, comparando-a às vezes com uma jovem muito bonita a ser conquistada e amada. Quem é essa sabedoria? Propositalmente o autor do livro não a define, permitindo que os leitores e ouvintes, não judeus ou judeus, façam suas aplicações: alguém poderá pensar que ela seja o próprio sentido da vida que resulta de experiências vitais amadurecidas com o tempo; outros poderão deduzir que a sabedoria é o próprio Deus ou o seu projeto. Os versículos deste domingo falam dessa personagem misteriosa, procurada e desejada, pela qual vale a pena madrugar ou ficar de vigília à sua espera, pois ela se deixa encontrar, antecipando-se e dando-se a conhecer aos que a desejam. Ela deve ser procurada a qualquer hora do dia: de manhã (v. 14a) e pelas noites (v. 15b), e em qualquer lugar: à porta (v. 14b) e pelas estradas (v. 16b), ou seja, sempre e em qualquer lugar. O esforço para encontrar a sabedoria será logo recompensado, pois ela própria se dá a conhecer sem dificuldades, dando sentido a tudo o que realizam. 2. Evangelho (Mt 25,1-13): Vigiar é praticar a justiça A parábola das dez virgens faz parte do "discurso escatológico" de Mateus (caps. 24-25). Ela fala do final dos tempos. Muitas pessoas ficam perplexas e perdem o sono diante da vida, seus desafios e suas múltiplas possibilidades de realização (cf. v. 15). Algumas pessoas desanimam na busca de um sentido para a própria existência, desistindo inclusive de viver. O texto de hoje nos ensina que a vida tem sentido, mas ele não nos é dado de "mão beijada": é preciso lutar para encontrá-lo. Os que assim agem vão perceber, dentro em breve, que a vida está presente em todos os seus projetos (cf. v. 16), portanto, identificar as personagens da parábola: o noivo é Jesus, o esperado; as dez virgens são as pessoas que, no tempo que se chama hoje, vão se preparando para a vinda do esposo; o tempo da demora são os nossos dias, feitos de expectativa e esperança; e o casamento é símbolo da festa final, à qual todos os seguidores de Jesus estão desde já convidados, com a condição de estarem comprometidos com a prática da justiça do Reino (óleo). Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer no final dos tempos. Para Mateus e suas comunidades, não interessa a especulação sobre os detalhes. O evangelista, contudo, nos dá algumas indicações: longe de satisfazerem nossa curiosidade, essas indicações apontam para o modo como devemos agir hoje a fim de podermos participar da festa final. De fato, a parábola aponta para seu final, que é a celebração do casamento de Jesus com a humanidade. Nós somos convidados para essa festa. Contudo, desde já precisamos saber que a porta estará aberta para uns e fechada para outros. Jesus tomou como pano de fundo uma festa de casamento do seu tempo, realizado à tardinha e, às vezes, de noite. A noiva ficava em sua casa, aguardando a chegada do noivo. Era costume que um grupo de amigas estivesse com ela durante o tempo de espera. O noivo, por sua vez, não tinha hora marcada para chegar, o que aumentava a expectativa. Na parábola, o noivo chega em hora inusitada, quando todos já estão dormindo. Esse elemento é importante para as comunidades de Mateus, ansiosas pela vinda de Jesus (cf. também a II leitura): Jesus chega de improviso e, enquanto ele não chegar, é preciso vigiar (cf. v. 13: "Fiquem vigiando, porque vocês não sabem qual será o dia, nem a hora"). O que é vigiar? Como se pode falar em vigilância quando todas as virgens da parábola acabam dormindo, sem que isso seja considerado ato de insensatez? A vigilância, na parábola, não consiste no fato de as virgens ficarem acordadas, e sim no fato de terem ou não óleo suficiente para suas lâmpadas. De fato, quando é dado o grito que anuncia a chegada do noivo, não há mais tempo para sair em busca de óleo, pois logo em seguida iniciam os festejos e, quem tem óleo em suas lâmpadas, entra a fazer parte da festa, ao passo que quem não tinha óleo consigo, mesmo que o encontrasse, encontraria a porta fechada. Vigilância, portanto, é estar pronto para a "hora do grito", isto é, desde o começo. Mas como é que as pessoas podem estar prontas desde o começo? A resposta parece estar na leitura que fazemos do significado do óleo. Isso não é fácil, pois é possível ler aí muitas coisas. Segundo o ensinamento rabínico, o óleo é símbolo das ações de justiça . Essa informação é importante e nos remete ao cerne do evangelho de Mateus. Aí Jesus é apresentado como o Mestre da Justiça. Sendo a parábola das dez virgens um texto que fala do final dos tempos, é fácil então perceber como podemos estar ou não prontos para o banquete final: a preparação depende de nosso compromisso com a justiça do Reino. É inútil querer, em cima da hora, arrumar um pouco de azeite junto a outras pessoas, pois cada qual é responsável pelo que acumulou ao longo da própria vida. A recusa das cinco virgens prudentes em emprestar óleo para as cinco sem juízo é sintomática: não é possível a transferência de "méritos" de uma pessoa a outra. Cada qual irá receber pelo que fez. Além disso, descobrimos o que, finalmente, é ter juízo ou não tê-lo em nossa sociedade: bom senso ou loucura dependem da consciência que temos da justiça e da prática que daí deriva. Estar prontos para a hora do grito é, portanto, ser criadores de uma prática da justiça que traduza em concreto o Reino de Deus inaugurado por Jesus: "Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e a dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do céu" (5,20). Sendo a parábola um texto que fala do final dos tempos, permite-nos também uma consideração sobre a morte do discípulo de Jesus, o Mestre da Justiça. Nossa vida presente é um convite constante à festa da vida que não termina (casamento). Mas a porta estará aberta ou fechada de acordo com nossa prática da justiça ou da injustiça, pois a morte do discípulo é fruto e coroa da vida que levamos. 3. II leitura (1Ts 4,13-18): Estaremos sempre com o Senhor Um dos temas importantes de 1Ts é o da vinda do Senhor. É que Timóteo, voltando da visita que fez à comunidade de Tessalônica, relatou a Paulo a tristeza de alguns que perderam entes queridos no período que vai da fundação da comunidade à visita de Timóteo. Ao fundar a comunidade, Paulo havia transmitido os conteúdos básicos da fé cristã, ou seja, que Jesus morreu e ressuscitou (cf. v. 14) e que virá dentro em breve (parusia). Paulo, e com ele muitos dos primeiros cristãos, acreditavam estar ainda vivos por ocasião dessa vinda (v. 17). A dificuldade dos tessalonicenses reside no fato de uma possível desvantagem dos que já morreram em relação aos que ainda vivem por ocasião da vinda do Senhor Jesus (cf. v. 15). O fato serve de ocasião para que Paulo continue transmitindo, desta vez por carta, os conteúdos básicos da fé cristã. Um desses conteúdos diz respeito à condição dos que já passaram desta vida. Para ele, a tristeza diante da morte é fruto do desconhecimento daquilo que acontece com os que morrem, e é própria dos que não têm esperança (v. 13). Em seguida, mostra que os cristãos têm a mesma sorte de Jesus: "Se Jesus morreu e ressuscitou - e é esta a nossa fé - assim também Deus levará, por Jesus e com Jesus, aqueles que morreram" (v. 14), sem que os vivos possam ter vantagem sobre os falecidos (v. 15). A seguir, Paulo fala da vinda de Jesus. Ele a descreve nos moldes das apresentações em público das grandes personagens daquele tempo, usando inclusive termos próprios de teofanias. De fato, o texto fala de nuvens, trombeta, ares, céu, palavras que recordam a peregrinação do povo no Antigo Testamento ao encontro de Deus no monte Sinai. A peregrinação do novo povo de Deus é em direção à Jerusalém celeste, de modo que "assim estaremos sempre com o Senhor" (v. 17b). Os cristãos de Tessalônica tinham grande apreço pela união das pessoas, inclusive a união com os que já passaram desta vida. Paulo soube captar, com sensibilidade, esse sentimento e apresentar uma resposta à altura da fé: Deus não deixa sem solução o desejo que eles têm de comunhão e união; pelo contrário, a pessoa de Jesus ressuscitado é o cimento que une ao seu redor todos, tanto os que já morreram quanto os que ainda estão vivos: "Deus levará, por Jesus e com Jesus, aqueles que morreram. nós, os que estivermos ainda vivos, seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor, nos ares. Consolem-se, pois, uns aos outros com essas palavras".
III. PISTAS PARA REFLEXÃO. A I leitura ( Sb 6,12-16 ) nos mostra que o ser humano está à procura de algo que pode ser traduzido como o sentido da vida ou o desejo de absoluto. Quem procura a sabedoria que oriente sua vida irá encontrá-la em todos os seus projetos. . A parábola das dez virgens ( Mt 25,1-13 ) mostra que cada qual irá receber pelo que fez. Vigiar, na parábola, é comprometer-se com a prática da justiça. Um sábio judeu gostava de dizer às pessoas: "Viva hoje como se fosse morrer amanhã". . O texto da carta aos Tessalonicenses ( 1Ts 4,13-18 ) é de grande consolo e esperança para quantos custam aceitar a morte de pessoas amadas. Além disso, reforça o sentido da união e comunhão entre as pessoas. |
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