Mateus 25.1-13

Pe Jose Bortolini

I. INTRODUÇÃO GERAL

"Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos vossa vinda".

Vivemos tempo de espera. Enquanto esperamos, celebramos já a nossa vitória com Cristo Jesus, até que ele se manifeste plenamente, até estarmos para sempre com o Senhor (II leitura, 1Ts 4,13-18 ). Enquanto isso não acontece, vamos buscando um sentido para nossa caminhada e para a vida, na certeza de que vale a pena madrugar ou ficar vigiando a fim de encontrar esse sentido (I leitura, Sb 6,12-16 ). Enquanto não chegar a hora de "ir ao encontro do noivo", vamos enchendo nossas lâmpadas com o óleo da justiça, a fim de que a morte, coroa de nossa vida, nos introduza na festa de casamento que não termina (evangelho, Mt 25,1-13 ).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 6,12-16): A busca de um sentido para a vida

O livro da Sabedoria foi escrito na segunda metade do séc. I a.C. É o mais recente dos livros do Antigo Testamento. Seu autor é um judeu piedoso de Alexandria, capital cultural do helenismo e grande concentração de judeus dispersos. A comunidade judaica de Alexandria sente o desejo de inculturar a fé dos antepassados, assimilando os valores da cultura grega, sem abandonar o núcleo central da fé judaica. Percebe-se, nesse livro, a abertura para o diálogo com a cultura grega.

O autor fala da sabedoria, comparando-a às vezes com uma jovem muito bonita a ser conquistada e amada. Quem é essa sabedoria? Propositalmente o autor do livro não a define, permitindo que os leitores e ouvintes, não judeus ou judeus, façam suas aplicações: alguém poderá pensar que ela seja o próprio sentido da vida que resulta de experiências vitais amadurecidas com o tempo; outros poderão deduzir que a sabedoria é o próprio Deus ou o seu projeto.

Os versículos deste domingo falam dessa personagem misteriosa, procurada e desejada, pela qual vale a pena madrugar ou ficar de vigília à sua espera, pois ela se deixa encontrar, antecipando-se e dando-se a conhecer aos que a desejam. Ela deve ser procurada a qualquer hora do dia: de manhã (v. 14a) e pelas noites (v. 15b), e em qualquer lugar: à porta (v. 14b) e pelas estradas (v. 16b), ou seja, sempre e em qualquer lugar. O esforço para encontrar a sabedoria será logo recompensado, pois ela própria se dá a conhecer sem dificuldades, dando sentido a tudo o que realizam.

2. Evangelho (Mt 25,1-13): Vigiar é praticar a justiça

A parábola das dez virgens faz parte do "discurso escatológico" de Mateus (caps. 24-25). Ela fala do final dos tempos.

Muitas pessoas ficam perplexas e perdem o sono diante da vida, seus desafios e suas múltiplas possibilidades de realização (cf. v. 15). Algumas pessoas desanimam na busca de um sentido para a própria existência, desistindo inclusive de viver. O texto de hoje nos ensina que a vida tem sentido, mas ele não nos é dado de "mão beijada": é preciso lutar para encontrá-lo. Os que assim agem vão perceber, dentro em breve, que a vida está presente em todos os seus projetos (cf. v. 16), portanto, identificar as personagens da parábola: o noivo é Jesus, o esperado; as dez virgens são as pessoas que, no tempo que se chama hoje, vão se preparando para a vinda do esposo; o tempo da demora são os nossos dias, feitos de expectativa e esperança; e o casamento é símbolo da festa final, à qual todos os seguidores de Jesus estão desde já convidados, com a condição de estarem comprometidos com a prática da justiça do Reino (óleo).

Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer no final dos tempos. Para Mateus e suas comunidades, não interessa a especulação sobre os detalhes. O evangelista, contudo, nos dá algumas indicações: longe de satisfazerem nossa curiosidade, essas indicações apontam para o modo como devemos agir hoje a fim de podermos participar da festa final. De fato, a parábola aponta para seu final, que é a celebração do casamento de Jesus com a humanidade. Nós somos convidados para essa festa. Contudo, desde já precisamos saber que a porta estará aberta para uns e fechada para outros.

Jesus tomou como pano de fundo uma festa de casamento do seu tempo, realizado à tardinha e, às vezes, de noite. A noiva ficava em sua casa, aguardando a chegada do noivo. Era costume que um grupo de amigas estivesse com ela durante o tempo de espera. O noivo, por sua vez, não tinha hora marcada para chegar, o que aumentava a expectativa. Na parábola, o noivo chega em hora inusitada, quando todos já estão dormindo. Esse elemento é importante para as comunidades de Mateus, ansiosas pela vinda de Jesus (cf. também a II leitura): Jesus chega de improviso e, enquanto ele não chegar, é preciso vigiar (cf. v. 13: "Fiquem vigiando, porque vocês não sabem qual será o dia, nem a hora").

O que é vigiar? Como se pode falar em vigilância quando todas as virgens da parábola acabam dormindo, sem que isso seja considerado ato de insensatez? A vigilância, na parábola, não consiste no fato de as virgens ficarem acordadas, e sim no fato de terem ou não óleo suficiente para suas lâmpadas. De fato, quando é dado o grito que anuncia a chegada do noivo, não há mais tempo para sair em busca de óleo, pois logo em seguida iniciam os festejos e, quem tem óleo em suas lâmpadas, entra a fazer parte da festa, ao passo que quem não tinha óleo consigo, mesmo que o encontrasse, encontraria a porta fechada.

Vigilância, portanto, é estar pronto para a "hora do grito", isto é, desde o começo. Mas como é que as pessoas podem estar prontas desde o começo? A resposta parece estar na leitura que fazemos do significado do óleo. Isso não é fácil, pois é possível ler aí muitas coisas. Segundo o ensinamento rabínico, o óleo é símbolo das ações de justiça . Essa informação é importante e nos remete ao cerne do evangelho de Mateus. Aí Jesus é apresentado como o Mestre da Justiça. Sendo a parábola das dez virgens um texto que fala do final dos tempos, é fácil então perceber como podemos estar ou não prontos para o banquete final: a preparação depende de nosso compromisso com a justiça do Reino. É inútil querer, em cima da hora, arrumar um pouco de azeite junto a outras pessoas, pois cada qual é responsável pelo que acumulou ao longo da própria vida. A recusa das cinco virgens prudentes em emprestar óleo para as cinco sem juízo é sintomática: não é possível a transferência de "méritos" de uma pessoa a outra. Cada qual irá receber pelo que fez. Além disso, descobrimos o que, finalmente, é ter juízo ou não tê-lo em nossa sociedade: bom senso ou loucura dependem da consciência que temos da justiça e da prática que daí deriva.

Estar prontos para a hora do grito é, portanto, ser criadores de uma prática da justiça que traduza em concreto o Reino de Deus inaugurado por Jesus: "Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e a dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do céu" (5,20). Sendo a parábola um texto que fala do final dos tempos, permite-nos também uma consideração sobre a morte do discípulo de Jesus, o Mestre da Justiça. Nossa vida presente é um convite constante à festa da vida que não termina (casamento). Mas a porta estará aberta ou fechada de acordo com nossa prática da justiça ou da injustiça, pois a morte do discípulo é fruto e coroa da vida que levamos.

3. II leitura (1Ts 4,13-18): Estaremos sempre com o Senhor

Um dos temas importantes de 1Ts é o da vinda do Senhor. É que Timóteo, voltando da visita que fez à comunidade de Tessalônica, relatou a Paulo a tristeza de alguns que perderam entes queridos no período que vai da fundação da comunidade à visita de Timóteo. Ao fundar a comunidade, Paulo havia transmitido os conteúdos básicos da fé cristã, ou seja, que Jesus morreu e ressuscitou (cf. v. 14) e que virá dentro em breve (parusia). Paulo, e com ele muitos dos primeiros cristãos, acreditavam estar ainda vivos por ocasião dessa vinda (v. 17). A dificuldade dos tessalonicenses reside no fato de uma possível desvantagem dos que já morreram em relação aos que ainda vivem por ocasião da vinda do Senhor Jesus (cf. v. 15).

O fato serve de ocasião para que Paulo continue transmitindo, desta vez por carta, os conteúdos básicos da fé cristã. Um desses conteúdos diz respeito à condição dos que já passaram desta vida. Para ele, a tristeza diante da morte é fruto do desconhecimento daquilo que acontece com os que morrem, e é própria dos que não têm esperança (v. 13). Em seguida, mostra que os cristãos têm a mesma sorte de Jesus: "Se Jesus morreu e ressuscitou - e é esta a nossa fé - assim também Deus levará, por Jesus e com Jesus, aqueles que morreram" (v. 14), sem que os vivos possam ter vantagem sobre os falecidos (v. 15).

A seguir, Paulo fala da vinda de Jesus. Ele a descreve nos moldes das apresentações em público das grandes personagens daquele tempo, usando inclusive termos próprios de teofanias. De fato, o texto fala de nuvens, trombeta, ares, céu, palavras que recordam a peregrinação do povo no Antigo Testamento ao encontro de Deus no monte Sinai. A peregrinação do novo povo de Deus é em direção à Jerusalém celeste, de modo que "assim estaremos sempre com o Senhor" (v. 17b).

Os cristãos de Tessalônica tinham grande apreço pela união das pessoas, inclusive a união com os que já passaram desta vida. Paulo soube captar, com sensibilidade, esse sentimento e apresentar uma resposta à altura da fé: Deus não deixa sem solução o desejo que eles têm de comunhão e união; pelo contrário, a pessoa de Jesus ressuscitado é o cimento que une ao seu redor todos, tanto os que já morreram quanto os que ainda estão vivos: "Deus levará, por Jesus e com Jesus, aqueles que morreram. nós, os que estivermos ainda vivos, seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor, nos ares. Consolem-se, pois, uns aos outros com essas palavras".


 

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

. A I leitura ( Sb 6,12-16 ) nos mostra que o ser humano está à procura de algo que pode ser traduzido como o sentido da vida ou o desejo de absoluto. Quem procura a sabedoria que oriente sua vida irá encontrá-la em todos os seus projetos.

. A parábola das dez virgens ( Mt 25,1-13 ) mostra que cada qual irá receber pelo que fez. Vigiar, na parábola, é comprometer-se com a prática da justiça. Um sábio judeu gostava de dizer às pessoas: "Viva hoje como se fosse morrer amanhã".

. O texto da carta aos Tessalonicenses ( 1Ts 4,13-18 ) é de grande consolo e esperança para quantos custam aceitar a morte de pessoas amadas. Além disso, reforça o sentido da união e comunhão entre as pessoas.


Porque así como el pecado reinó para muerte, así también la gracia reinará por la justicia para vida eterna mediante Jesucristo, Señor nuestro.
Romanos 5.21

Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.
Romanos 5.21

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