
La Red de Liturgia es una iniciativa latinoamericana que nace en 1991 de la mano del pastor brasileño Ernesto Barros Cardoso, como una manera de crear lazos firmes entre las personas que deseaban compartir sus experiencias en este terreno de la vida eclesial.
Nosso Deus é único e diferente porque é libertador
Pe Jose Bortolini
I. INTRODUÇÃO GERAL
Facilmente fabricamos deuses para nós, e facilmente nos submetemos a seus caprichos e seduções. Às vezes aceitamos pacificamente os ídolos que nos são impostos pela sociedade consumista e gananciosa, que favorece a vida a uns poucos, mas gera a morte de muitos. Por causa disso amargamos exploração, opressão e violência. O único Deus verdadeiro é Javé, o Deus que liberta para que todos tenham vida. Sua originalidade e unicidade consistem nisto: ser nosso parceiro fiel e libertador (I leitura), ser nosso Pai, que nos dá o Reino em herança, adotando-nos como filhos e eliminando, pelo Espírito de Jesus, o medo que nos escraviza e aprisiona (II leitura). Esse Deus se revela na prática da comunidade cristã que vai refazendo os gestos de Jesus, até que o mundo seja transformado e tudo se torne posse da Trindade (evangelho).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I Leitura (Dt 4,32-34.39-40): Javé é o único Deus porque é o libertador
NO capítulo 4 do Deuteronômio, apesar de conservar o estilo de todo o livro, é um acréscimo feito no tempo do exílio na Babilônia. A tônica desse capítulo, colocado no fim do primeiro discurso de Moisés (Dt 1,6-4,40), é o monoteísmo, com o conseqüente desmascaramento dos ídolos. Só quem liberta da escravidão é que deve ser considerado Deus. Aliás, a unicidade e originalidade do Deus de Israel consistem justamente no fato de ser o Deus que age na história como aliado fiel. Portanto, Javé não é um Deus de conceitos, mas agente de fatos libertadores do seu povo. E a fé do povo não é abstrata, mas está ancorada na história, na experiência daquele que age libertando.
O texto de hoje começa olhando para o passado de Deus e das pessoas (vv. 32-34), visando suscitar o reconhecimento - tomada de consciência (v. 39), para conduzir à práxis geradora de felicidade, vida longa, descendência e posse da terra (v. 40).
Olhando para o passado (vv. 32-34) o povo descobre que o Senhor esteve ao lado dele. A criação foi grandiosa, porém mais eloqüente foi a Aliança do Sinai, onde Deus se mostrou próximo e parceiro na caminhada da libertação. O povo pôde conversar com ele, conservando a vida. A originalidade e exclusividade de Javé está em ter escolhido um povo no meio dos outros, libertando-o do sofrimento e opressão em que se encontrava (escravidão no Egito). O v. 34 mostra como isso aconteceu, enumerando sete recursos usados por Javé no processo da libertação: provas, sinais, prodígios, luta, mão forte, braço estendido e grande terror. O Deus de Israel luta com tudo o que pode para libertar seu parceiro. E nisso ele é único e original: os ídolos não podem e não devem escravizar o povo de Deus! Se isso acontecer, Javé está em guerra, pois ele quer seu povo livre para viver a comunhão com ele (Aliança).
Olhando para o presente (v. 39). A memória do parceiro fiel suscita o reconhecimento naqueles que agora sofrem novamente o exílio, desta vez na Babilônia. O passado serve de lição que ilumina o presente. O exílio não pode ser atribuído a Javé, mas sim à dureza de coração do povo que não se comportou como companheiro da Aliança. Aderindo aos ídolos, o povo acabou sendo por eles devorado. Daí surge a amarga constatação: de fato, nenhum ídolo pode libertar, pois o que ele faz não é dar vida às pessoas, mas tirá-la.
Planejando o futuro (v. 40). A tomada de consciência leva à adesão a Javé. Essa adesão consiste em reatar a Aliança rompida, e isso é feito através das leis e mandamentos. Em outras palavras, será necessário recuperar a fé no Deus que age na história libertando. Essa fé se traduz num projeto em que a vida e a liberdade sejam buscadas e preservadas com toda determinação. Delas dependem a felicidade, descendência, vida longa e posse da terra.
2. Evangelho (Mt 28,16-20): O Deus-conosco se revela na práxis da comunidade cristã
O texto é a conclusão do Evangelho de Mateus. Pode ser dividido em três momentos: a. Um relato de aparição (vv. 16-17); b. instrução de Jesus aos discípulos (vv. 18-20a); c. promessa (v. 20b).
a. A experiência do Ressuscitado (16-17)
Inicia-se falando dos Onze discípulos que se dirigem à Galiléia, ao monte que Jesus havia indicado (v. 16). A comunidade dos discípulos tomou o rumo certo: a Galiléia. É bom lembrar o que significa para o evangelista essa localização. Para entendê-lo, devemos recordar o início da atividade de Jesus. Ele começa sua missão na Galiléia das nações (ler Mt 4,12-17), no meio daquela gente pisada e marginalizada, a fim de levar-lhe a Boa Notícia da libertação e da vida do Reino. É para lá que os discípulos se dirigem. É o lugar do testemunho e ação da comunidade cristã. Os discípulos, em Jesus e a partir dele, dão início à práxis cristã.
Mateus fala também de um monte como ponto de encontro de Jesus com sua comunidade. Não se trata de localizar geograficamente esse ponto de encontro. É um monte que recorda a atividade de Jesus. Nesse sentido, o monte é o das tentações (4,8-10), o da transfiguração (17,1-6), mas sobretudo o monte sobre o qual Jesus anunciou seu programa missionário: o monte das bem-aventuranças (5,1-7,29). Agindo assim, a comunidade se torna autêntica discípula. Identifica-se com Jesus e seu projeto (os discípulos se prostram diante dele).
Contudo, há sempre o risco de não acolher plenamente o significado da prática de Jesus na vida da comunidade: "ainda assim alguns duvidaram" (v. 17b). O verbo duvidar (edistesan em grego), ao longo do Evangelho de Mateus, encontra-se somente aqui e em 14,31, onde Pedro duvida e afunda na água. Duvidar, portanto, comporta a falta de fé, mas também a falta de percepção maior da prática de Jesus que vence todas as formas de morte e alienação. Dúvida é ter medo do risco e do compromisso. É um alerta que acompanha constantemente a comunidade cristã, colocando-a numa atitude de conversão permanente ao projeto de Deus.
b. O poder de Jesus é passado à comunidade (vv. 18-20a)
Durante sua vida terrena, Jesus agia como aquele homem ao qual Deus dera seu poder (cf. 9,6-8), fazendo com que as pessoas glorificassem a Deus. Agora, ressuscitado, possui "toda autoridade no céu e sobre a terra" (v. 18b). Essa autoridade plena foi-lhe dada pelo Pai (o passivo "me foi dada" refere-se a Deus) e é muito próxima aos homens (Jesus "se aproximou dos discípulos", v. 18a). Não só está próxima, como é entregue, por Jesus, à comunidade cristã: "Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos" (v. 19a). A Galiléia é o ponto de partida, e a meta é fazer com que o projeto de Deus alcance a todos, tornando-os Povo de Deus, realizando assim a promessa feita a Abraão (Gn 17,4s; 22,18). O botão que acende a luz do projeto de Deus é a prática da justiça, pois é assim que Jesus se apresenta no Evangelho de Mateus: "Devemos cumprir toda a justiça" (Mt 3,15).
Os meios para fazer com que todos os povos se tornem discípulos de Jesus, isto é, capazes de uma prática de justiça que realize o Reino, são dois: o Batismo em nome da Trindade (v. 19b) e a catequese que visa à observância de tudo o que Jesus ensinou (v. 20a).
. O Batismo é feito em nome da Trindade. Batiza-se em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O texto grego de Mateus emprega a preposição eis, para não confundi-la com a preposição en. Com isso, afirma que o Batismo em nome da Trindade é a vinculação pela qual o ser humano está plenamente comprometido com o projeto de Deus revelado no Filho e atualizado na práxis cristã, iluminada pelo Espírito. Ser batizado em nome da Trindade significa dedicação total, consagração, posse da Trindade a serviço da justiça.
. O segundo meio é a catequese que leva a observar tudo o que Jesus ensinou. O que foi que Jesus ensinou? A síntese dos mandamentos de Jesus está no sermão da montanha (5,1-7,29). É a esse código de práxis cristã que se referirá toda a catequese da comunidade primitiva e das comunidades cristãs de hoje. Essa catequese não é outra coisa senão a recordação da prática de Jesus, visando à prática cristã.
c. Jesus é aquele que caminha conosco (v. 20b)
O Evangelho de Mateus termina com uma promessa: "Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo" (v. 20b). Mateus havia iniciado o evangelho apresentando Jesus como o Emanuel (Deus-conosco; cf. 1,23), e o conclui mostrando-o continuamente vivo e presente na vida da comunidade. Jesus não se afasta do mundo; pelo contrário, firma sua indestrutível presença na história, que é ao mesmo tempo história de Deus e dos homens a serviço da justiça que traz o Reino para dentro da nossa caminhada.
3. II leitura (Rm 8,14-17): A comunidade cristã, família de Deus
A carta aos Romanos é um texto que Paulo escreveu a uma comunidade que não fundou. Mas conhecia pessoalmente muitos membros dessa comunidade (cf. 16,1-15), bem como os problemas que os inquietavam. Os membros dessa comunidade provinham de raças e culturas diferentes, e viviam em ambiente hostil e pesado. Um dos motivos pelos quais Paulo escreveu aos romanos é justamente animar e fortalecer o espírito cristão dentro desse contexto difícil, marcado pelo fatalismo e exploração das pessoas, por deuses gananciosos e opressores, que dominavam o mundo pelo medo e violência, segregando e dividindo as pessoas entre dominadores e dominados.
O cap. 8 da carta aos Romanos pode ser resumido nesta expressão "a vida no Espírito". Neste capítulo, Paulo apresenta os dois princípios básicos que orientam a vida do cristão: o Espírito que comunica vida (vv. 1-13) e a filiação divina do cristão (vv. 14-30). Os versículos restantes do mesmo capítulo (vv. 31-39) são um hino a Deus que realiza seu projeto na história.
Os versículos da liturgia de hoje, portanto, falam da filiação divina do cristão. Numa cidade cheia de contrastes (sociais, políticos etc.) como Roma, os cristãos são convidados à novidade de formarem família de Deus, não em base ao parentesco no sangue, mas na adesão ao Espírito de Deus (v. 14). É ele o princípio da vida nova, capaz de unir a todos na igualdade e fraternidade. Paulo, para salientar a proximidade e o amor da Trindade para com as pessoas, não encontrou definição mais forte do que esta: somos a família de Deus. Ele é nosso Pai comum, fazendo com que a fraternidade alcance a todos, superando desigualdades sociais e medo. Nossa relação com ele exprime o que há de mais íntimo e confiante. Podemos, pelo Espírito, chamá-lo "Abbá, meu Pai" (v. 15), exatamente como Jesus o chamou (cf. Mc 14,36).
Na condição de filhos, os cristãos recebem a herança do Pai, que nada reserva para si. Senhor e dono absoluto de todas as coisas, tudo dá a seus filhos. A síntese da herança é o Reino que Deus confia aos cristãos. Contudo, essa herança é conquistada pela força do testemunho, à semelhança de Jesus (v. 17).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
. Descobrir, na caminhada da comunidade, o Deus único que suscita liberdade e vida para seu povo; apontar os ídolos que oprimem. Onde podemos experimentar, hoje, o único Deus libertador? (I leitura).
. O Deus-conosco se revela na práxis da comunidade cristã (evangelho). Qual é o monte e qual a Galiléia onde nossa comunidade se encontra com Deus? O que significa batizar em nome da Trindade um povo pobre e oprimido?
. A comunidade cristã é a família de Deus (II leitura). Quais as conseqüências pastorais dessa afirmação? Poderão subsistir discriminações e desigualdades, se não fazem parte da herança dos filhos de Deus?