
Dia - 03/07/04
A programação do segundo dia do Seminário Igreja e AIDS foi iniciada com a apresentação do Coral Renascendo do Grupo Solidariedade, composto por soropositivos e soronegativos do HIV. O coral cantou seis músicas. Em uma delas, os cantores conseguiram cantar com convicção o coro que dizia: "Deus, Onipotente És!"
Uma Proposta Para Educação Sexual e Saúde Reprodutiva
Com o tema Educação Sexual e Saúde Reprodutiva , o médico e coordenador continental de saúde integral do Conselho Latino-Americano de Igrejas, Eduardo Campaña , apresentou a proposta que o CLAI elaborou para as igrejas tratarem a sexualidade. Campaña ressaltou a importância do tema "sexualidade", porque Deus nos criou corpo e alma, de maneira integral. "Por muito tempo fomos influenciados pelas idéias de Platão de que o corpo era ruim e a alma boa. Deus nos diz que toda nossa integralidade é boa, nosso corpo e alma são uma coisa só para Deus". Ele também destacou a importância da igreja em promover uma sexualidade sadia. "Cremos na Igreja como as mãos, os pés e a boca de Deus. Por isso, investimos nossos esforços nela para que cumpra sua missão".
O CLAI elaborou com as Igrejas um manual de treinamento de educação sexual e saúde reprodutiva, que leva em conta os conhecimentos bíblicos e científicos. O manual já foi traduzido do espanhol para o francês e o português. O médico ressaltou ainda que o material está sendo utilizado com grande sucesso por quase mil facilitadores e que sua metodologia, baseada no ministério de Jesus, é de uma "aprendizagem construtivista", ou seja, leva em consideração a necessidade dos participantes e seus conhecimentos prévios.
Campaña mostrou que o conteúdo do manual apresenta oito temas de discussão:
1. Jesus, o facilitador.
2. Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
3. À imagem e semelhança.
4. A maravilha da Criação.
5. Meu ser sexual.
6. Homem e mulher os criou.
7. Sexualidade, liberdade e responsabilidade.
8. Sede fecundos e multiplicai-vos.
Perguntas
Após a apresentação do manual, o Dr. Eduardo abriu o espaço para perguntas do público. A seguir, algumas questões levantadas:
- "Esta proposta de trabalho será aplicada em quais públicos da igreja?"
"Podemos trabalhar estes temas com todos os públicos, desde crianças de 2 anos, adolescentes, jovens até adultos."
- "Tenho filhos adolescentes. Eles são bombardeados pelo apelo sexual, sexo virtual e valores passageiros. A mídia é culpada porque diz para o jovem que ele pode fazer tudo. Como melhorar esta situação?"
"Estamos nadando contra a corrente. Para combater a corrente, precisamos proporcionar espaços onde os jovens podem pensar, refletir. Mas devemos lembrar que tudo isto é um processo."
- "Qual a diferença entre genitalidade e sensualidade?"
"Sensualidade: sentir prazer através dos sentidos.
Genitalidade: ato sexual."
- "Parece que na Igreja Católica é mais difícil trabalhar o assunto, por causa do celibato. Qual a visão católica? " "Temos muitos facilitadores que trabalham com a Igreja Católica. Nossa dificuldade é sobre o preservativo. Mas nem todos seguem esta doutrina. Já vi muita boa aceitação sobre isto. Na prática, há boas respostas."
- "Como trabalhar a educação sexual, sem usar de um extremo a repressão e de outro a libertinagem?"
"A ciência nos fala que as coisas devem ter um limite, um tempo. Devemos trabalhar não com a palavra "pecado", mas sim com "conseqüências". Todas as conseqüências são terríveis (gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis, etc). Tudo que fazemos tem uma conseqüência. Os jovens precisam entender que se eles querem ter uma relação sexual, devem estar bem conscientes das conseqüências."
Painel
Após o intervalo, foi iniciado um painel de debate com o tema O Caminho da Prevenção em DST/HIV/AIDS (modelos e metodologia) . Participaram do painel: Eluzinete Pereira Garcia (coordenadora) e os expositores Jackson Martins de Andrade, pastor e pós-graduado em sexualidade humana e psicanálise; Beatriz Cristina Caetano, coordenadora do Projeto Comunidade em Ação do Grupo Solidariedade; e Márcia Rovena, médica e integrante do Programa Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde de Minas Gerais. Cada expositor teve 20 minutos para argumentos.
Pr. Jackson iniciou sua exposição questionando o que chamou de "programa de educação sexual abrangente". Segundo ele, este programa é baseado em mitos, e não é eficaz. Abaixo seguem algumas suposições que, segundo Jackson, são consideradas verdadeiras pelo programa de educação sexual abrangente. A cada suposição, o expositor apresentou sua refutação:
- " Os jovens querem mais sexo que amor ". O Pr. Jackson refutou esta afirmação, dizendo que jovens não querem tanto sexo, mas sim ser amados. "Ao invés de trabalhar a afetividade, os educadores estão apenas ensinando a fazer sexo", disse.
- "É irrealista pedir para os adolescentes esperarem" . Jackson afirmou que falta aos educadores trabalharem com os adolescentes a questão da disciplina.
- "A mídia ensina os adolescentes sobre o sexo". Jackson afirmou que o que a mídia tem transmitido é uma distorção, é algo grosseiro.
- "O sexo dos adolescentes não é da conta de ninguém". O pastor pergunta: "quem paga os 400 milhões de preservativos que são distribuídos? Quem paga os coquetéis contra a AIDS? É da nossa conta sim. Quem cuida dos menores abandonados? Muitos adolescentes são resultado de relacionamentos irresponsáveis".
- "O sexo seguro é realmente seguro" . Será? O adolescente não tem controle emocional, ele pode jogar de lado o preservativo.
- "Os adolescentes não precisam que os pais se envolvam nas suas relações sexuais" . Os pais devem conversar com os adolescentes sobre estas questões.
- "A educação sexual abrangente é isenta de valores e moral" . Será que é possível uma educação sexual amoral?
- "A educação sexual abrangente aumenta a responsabilidade do adolescente quanto à concepção". Sem princípios e valores não adianta nada.
- "A educação sexual abrangente não aumenta a promiscuidade". A promiscuidade está aumentando, os motéis estão mais próximos. Sexo é um negocio lucrativo, até a doença do sexo é lucrativa, há uma mentalidade capitalista, um "consumismo sexual".
- "A educação sexual abrangente reduz o aborto" - "Não!"
O Pr. Jackson ainda tratou de outros temas como:
"O papel da igreja e dos pais : Somos da geração da informação, não quer dizer que temos formação. É nossa responsabilidade como igreja estar formando. Infelizmente, estamos apenas informando. Pregamos, mas todos esquecem durante a semana. Não fazemos discipulado. A igreja e os pais têm a responsabilidade de discipular os filhos quanto à sexualidade. A igreja deve ter um programa de educação sexual. Não podemos falar só do céu, precisamos falar da terra também. Embora o tempo que passamos aqui seja muito menor, nosso tempo aqui vai influenciar nossa eternidade. Somos responsáveis pelas dores e sofrimentos das nossas igrejas. Devemos envolver os pais e ensinar as conseqüências da promiscuidade."
Abstinência : Temos que sair deste relativismo ético, sair da doença de hoje em dia: a "normose". Os jovens precisam fazer diferença entre o que é certo e errado. Precisamos ensinar a abstinência. Somos uma sociedade indisciplinada e hedonista. A abstinência é o único método 100% eficaz. Somos retrógrados, repressores? Não, estamos investindo na saúde espiritual e emocional. Todos dizem "faça". Mas dizemos "faça, mas com responsabilidade".
O que é sexo? : Reprodução, companheirismo e diversão. Ele se torna mais prazeroso quando há companheirismo. A maturidade pressupõe intimidade. Devemos construir relações significativas e duradoras.
Beatriz Cristina Caetano contou a experiência do Grupo Solidariedade e como eles trabalham a questão da sexualidade com a população mais pobre. Segundo Beatriz, é muito mais difícil para os mais pobres lidar com o vírus HIV/AIDS. Ela explicou que o Grupo Solidariedade trabalha principalmente fazendo a prevenção comunitária e buscando estabelecer parceria com outras organizações e com os governos. Além disso, Beatriz afirmou que quem deseja trabalhar com pessoas que convivem com o vírus precisa estar consciente que o trabalho é lento e não deve perder a esperança.
O Grupo Solidariedade é uma organização não-governamental criada em 1988 e tem como objetivo prestar assistência social e apoio espiritual e psicológico a quem convive com o HIV, estimular a promoção de uma política de saúde e emergencialmente distribuir cestas básicas.
A Dra. Márcia Rovena não concordou com algumas argumentações do Pr. Jackson. "Não concordo que o programa de educação sexual abrangente faz aumentar a promiscuidade. Há outros motivos, como a sociedade individualista e consumista. Esta afirmação não é comprovada. Não dá para ignorar as coisas boas que o programa de educação sexual abrangente proporciona, senão eu não estaria aqui e nossos trabalhos seriam nulos".
Márcia ressaltou sobre a necessidade de falar do tema da sexualidade. "Temos que conversar com os jovens sobre o assunto. Temos que investir na prevenção. Nas Igrejas, existe uma sexualidade oficial, que é aquela da que se fala, que nem sempre é a real e uma sexualidade vivida, que é a real. Eu prefiro trabalhar com a sexualidade real, que é o que presencio geralmente nas pessoas que procuram nossa ajuda, nas Igrejas".
Os expositores abriram espaço para as perguntas do público. Entre os assuntos questionados pelos participantes estavam: masturbação, educação sexual, o papel da mídia na banalização do sexo, a sociedade atual, etc.
O debate foi bastante produtivo, especialmente no que diz respeito à eficácia da educação sexual.
Abaixo algumas respostas dos expositores às perguntas do público:
"Tem jeito de transmitir educação sexual sem transmitir valores e princípios?"
"Pr. Jackson: Repassamos o que cremos. Passamos nossos valores na educação sexual abrangente. Se os valores são deturpados aumenta a promiscuidade."
"Não há uma maneira do governo conter o apelo sexual da mídia? "
"Pr. Jackson: Temos que ter cuidado com a ditadura, tanto do governo quanto da mídia. Mais do que ação do governo, é preciso ação da sociedade. Nosso processo é de formação, não de decretos."
"Dra. Márcia: A mídia banaliza a sexualidade, tratando-a como produto de consumo. Dificuldade de criar vínculos tem a ver com o que a sociedade vive, consumista, hedonista."
Compromissos e encaminhamentos
À tarde, o seminário foi iniciado com a apresentação da Companhia de Dança Ágape.
Em seguida, o público foi organizado novamente para as mesmas oficinas temáticas ministradas no dia anterior. Cada pessoa teve a oportunidade de participar de uma oficina que ainda não havia assistido.
Por volta das 16 horas e 30 minutos, os/as foram organizados em 11 grupos. O objetivo era que cada grupo refletisse no que tinha ouvido e aprendido durante o seminário e, a partir disso, estabelecesse compromissos e encaminhamentos práticos para serem aplicados em suas igrejas, comunidades e organizações.
Os encaminhamentos, idéias e compromissos definidos por cada um dos grupos foram os seguintes:
Grupo 1 : Criação de grupos multiplicadores divididos por região. Compor um grupo de estudo permanente, à parte das atividades rotineiras da Igreja.
Grupo 2 : Capacitação das lideranças de Belo Horizonte utilizando o material do CLAI e realização de outros seminários. Promover seminários como este em locais onde a comunidade carente possa estar presente, como escolas públicas, congregações, salões, entre outros lugares.
Grupo 3 : Realização de cursos para capacitação da liderança, como pastores, líderes de entidades, com maior carga horária e menor número de participantes. Elaboração de material informativo, dentro de um contexto teológico para subsidiar as reflexões. Incluir o conteúdo HIV/AIDS e sexualidade no currículo das faculdades teológicas. Divulgar e socializar os trabalhos já existentes nas igrejas. Oração constante.
Grupo 4 : Trabalhar com a liderança. Outras fontes de capacitação devem ser utilizadas.
Grupo 5 : Apresentar às lideranças das igrejas um projeto de seminário. Promover seminário de capacitação para as lideranças das igrejas. Identificar as lideranças e divulgar a Carta de BH. Prevenção por Pares dentro das igrejas com grupos permanentes.
Grupo 6 : Convocação dos líderes das igrejas para apresentação do Programa de Prevenção de DST/AIDS de BH. Deve-se firmar um acordo para a implantação do Programa de Educação Sexual e Saúde Reprodutiva para grupo de líderes de cada igreja. Implantação de um acordo fixo nas igrejas onde líderes pioneiros irão treinar os demais líderes de cada ministério para que o tema possa ser abordado em toda as igrejas, através da escola dominical, acampamentos, curso de casais, etc.
Grupo 7 : Que cursos sejam ministrados para abordarem temas com as lideranças. Sugestão de temas: Abuso Sexual, afetividade, religião e sexualidade. Adequação dos temas com linguagem destinada aos públicos específicos.
Grupo 8 : A igreja tem que abrir os olhos para a realidade. Influenciar o próximo com o nível de conhecimento que já tem. Buscar capacitação e treinamento específico dentro dos princípios bíblicos. Sensibilizar nossa liderança quanto à realidade atual - dentro e fora da igreja, inclusive, os conselhos de pastores.
Grupo 9 : Organizar um seminário com temas específicos e número de participantes limitados para os mesmos participarem de todas as oficinas. Elaboração de calendário contendo temas dos respectivos seminários.
Grupo 10 : Trazer para Belo Horizonte o Programa de Educação Sexual e Saúde Reprodutiva . Criar um fórum permanente para debates sobre o assunto. Encaminhar um documento às lideranças das denominações evangélicas do Estado, sugerindo os temas DST, HIV, AIDS para fazerem parte do programa das igrejas.
Grupo 11 : Sensibilização das lideranças apresentando o programa. Buscar contato com os pastores e lideranças. A partir disso, formar pequenos grupos por faixa etária e gênero nas igrejas. Buscar conteúdo nas instituições e fazer parcerias e, ao mesmo tempo, divulgar e oferecer o trabalho na comunidade.
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